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Mercado Oriental

Restaurantes, Asiático contemporâneo Santa Maria Maior
4 /5 estrelas
Mercado Oriental Martim Moniz
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©Inês Félix
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O Martim Moniz tem desde há algum tempo um desses supermercados Amanhecer transnacionais, onde os cogumelos shitake e as pimentas de Sichuan convivem com a laranja do Algarve e o queijo flamengo. Ora, foi no topo desse supermercado, alojado numa espécie de galeria comercial, que há uns meses nasceu o Mercado Oriental. E o que é o Mercado Oriental? A resposta não é simples.

Na verdade, não é um restaurante mas vários restaurantes que partilham as mesmas mesas. O maior promotor e ideólogo do projecto, o chef André Magalhães (da Taberna da Rua das Flores e da Taberna Fina), chama-lhe hawker centre. “Hawker” quer dizer vendedor ambulante. No conceito original, os hawker centres nasceram na Ásia com a função de dar tecto e condições sanitárias às bancas de rua, mantendo o espírito e os preços da chamada street food. Em Singapura, Malásia, Hong Kong, mas também noutras comunidades asiáticas no estrangeiro, como as que existem na Austrália ou em Los Angeles, proliferam estas instalações, frequentemente espaços sem sofisticação mas com boa comida cozinhada por autóctones.

Ora, André Magalhães podia até ter esta referência. E percebe-se o distanciamento do imaginário do food court. Mas é forçar a nota. O chef, profissional bem
-sucedido e um gastrónomo culto, tem três bancas no Mercado Oriental, num total de oito (uma
 é de comida portuguesa (?)). E sendo porventura quem mais sabe de gastronomia asiática em Portugal, não é nem um autóctone asiático nem um comerciante de rua. Da mesma forma, os preços da maioria destes restaurantes, embora justos, estão mais próximos do centro comercial lisboeta do que do vendedor de rua de Ho Chi Minh. Em português de Portugal, o Mercado Oriental é uma praça de alimentação asiática. Das boas.

Uma das coisas de que mais gosto é a sua desarrumação barulhenta. Logo à entrada, do lado esquerdo, temos aquilo que parece ser um snack bar com croquetes e pastelaria industrial. Da primeira vez que lá entrei nem olhei para o menu. Na segunda visita, todavia, o amigo que me acompanhava chamou-me a atenção. “Já viste o que aquele chinês está a fazer?” Num cantinho do tal snack bar, entre empregados ocidentais, o homem estava a armar noodles à mão, a partir de uma bola de massa. Segundos depois, imergia o novelo de esparguete no caldo de um tacho ao lume, base daquilo a que chamam de “ramen de noodles Lanzhou” (5€, 3 estrelas). O uso do nome ramen é oportunista, mas os noodles eram firmes e o caldo, não sendo gordo nem intenso, estava perfeito de sal e saboroso.

A maioria da clientela de origem chinesa repartia-se por esta banca, chamada Noodles Delight, logo à entrada, mas também pela Mint House, já no piso de cima. A Mint House, de cozinha vietnamita, é uma das bancas mais populares e interessantes do espaço. Para além de servir a melhor sopa pho bo que comi em Lisboa (6€, 4 estrelas), tem uma óptima massa de arroz com legumes salteados (6€, 4 estrelas), ligeiramente doce, com gambas fritas panadas. Por 7,30€ consegue-se comer e beber uma cerveja, sendo o melhor negócio do Mercado.

Ao lado, os preços já sobem.
O K-Bab faz comida coreana,
 uma raridade em Lisboa e no
país: do que conheço, há o Xin,
 um restaurante em Odivelas, e nada mais. Provei o bibimbap, o prato mais famoso fora de portas
 e pequeno-almoço de muitos coreanos. A palavra decompõe-se em “bibim”, que significa mistura de ingredientes, e “bap”, que se refere ao arroz. Depois de feito o pedido, a tigela vai a lume forte, 
já com todos os ingredientes cozinhados à parte (arroz
 branco e no topo carne picada, curgete, cenoura, cogumelos ecebola). É esse aquecimento
 que produz uma das coisas mais belas do bibimbap: a crosta de arroz caramelizado e crocante agarrada à base. A segunda coisa mais bela do bibimbap chama-se gochujang, uma pasta servida à parte que deve ser misturada no final. O rapaz atrás do balcão foi claro: “Se não puser isso não vai ser bom”. O gochujang é feito à base de chiles coreanos triturados (gochugaru), soja fermentada
e arroz glutinoso. Tinha razão o rapaz e eu teria gostado de um gochujang ainda mais poderoso, e o mesmo digo do kimchi, a couve fermentada coreana, servida à parte, com pouca acidez e pouco fogo. O bibimbap custa 12 euros (4 estrelas), mas é uma oportunidade única para se experimentar um dos pratos mais icónicos da gastronomia mundial. Outro prato célebre do K-Bab é o frango frito, denominado yangnyeom chicken. Custa 10 euros mas traz frango para dois (4 estrelas). Na receita original o frango é primeiro forrado com uma mistura de farinhas de trigo, de arroz e de amido de milho e leva uma segunda capa com a massa, depois de acrescentada água. Já frito em pedaços, os pedaços são passados num molho avermelhado pegajoso, agridoce e picante (poucochinho picante).

Caminhando depois para o corredor da esquerda, temos então a ala de André Magalhães. Nos seus restaurantes já não há ementas plastificadas com más fotografias dos pratos. Ao fundo, um neon anuncia o Bao Bar e centraliza as ementas num cartaz com dedo de designer. É aqui que se paga e se faz os pedidos para as outras duas bancas de este outro Magalhães que também rumou a Oriente. Começando pelo Bao Bar, provaram-se dois baos, os pãezinhos fofos que invadiram Lisboa desde há uns anos, e que são particularmente populares em Taiwan. O Pok! Bang! leva barriga de porco e, segundo o próprio André Magalhães, é a receita de um dos restaurantes mais famosos de Taiwan, o Lan Jia Gua Bao. No bao original, a barriga de porco é servida em pedaços, quase desfeita, misturada com folha
de mostarda e amendoim em pó. Aqui, não andou longe de outros exemplares: estava bom sem ser espectacular, a barriga cortada como uma entremeada, falho em verdura e em pó de amendoim torrado, com os coentros a dominarem tudo (8€, 3 estrelas). Gostei mais do bao de caranguejo de casca mole, o pángxiè (8€, 4 estrelas). Nas bebidas, a shangria, com vinho de arroz, líchias e abrunhos é um tiro ao lado (3€) que nos deixa um amargo de boca; mas há uns refrigerantes chineses curiosos, como o de líchia e chá (2,80€).

Logo ali ao lado está a Taberna 
de Macau. A culinária de Macau
 é uma tradição praticamente extinta, mesmo em Macau. É
 feita de um receituário exótico, essencialmente luso-chinês,
mas com adaptações de outros territórios por onde os portugueses andaram. André Magalhães traz para aqui essa memória – e muito bem. Provou-se o Bao Zai Fan, arroz com chouriço (doce), frango e bacon, servido em tigela à moda do bibimbap, mas indo ao forno e não ao lume (8€, 3 estrelas). E note-se também a óptima bebinca de leite, que em Macau (como noutros territórios asiáticos que não a Índia) não vem em camadas, mas num pudim cremoso, muito bom (3€, 4 estrelas).

Viajámos depois para o Kamakura, no Japão, onde se foram buscar as katsu sando, outra bela ideia de Magalhães. 
As katsu sando são panados
 entre duas fatias de pão de forma torradas. Panados dentro de pão pode parecer uma redundância idiota, mas a verdade é que funciona. A de bife de vaca vem particularmente bem servida, quatro pedaços com o pão altinho (metade da grossura estaria melhor). Recomenda-se que os partilhe com outra pessoa (7€,
 4 estrelas). Na mesma paragem, há ainda as tradicionais donburi, taças de arroz com coberturas diversas. A mais requisitada é o katsudon, a costeleta de porco panada cortada às tiras sobre arroz, com cebola e um ovo displicente atirado lá para cima, tudo regado com o maravilhoso dashi acídulo. O prato, que nos conforta como uma manta
de lã, só pecou pelo facto de haver pedaços de clara de ovo totalmente crua, porventura por falta de temperatura do caldo (7€, 3 estrelas). A terminar, o bolo de creme de castanhas, quatro euros de sobremesa que não se justificaram: a base era um pão de ló sequinho, em forma de queque, que a pasta de castanhas não resgatou da mediania (2 estrelas).

Resta falar de dois espaços,
 os menos interessantes deste mercado. Um é o Sushi House, onde se fazem hosomakis, mas também niguiris e temakis e vários combinados — versão e qualidade de sushi chinês (3 estrelas). O outro é o Cantinho do Chef, de culinária portuguesa, cujo cartão de visita é um polvo com risquinhos de balsâmico. Passei.

O Mercado Oriental já é uma maravilha. E pode ser ainda melhor.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Por Editores da Time Out Lisboa

Publicado:

Nome do local Mercado Oriental
Endereço Rua da Palma, 41
Lisboa
1150-052
Horário Todos os dias 12.00-23.00
Preço 7,50€ a 20€
É o proprietário deste estabelecimento?
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