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The Chippy

Restaurantes, Fusão Estrela/Lapa/Santos
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A Time Out diz

Quando cheguei ao Chippy, nas traseiras do Museu do Oriente, pareceu-me que tinha entrado num cowork. Mesas corridas, pessoas a reunir em open space com ar de quem está prestes a vender uma startup. Nenhum aroma a comida. Nenhum cliente. Nenhum prato. “É, aqui, o Chippy?”, perguntei a uma rapariga que deambulava por ali. “É, sim”, disse, apontando para uma mini-cozinha estreita e envidraçada como uma cápsula. “E onde é que se come?”, continuei. Ao telefone, tinham-me dito que havia uma esplanada. “Se quiser ir para a esplanada tem de levar a comida daqui. Ao almoço, nós não fazemos serviço lá.”

Daqui lá eram 100 metros, a distância entre o Museu do Oriente e a beira-rio, na Doca do Espanhol.

Enquanto esperava pelo meu amigo, investiguei. Uma pesquisa na internet revelou o verdadeiro conceito do sítio. Não era um cowork, era um hub. Um food hub. Do que entendi, um food hub é uma maternidade de negócios recém-nascidos ligados entre si pelo tema da comida e apoiados por uma parteira. No caso, este hub chama-se Weat e, para além de dar guarida ao Chippy, promove aulas de cozinha. Entretanto, o meu amigo chegou. Enquanto esperávamos pela comida, fomos fazendo perguntas. “Batatas fritas, como são? Nas redes sociais da Chippy diziam que eram cortadas à mão.” A rapariga ficou abesbílica, como se lhe tivesse perguntado por um furúnculo recôndito. “Cortadas à mão?! Não sei. Elas vêm em sacos fechados a vácuo, de Inglaterra”, atirou. Hmmm. “E o scotch egg, tem?” Eis outro ponto forte anunciado pela marca, que quer arrancar também em Miami e Amesterdão. “Ah, não temos. O scotch egg dura só dois ou três dias no frigorífico, por isso não estamos a servir agora”. “E os molhos, como são os molhos?”, questionámos, por fim. “Os molhos são feitos por nós. O tártaro é dos nossos preferidos. Leva maionese e pickles.” Ah, haja esperança! Mas que maionese?” “Heinz”. E que pickles? “Vêm nuns frascos grandes, de Inglaterra”. Oh, diacho.

Outra coisa que estava ausente da carta eram os Mars fritos. Isso, os chocolates.

Não foi uma introdução promissora, mas foi honesta e simpática. E felizmente havia cerveja para nos refrescar, no caso uma blonde e uma IPA, ambas da Chippy e saborosas. E, felizmente, a segunda parte da história é diferente.

Em 10 minutos tínhamos os tabuleiros prontos. Não havia pratos. Como é tradicional, o fish and chips vinha sobre papel a imitar as páginas de um jornal. Ainda antes de arrancarmos para a esplanada, piquei uma batata frita, um palito grosso, farinhento por dentro, crocante por fora. Deixou-me a impressão de que, de facto, as batatas terão sido cortadas à mão, ainda que do outro lado do Canal da Mancha. Era bem boa a batata.

Nos molhos, para além do tártaro, escolhemos o clássico acompanhamento de esmagada de ervilhas, uma coisa que só ingleses ensopados em cerveja e neblina poderiam ter inventado. Quanto aos peixes, havia dois tipos disponíveis – o topo de gama, o peixe galo, estava fora de stock – e nós levámos os dois: pescada e bacalhau fresco.

A esplanada ficou por nossa conta. Ao sentarmo-nos, eu e o meu amigo concordámos que estávamos perante um espaço incomum e uma das receitas internacionais mais irracionais de sempre, óleo com óleo. Há várias versões sobre como nasceu o fish and chips. A maioria coloca Portugal no centro da história e diz assim: foram judeus sefarditas, estabelecidos na Península Ibérica, a levar o peixe frito para o Reino Unido, em fuga por causa da Inquisição. Parece nacionalismo primário, mas é credível. Desde tempos imemoriais que Espanha e Portugal adoram peixe frito e fritam-no como ninguém.

Já a ideia de juntar peixe frito e batatas fritas é algo mais recente. A história situa essa aliança no século XIX, numa loja de batatas fritas em Londres que, querendo diversificar a oferta, passou a incluir o peixe no prato.

Convém lembrar que em Portugal também temos o nosso fish and chips. Numa tasca fundada no início de 1900, em Braga, uma cozinheira chamada Narcisa cozinhou bacalhau frito com batatas fritas, no caso às rodelas – criação que se difundiu como bacalhau à Narcisa ou bacalhau à minhota e que ainda hoje é popular nos menus de almoço. Tal como o fish and chips inglês, bacalhau à Narcisa não é nada que faça sentido, mas a culinária por vezes não faz sentido.

Tivemos, aliás, um exemplo disso esta semana, com a apresentação ao mundo da bifana de Gordon Ramsay, na verdade uma sandes de rúcula para hipopótamos. De referir que o inefável Ramsay também tem a sua versão de fish and chips – e que não ousou dar cabo dela, praticando o polme que se tornou canónico no receituário moderno.

O polme é a coisa mais importante do fish and chips. As versões actuais, para além de farinha, usam uma capa grossa feita de cerveja, fermento e bicarbonato de sódio. O polme do Chippy cumpre o estilo e revelou-se bem feito: rijo, crocante, seco, perfeito para conservar o peixe húmido – e estava mesmo húmido. Outra boa surpresa foi provar batatas fritas com vinagre de malte, tradição britânica bizarra e gostosa.

Em síntese. O Chippy, liderado por um chef inglês, está ainda a tactear, mas não devia. O seu fish and chips é já crescido, do melhor que comi em Portugal.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

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