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Rocco

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  1. Rocco, The Ivens Hotel
    Francisco Nogueira
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    ©Francisco NogueiraRocco, The Ivens Hotel
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    Francisco Nogueira
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A Time Out diz

3/5 estrelas

Ela é uma mulher exuberante e de traços orientais, macacão-calção leopardo, meias teia-de-aranha e botas com salto, as maçãs do rosto e os lábios botoxados. Emana vapores de sândalo e algodão doce e está acompanhada de um americano grande e grosso, com um Omega no pulso. Ao início parecem um casal quarentão, mas ela conta-lhe coisas que uma pessoa com quem já se dormiu teria de saber. “A marca de tabaco que fumo não é vendida nas máquinas. É muito chato”, diz, no preciso momento em que Miguel Relvas, antigo secretário-geral do PSD, desertado da política (e da Universidade Lusófona), passa nas suas costas.

Nisto, chega o seu cheesecake e o meu creme de santola. Sinto que fico a perder. A sobremesa dela é majestosa (para duas pessoas) e leva um “jus” (ulálá) de morango, derramado no momento e captado em vídeo (“Este vai para o Instagram”). O meu creme de santola é uma bisque aguada com fiapos da carne do crustáceo e croûtons servidos à parte, sem energia.

O que falta na sopa sobra na música ambiente. O DJ de serviço toca um jazz frenético e não está sozinho. Acompanha-o um violinista, que vai dançando e chiando o instrumento – eléctrico, sem fios – por cima do ritmo de fundo, qual Vanessa Mae. Será isto a versão sofisticada do saxofonista de hotel de Montegordo? A mulher asiática não liga ao jogral e acaba por desviar as atenções. Toda a gente naquele balcão parece ter a mesma questão. Que tipo de relação terá com o americano? Será um encontro Tinder, gama alta?

Sobre a sua competência gastronómica, não há dúvidas. “Queres outro copo?”, insiste ele. “Sim, outro Crasto, por favor”, assente ela. O Crasto é o Quinta do Crasto Superior Syrah, tido como referência nacional da casta. Depois, ela pede licença para ir à casa de banho, que fica junto ao ristorante. A carta do ristorante serve cozinha italiana opulenta, do linguine de lavagante ao risoto de carabineiro. Percebo, depois, que foi lá que o par jantou, antes de subir ao gastrobar para a sobremesa.

Entretanto, o homem americano decide levantar-se e sai porta fora. Com a vista mais desimpedida, aprecio o ambiente em redor.

No gastrobar, imperam cadeiras altas com padrões florais, chão em xadrez e um balcão oval em redor do qual se encontra um grupo heterogéneo de pessoas ricas e outras que gostariam de ser ricas. Há amigas bebericando negroni, marretas da maledicência. No lado oposto, uma francesa de volta de um pisco sour, óculos de massa, com seu namorado de chapéu de aba larga: ela podia ser escritora, ele podia ser um cantautor indie. Ao fundo, amigos e familiares em celebração de aniversário.

As mulheres vestem blusas com dobras econtra-dobras, como esculturas. Os homens são grisalhos, usam o terceiro botão da camisa desabotoado, consomem garrafas que custam mais do que bicicletas (eléctricas) e são servidos pelo sommelier do ristorante.

No meu caso, quem me serve o vinho é um miúdo inexperiente ou tonto. Quando lhe pergunto a temperatura do tinto, por exemplo, diz-me que estará a uns 14-16 oC. Sem pudor, retira a garrafa do cimo do balcão, onde o ar morno permite à mulher sentada em frente estar de alças. Felizmente, chega o bacalhau à Brás, que me arrefece os ânimos. Vem com uma gema no topo e está absolutamente perfeito: no ponto da batata, no bacalhau lascado, na untuosidade do ovo.

Para terminar, peço o prego. O pão está denso como plasticina e sem as “mostardas especiais” anunciadas (que se revelariam, afinal, produtos de supermercado: Savora, Maille e Delouis). Parte do problema é o pão em si; a outra parte é não estar bem torrado. Numa tentativa de salvamento, o chefe de sala acorre e sugere que os despojos sejam reenviados para a grelha. Voltam segundos depois, praticamente iguais, secos e borrachosos, sem dignidade para os 19€ cobrados.

Salva-se a honra com o tiramisù, excelente, acompanhado de um Martini Expresso, bebida em boa hora sugerida pelo barman. Casam na perfeição, coisa que não sucede com os nossos amigos.

Já vou para o café e o homem ainda não voltou, deixando a companheira plantada. Tudo aponta para um desenlace surpreendente. Ele, afinal, voltou para o seu hostel, sem pagar a conta. No dia seguinte, estará a voar para Boston, onde é assalariado numa relojoaria. Será? Não. O americano regressa, por fim, esbaforido, com um maço de Davidoff na mão. “Corri a cidade toda.” A vamp gastrónoma salta da cadeira e abraça-o. “Oh, you’re so sweet”.

Quando já estou de saída, julgo passar por Margarida Rebelo Pinto. A crónica de costumes está assegurada. Com final feliz.

Alfredo Lacerda
Escrito por
Alfredo Lacerda

Detalhes

Endereço
The Ivens Hotel
Rua Ivens, 14
Lisboa
1200-227
Horário
Dom-Qua 10.30-00.00, Qui-Sáb 10h30-01.00
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