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Yaad

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  • Santa Maria Maior
  • 3/5 estrelas
Yaad
Francisco Romão Pereira
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A Time Out diz

3/5 estrelas

Já provou cozinha jamaicana? E polaca? Alfredo Lacerda foi ao Desterro conhecer um híbrido invulgar.

A cozinha polaca, para a maioria dos portugueses, é algo tão misterioso e distante quanto, digamos, a cozinha jamaicana. 

Ora, há três meses, a frenética restauração lisboeta juntou a Polónia e a Jamaica num híbrido culinário raro, prova de que a vida de um crítico gastronómico é desafiante, sendo que o óvni caiu ali para os lados do Desterro numa casa forrada de azulejos e restaurada em hotel, what else?

É provável que estejamos perante uma estreia mundial – o primeiro restaurante polaco-jamaicano do mundo – e é certo que será das mais inesperadas. 

Sobre gastronomia polaca, eu sabia de uns raviólis com molho de queijo e sabia do arenque; sobre a cozinha jamaicana, conhecia umas malaguetas danadas e deliciosas (Scotch Bonnet), o bacalhau seco (ao estilo do português) e pouco mais. 

Ou seja, estava mais ou menos em apuros. Até que apareceu Marta.

Marta é polaca mas vive em Lisboa há seis anos e daria os seus cabelos loiros para voltar a comer uns pierogi como os da mãe. Estava muito entusiasmada com a ida ao Yaad. A sua fé era maior do que a minha. 

Eu tinha visitado a internet e desconfiara do site e do menu. Tudo boa pinta: design e rigor, pratos com letras com barbichas (diacríticos), como no “Żurek” (a sopa de centeio que dizem ser remédio santo para ressacas). Mas há uma lei da restauração que raramente falha: restaurantes de fusão com sites modernos não servem comida polaca da mãe. Nem da Jamaica. As mães não fundem.

O jantar confirmou a regra. 

A refeição começou sob o signo dos tempos. Marta é uma activista educada pela igualdade de oportunidades, que deambula entre o Boom, eventos anti-racistas e galerias de arte, e esforçou-se para que a Jamaica não ficasse a perder para a Polónia. 

Sendo activista, é também inteligente e despachou parte da quota caribenha com o cocktail – o Jamaican Mule, intenso de sumo de lima de pacote –, para depois impor a lei de Varsóvia nas entradas: smalec, ou seja, rillette polaca com micro-pickes de pepino (“dos de supermercado” alemão, não polaco. “Nada se compara aos pepinos polacos”, disse Marta, e eu tendo a concordar), acompanhados de pão pré-congelado; tártaro de vaca “cheio de cenas por cima”, incluindo uma maionese a lembrar Hellmanns (das únicas comerciais aceitáveis, diga-se), ao ponto de a carne se perder; e, claro, houve ainda os pierogi. 

Os pierogi são um dos grandes pratos nacionais polacos, senão o mais relevante. Marta gostou da textura da massa. Eram pierogi caseiros, com o clássico recheio de batata e queijo, “pouco”, “e o molho era uma invenção, mas bom”. 

Arrancámos para o prato principal, já de consciência pesada pela excessiva polaquização da refeição. Marta concedeu, então, o protagonismo ao irmão jamaicano. “Venha a jerk chicken.”

A jerk chicken é um clássico de sempre da Jamaica, com influências árabes e das tribos autóctones, e chegou à mesa sem contaminações do Norte da Europa. 

O bicho, aberto em borboleta, como no churrasco, tenro e húmido por dentro, surgiu banhado num molho fluido e especiado, porventura com notas de gengibre e soja, alho e pimento – saboroso e cozinhado no ponto. 

Suspeito que as pimentas picantes usadas não eram Scotch Bonnet, como é da tradição jamaicana, porque a capsaicina estava ligeira, como não é da tradição jamaicana. 

Para espevitar a coisa, pedimos molho picante à parte e pagámos 2€ por ele. Fará sentido? Pode ser justo pagar por molho picante, se ele for especial, mas não se isso acontecer porque o prato – por natureza picante – é escasso nele. Assim, é batota.

A rematar, claro que havia um bolo de queijo à polaca, na onda da omnipresente tarte basca, e claro que a pedimos. Estava bem boa, e melhor estaria se fosse mais fresca. 

Duas notas sobre os vinhos. O Yaad será dos poucos sítios de Portugal onde se podem provar vinhos da Eslovénia, mas também de outras paragens a Leste mais célebres, como a Geórgia, a Alemanha e a Áustria –, não desprezando também regiões francófonas campeãs do mundo, como Borgonha ou Champagne. 

Acresce que os copos são de nível Michelin e Mateusz Zurek, o polaco por trás do Yaad (também há um jamaicano), sabe servi-los e falar sobre eles.

Em síntese. O Yaad é um restaurante bonito e descontraído, com uma ideia original e uma carta de vinhos interessante. O preço que se pagou, todavia, não é compatível com alguns atalhos, sendo certo que estamos perante um bebé a começar a andar. Um bebé com potencial. 

Alfredo Lacerda
Escrito por
Alfredo Lacerda

Detalhes

Endereço
Rua do Desterro, 4
Lisboa
1150-127
Preço
40€-50€
Horário
Ter-Sáb 12.00-15.00/ 19.00-23.00. Seg-Dom 12.00-15.00
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