Salsa e Coentros

Restaurantes Alvalade
Escolha dos críticos
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Salsa e Coentros
Fotografia: Ana Luzia

Mick Jagger apareceu um dia para jantar, no ano seguinte o co-fundador deixou o palco. Alfredo Lacerda revisitou um clássico da cidade

No dia 28 de Maio de 2014, José Duarte, sócio e chefe de sala do Salsa & Coentros, recebeu um telefonema raro. Uma pessoa do staff dos Rolling Stones queria fazer uma marcação para Mick Jagger. E tinha de ser na cave. De início, pensou que se tratava de uma brincadeira. Apesar de tudo, Lisboa tinha uma dúzia de restaurantes mais opulentos e exclusivos. E a sua cave era o sítio maldito do restaurante, o sítio onde ninguém gostava de jantar.

Nada, no entanto, tinha sido por acaso. Duas portuguesas haviam gerido cuidadosamente as refeições da estrela rock durante a sua estadia para o Rock in Rio. A primeira foi a cantora Ana Moura, amiga de Jagger. A segunda foi a radialista Inês Maria Meneses, foodie e amiga de Ana Moura. Meneses aconselhara já a Casa de Pasto e para o segundo dia escolheu o Salsa & Coentros. Razões: a boa cozinha portuguesa do sítio - e responder a um requisito essencial dos Stones: ter uma sala privada.

Desse dia em diante, José Duarte passou a ter um argumento para seduzir os resistentes da cave. De cada vez que alguém rezingava por ter de comer na sala debaixo, ele contrapunha. “Olhe que vai comer na mesma mesa onde Mick Jagger jantou”.

Das quatro vez que lá reservei mesa, em duas fui remetido para o subsolo onde sir Mick um dia respirou. E desta vez não só jantei na mesma mesa como comecei a refeição da mesma maneira.

Jagger terá provado as favinhas de coentrada, adorou. Eu acompanhei-o. A leguminosa veio num óptimo azeite com alho em cru (e chalotas?) muito picadinho. O molho é usado noutros pratos e deve obedecer a uma ciência rigorosa porque é absolutamente simples mas tem um equilíbrio absolutamente difícil e perfeito entre gordura, acidez e picante. E nem é importante para aqui se no dia os coentros foram substituídos por salsa, funciona à mesma (mais importante é o empregado não ter dito nada).

Da carta, continuam a constar outros clássicos. Nas entradas, as famosas empadas de galinha já estavam à espera na mesa, morninhas. Como extra do dia havia ovos mexidos com túbaras, outro ponto alto.

As túbaras são um cogumelo que se encontra muito no Alentejo, próximo da trufa, mas com mais sabor e menos aroma. Os ovos estavam perfeitos, ligados em camadas, com as túbaras salteadas primeiro em azeite.

Experimentaram-se ainda uns óptimos pastéis de bacalhau, acompanhados de arroz (al dente) de tomate; já o bacalhau com natas, acima da média mas com a batata farinhenta e poucas lascas do peixe, longe da bitola mundial estabelecida pelo Tia Alice, em Fátima; e a lebre com feijão um pouco monótona, o feijão parecendo de lata, o molho sem nada que o espevitasse.

A terminar, voltou-se ao Olimpo. A tarte de requeijão fresquíssima, fofa. E um toucinho do céu do Fiolhoso, com chila e amêndoa e umas 30 gemas por centímetro quadrado.

Tudo baralhado e voltado a dar, resulta o seguinte. O Salsa & Coentros continua a ser um dos melhores restaurantes de comida tradicional portuguesa de Lisboa. Mas há algumas coisas menos especiais, um serviço sisudo e uma cave que não o deixa de ser por ter uns quadros na parede e uma estante com vinhos.

Mick Jagger faz música, não faz milagres.

Publicado:

Nome do local Salsa e Coentros
Contato
Endereço Rua Coronel Marques Leitão, 12
Lisboa
1700-125
Horário Seg-Sáb 12.30-15.00/19.30-23.00
Transporte Metro Alvalade
Preço 25€ e 35€
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