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O Rodas

  • Restaurantes
  • Avenida da Liberdade/Príncipe Real
  • preço 1 de 4
  • 3/5 estrelas
  1. Restaurante, Cozinha Portuguesa, O Rodas
    ©Ricardo LopesO Rodas
  2. Restaurante, Cozinha Portuguesa, O Rodas
    ©Ricardo LopesO Rodas
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A Time Out diz

3/5 estrelas

A posta mirandesa de avestruz está entre os pratos que mais gozo me deram na vida. Não por ser especialmente bom, mas por ser bestialmente parvo. Rir, confesso, é dos maiores prazeres que tenho à mesa, e vinte anos depois de ter avistado a proposta inscrita numa ementa algures ao sul do Tejo, ainda me griso com a lembrança.

Recordo isto frente a uma chanfana de javali no Rodas, ao Largo do Rato. A chanfana é uma gloriosa criação da gastronomia de subsistência, um estufado feito com muito tinto e horas de paciência para uma cabra velha ou uma ovelha estafada, e ver a receita aplicada a outro animal pode parecer tão inusitado como a posta do galináceo. Mas a verdade é que o processo pensado para amansar uma carne dura como cornos funciona lindamente com a carne tesa e sempre em risco de secar do javali. Quem tiver dúvidas, passe aqui numa segunda-feira.

O Rato é lugar central e de passagem, plataforma giratória de gente a caminho de outro sítio qualquer. Hoje é a segunda seguinte às eleições, e pode até parecer que estou a fazer análise política matreira, mas quero apenas ajudar a explicar a clientela da casa, que é composta em iguais partes por militantes de todos os dias e simpatizantes de ocasião. São 12.30 e o Rodas está preenchido como de costume, entre polícias e carteiros, gente com ar de quem trabalha com as mãos e malta de fatinho que, estou capaz de apostar, vem do edifício rosa no outro lado da rua.

O javali chega, mansinho, numa travessa generosa, escoltado com boa batata cozida, e confirma aquilo que já há algum tempo percebi: no Rodas, o tacho e o forno são melhores do que o resto. Às sextas-feiras, o bicho aparece grelhado sem a mesma graça, um nadinha ressequido por um lume demasiado assanhado e salvo por uma guarnição de óptimas batatas fritas. Muito melhor no forno, a carne a ceder num refogado com tempo. É o mesmo forno competente de onde sai o cabrito à padeiro, macio e tostado por fora, a chicha a despegar do osso, que já me fez regressar duas quartas-feiras, sempre com boa batata assada e um apurado arroz de miúdos.

Já no tacho faz-se todas as quintas-feiras uma galinha de cabidela muito recomendável, a ave firme, o carolino no ponto, o sangue bem balanceado com o vinagre; uma feijoada à transmontana, que é anunciada aos domingos, mas sobra sempre para as segundas, rica de enchidos, pezinhos, entrecosto e couve (tão rica que dá pena não ter mais feijão); ou umas excelentes favas, pequeninas, bem guisadas, fartas também de enchidos e entrecosto, toque precioso de hortelã, que só apanhei uma vez mas, se bem percebi, são regulares à terça-feira. E há o cozido, que finta a tradição das quintas e comparece religiosamente às terças, e que me chegou com as cozeduras todas no tempo, um arroz que lamentei não ser do próprio cozido, mas bem apetrechado com a mesma boa selecção de carnes da feijoada e das favas.

Fora disso, a oferta é ainda grande, inclui uns lagareiros de polvo e de bacalhau que estou para provar e que também têm lugar cativo às segundas, e uma oferta regular de carnes na grelha, que cumprem sem deixar memória. O serviço é eficiente, simpático e rapidamente nos cai no goto, e o mesmo se pode dizer, sem tirar nem pôr, do tinto da casa.

Resta-me lamentar o pão, naquele formato papo-seco plastificado, que tristemente ganha espaço na cidade e que desmerece tudo o resto. E, em contrapartida, louvar as sobremesas, onde descobri uma bela tarte de requeijão e abóbora, húmida e no ponto de doçura, baixinha mas potente, uma espécie de Salma Hayek fatiada.

O empregado aproxima-se da mesa do lado, onde almoça um militante da casa, e com familiaridade bastante para algum picante, murmura uma anedota fresquinha. Eu, que gosto tanto de rir à mesa, esforço-me por escutar. Sem sucesso. No fim, gargalham de uma pilhéria que é lá só deles. “Desta não estava à espera, pois não? Deixe lá, ontem parece que também ninguém esperava aquele resultado.”

*Os críticos da Time Out visitam os restaurantes de forma anónima e pagam pelas refeições.

José Margarido
Escrito por
José Margarido

Detalhes

Endereço
Largo do Rato, 10A
Lisboa
1250-186
Preço
Preço médio 12€
Horário
Seg-Dom 12.00-15.30/18.00-22.00
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