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O Jacinto

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  • 3/5 estrelas
  1. O Jacinto
    Francisco Romão Pereira
  2. O Jacinto
    Francisco Romão Pereira
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A Time Out diz

3/5 estrelas

A restauração regional da cidade conformou-se com a açorda de gambas e a salada de polvo. Alfredo Lacerda visitou um exemplo disso, em Telheiras.

Há uma longa tradição de restaurantes com nome próprio. O Jacinto pareceu-me um dos melhores. Jacinto é nome antigo, que remete para uma das personagens mais gastronómicas do escritor Eça de Queiroz. 

No livro A Cidade e as Serras, Jacinto redescobre as origens familiares e os prazeres do campo. Depois de uma infância sofisticada em Paris, instala-se na Casa de Tormes, no Douro, onde desperta para as iguarias serranas evocadas pelos seus pais: o cabrito assado, as sopas douradas, a canja de galinha, o leitão, o arroz de favas. Um caminho sem retorno. 

Seria O Jacinto, em Telheiras, esse poiso a cheirar a lenha e tacho, que tanto confortou a personagem de Eça? Seria O Jacinto um caminho sem retorno? 

A verdade é que é fácil de lá chegar e também fácil de lá sair. Para quem vai na Segunda Circular, corta-se na placa a dizer “Restaurante”, mal passamos o Estádio de Alvalade, e 50 metros à frente estamos numa praceta pacata, rodeada de vivendas antigas. O Jacinto está logo ali, moradia transformada em restaurante, desde 1971. 

Ao almoço, é frequente vermos berlindas a estacionar com pessoas de fato e gravata. Lá dentro, percebe-se a intervenção de decorador, num redesign que era moderninho em 1990 e que agradará a executivos sexagenários à procura de “casas com qualidade”. 

Os preços adequam-se perfeitamente ao registo “mete a factura na empresa”. Nem todos os restaurantes cabem nesse perfil. Há restaurantes demasiado caros para pôr a factura na empresa e há restaurantes demasiado baratos para pôr a factura na empresa. É um talento encontrar esse meio termo que passará incólume na contabilidade e no crivo do sócio. Diria que o ideal é andar-se entre os 30 e os 40 euros, que é onde anda o O Jacinto — e talvez isso ajude a explicar a sala esgotada. 

Se é muito ou pouco é o que esmiuçaremos de seguida, sem a verve queirosiana, mas com verdade. 

Factos paraliterários. Carta com os clássicos do restaurante tradicional carote, de Lisboa. Estamos no campeonato do Solar dos Presuntos, do Pabe, mas com menos oferta e menos matéria-prima de luxo. Nas entradas, destacam-se meia-dúzia de saladinhas, da orelheira à salada de polvo; nas entradas quentes, há material vintage, como queijo de cabra gratinado com mel e cogumelos salteados com presunto, mas também alheira frita (alheiras grelham-se, a não ser que sejam fraquinhas) e “gambas à guilho”. 

Nos principais, “polvo assado” (de semblante guisado) com batatas a murro; pratos de tacho, como arroz de cherne e gambas, açorda de bacalhau com espargos verdes e açorda de gambas; bochechas de novilho estufadas; arroz de cabidela — entre outros. Há ainda uma secção com três “bifes”, um deles uma picanha (!). 

O serviço é simpático, não particularmente conhecedor nem rápido. Quando perguntámos sobre o cachaço de “porco preto” — sabe se é porco de raça alentejana? — o empregado abriu muito os olhos, com aquela cara de António Costa ao saber da indemnização paga à sua ex-secretária de Estado do Tesouro. “Só sei que é ibérico”. Foi uma saída airosa, palmas a isso.

Os principais demoraram 40 minutos a chegar e chegaram morninhos, em pratos frios (num restaurante destes, já se exige pratos aquecidos). Sobre o dito cachaço, era assado e veio tenro e suculento, mas com um molho tão forte, tão puxado de sal, que o bicho podia ser um suíno branco do Montijo que poucos notariam a diferença na estirpe. Acompanharam castanhas e batata assada, mais o clássico entulho de grelos com alho, ubíquo na carta (e na cidade, diga-se). 

No prato de marisco, arrisquei na açorda de gambas. Há um erro comum nas açordas, que é serem papas. Açordas não são papas, são puxados de pão (de preferência rijo e ácido), quase sempre com muito alho, azeite, ervas aromáticas (coentros, poejo) e caldo. A regra, todavia, é outra: pão branco de fermento industrial macerado em água, com uma ervinha ou outra, um alhinho ou outro — e sai uma coisa deslavada. Nalgumas casas, faz-se aquela coisa do empregado vir mexer o ovo cru à mesa, em cima da papa, o que é impressivo, mas não salva o prato. 

A açorda do Jacinto — perdão, de O Jacinto — não era uma papa deslavada, mas faltava-lhe mesmo assim personalidade, ainda que estando bem recheada de gambas (não seriam camarões?) de bom tamanho e rijinhas, como devem ser as gambas. 

Nos doces, perguntámos pelas especialidades, como é costume, e, como é costume, o empregado respondeu “são todas boas”. Deu-nos depois indicação do que era feito na casa e nós seguimos pela tarte de maçã com gelado de baunilha (dúvidas sobre a tarte ser caseira, certezas sobre a origem “de supermercado” do gelado). 

A carta de vinhos é clássica, mas muito acima da média, bem organizada por regiões, e com preços decentes. 

Em síntese, que diria Jacinto de O Jacinto? Puxamos pelo livro. “Nesta densa e pairante camada de ideias e fórmulas que constitui a atmosfera mental das cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas”, escreveu o narrador de A Cidade e as Serras — e pode ser muito isto. Não há nada de mal neste O Jacinto, mas parece também não haver nada de emocionante e distinto.

Onde andam os arrozes com favas deste país? 

Alfredo Lacerda
Escrito por
Alfredo Lacerda

Detalhes

Endereço
Av. Ventura Terra, 2
Lisboa
Horário
Seg-Sáb 12.00-15.00, 19.30-22.30
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