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Retiro do Pescador

Restaurantes, Português Grande Lisboa
3 /5 estrelas
Retiro do Pescador
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Fotografia: Manuel Manso
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Fotografia: Manuel Manso
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Fotografia: Manuel Manso

A Time Out diz

3 /5 estrelas

Há boas razões para as pessoas rumarem às praias como formigas ao pote na ânsia de comer peixe.
 Os restaurantes de praia têm uma boa probabilidade de conseguirem peixe mais fresco e mais barato. Infelizmente, isso só acontece nalguns e, frequentemente, de forma clandestina: os pescadores, em vez de irem à lota vender robalo por tuta e meia (ou truta e meia), vão directamente a quem distribui ao consumidor final e ainda bem – poupa-se tempo, poupam-se intermediários, fica a ganhar quem arrisca mais.

Não sei se é isso que acontece no Retiro do Pescador, mas gosto de imaginar que sim, pelo menos em certas alturas do ano. Que não esta.

A visita ao restaurante da Fonte
 da Telha, praia que apanha Almada
 e Sesimbra, acontece em meados de Agosto, bem no pico de veraneio. Às 14.45 o sítio está cheio e eu imagino que já tivessem sido servidas umas centenas de pessoas – e de peixes. O empregado a borda-mecomoabordam os empregados que já serviram umas centenas de pessoas. Antes de estar sentado, já me está a perguntar que peixe quero e a pôr à frente uns pastéis de bacalhau renegados e tortos. Pergunto-lhe se posso ver o peixe e
 ele assente. Não há vitrina, mas há uma bandeja que vai à mesa. Entre os espécimes estão bichos com diversos níveis de frescura, alguns já de olho baço e côncavo. Pergunto se a dourada, pequena, é de mar. “É, sim”. De certeza? “É, sim”. Não era, não.

Enquanto espero, distraio-me
 com o sítio. O lugar da Fonte da Telha
 é um horror urbanístico a lembrar a Albânia. Há vários restaurantes tão em cima do mar que quase podemos apanhar carreirinhas sentados
 na esplanada. A estrada, do outro 
lado, desemboca num largo onde os autocarros têm de fazer sempre uma manobra que põe o trânsito histérico. Em redor, estacionamento sem lei, lojas de baldinhos e chapéus de sol, transeuntes esgueirando-se no meio do caos em direcção a dois metros quadrados de areia.

Ao meu metro quadrado chegam agora umas amêijoas à Bulhão Pato. São gordas e grandes como raramente se encontram em Portugal (voa quase tudo para Espanha). O empregado garante que são de Alcácer do Sal,
 ou seja, do Sado, mas a indicação sai-lhe outra vez sem convicção. Em todo o caso, o molho está saboroso de coentros frescos e alhos esmagados e sabemos que isso vale 70 por cento da experiência.

Ainda não acabei os bivalves, ainda não aterrou a salada de choco mas o peixe já está na mesa. Vem escalado em dois filetes polvilhados de salsa picada com duas batatas cozidas ao lado.

Não sou dos que se indignam com o peixe escalado e seu arrazoado: perde- -se humidade, perde-se sabor, perde-se a dignidade do animal e blá-blá-blá de gourmet. Nem sempre. Depende. Há coisas boas no peixe escalado. O peixe escalado significa que terei quatro superfícies douradas (e não duas torradas) e o sal mais bem distribuído. Se quem estiver na grelha souber do ofício, essa ideia de que o peixe fica seco por dentro é uma treta. Fica seco se deixarem secar. E aqui não deixam.

Apesar de a dourada ser de aquacultura é uma boa dourada e está suculenta e com a pele crocante sem ponta de torrado. Pena a salada de vegetais não aparecer.

O que aparece, ainda que fora de tempo, é a salada de choco. Não há um pedido de desculpas, uma justificação – nem para o timing nem para estar ressequida. A cebola, picada fininha, é velha. O choco não é do Pacífico mas está duro como cartão.


Nisto, brilha o sol e brilha o mar e podemos estender a mão e tocar na areia. A terminar, novo bate-boca 
com o empregado, agora sobre as sobremesas. “Melão”. E mais? “Temos o doce da casa”. É caseiro? “É, sim”. Volta aquele ar aéreo e encenado, o olhar fugidio sobre as ondas. Sinto que é preciso esmiuçar o tema, há
mil e uma formas de uma coisa ser caseira sem o ser. Esta é uma delas. “Bem, leva uma camada de pudim”. Ah, sim. Que pudim? “Como aquele do Boca Doce”. Mas esse não é caseiro. “Fazemo-lo cá”. Já faltava. “Ele
 é, isso sim, instantâneo.” Grande profissional da malandrice. “Mas a mousse não é”. E não era.

Este Retiro do Pescador é assim. Dá ideia que sabe fazer, mas depois
é inconstante. Os empregados são muitos, vi uns muito diligentes e simpáticos. O peixe há-de ser muito e há-de ter do bom e do mau. É preciso estar atento. E é preciso ir lá quando os pescadores lá vão. Fora de Agosto.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Por Editores da Time Out Lisboa

Publicado:

Detalhes

Endereço Fonte da Telha
Avenida do 1º de Maio, 242
(Costa da Caparica)
Almada
2825-486
Preço 15-25€
Contato
Horário Seg-Sex 11.00-21.30, Sáb-Dom 11.00-22.00
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