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Pelicana

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  • Lisboa
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Pelicana
Mariana Valle LimaPelicana
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A Time Out diz

3/5 estrelas

Violeta de Vasconcellos manifesta-se contra a absolutização das boas ideias.


Vamos pensar numa boa ideia: por exemplo, agarrar num terço de banana, espetá-la num pauzinho, mergulhá-la em chocolate, cobrir de algum fruto seco e congelar. Isto é coisa que não ofende: rápido, simples, deleite caseiro garantido. Agora pensemos que este simples gesto – não lhe podemos chegar a acrescentar o adjectivo gastronómico, pois não? – resulta num produto vendido a 3€ nos locais mais fancy-cool da cidade mais fancy-cool do universo. É precisamente esse o negócio da Pelicana. Como lidamos? Que sentimentos nos ficam? O que nos cabe dizer?

Sobre o produto, pouco: é um terço de banana coberto por uma camada de um milímetro de chocolate, coberto de frutos secos (há opção sem). A mistura do chocolate e da banana é um clássico inatacável, o chocolate é de boa qualidade, o amendoim compõe muito bem a pirâmide gustativa. A banana funciona bem congelada, embora possa ser desafiante de trincar para dentes de maior sensibilidade, mas não se pode dizer que não pareça predestinada a ser gelado natural (a pouca percentagem de água no fruto ajudará certamente à criação de uma textura naturalmente mais cremosa).
Como disse no início, isto é indubitavelmente uma boa ideia. O que eu pergunto, com total honestidade, é se qualquer boa ideia pode e deve ser transformada em produto comercializável. É isso que queremos enquanto sociedade? Isto deixa-nos confortável com o rumo da História? A mim, nem por isso.

Eu quero frisar que comi esta banana congelada espetada num pauzinho, servida numa tacinha lindíssima que, por sua vez, vinha sobre um prato lindíssimo, tudo dentro de uma palete de cores coerente com tudo o que demais era visível e sensível, num sítio que às onze da manhã já passa música ambiente de sunset party. Fico com uma aguçada noção do esgotamento e saturação da experiência urbana, onde literalmente tudo – até uma banana congelada espetada num pauzinho – pode ter presença numa carta, com direito a pancarta publicitária à porta.

Gosto realmente de coisas simples, mas sinto muito pudor quando assisto à vampirização da simplicidade.

Violeta de Vasconcellos
Escrito por
Violeta de Vasconcellos

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R. Maria 50 - C
Lisboa
1170-212
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