A Noite da Iguana

Teatro
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A Noite da Iguana
©Jorge Gonçalves

É uma bizarra colecção de personagens, esta. Vejamos: um pastor alcoólico, com queda para adolescentes; uma pintora solteirona arrastada e arrastando o avô, poeta a tentar pôr fim a um último poema enquanto roda pelo mundo; e a viúva, dona daquele hotel decadente com boas vistas, só, libidinosa, oportunista. Como os outros, também ela sobrevivendo, enquanto todos caminham na borda da falésia do desespero.

O cenário e os figurinos de Rita Lopes Alves são realmente tropicais. E quanto aos calores do México estamos conversados, porque os calores da peça de Tennessee Williams (1911-1983) e da encenação de Jorge Silva Melo não são de amenidades. Vêm das profundezas da alma destes seres. São mais intestinos – por assim dizer –, movendo cérebros desaustinados numa alucinante e dolorosa descida, traduzida em diálogos crus, frases cortantes, acções que nascem e morrem entre a desorientação psicológica e a exaustão física sem encontrar saída airosa. A bem dizer: encurralandose voluntariamente, sempre oscilando do angustiante para o patético em ambiente transpirando simbolismo, a que uns alemães foliões – ali colocados para lembrar o avanço da guerra e do fascismo na Europa – acrescentam um toque de nonsense. Tudo reforçado pelas tonitruantes aparições da indignadamente activa representante das excursionistas (Isabel Muñoz Cardoso) a quem Lawrence Shannon (Nuno Lopes) devia mostrar as maravilhas locais sem risco de disenteria. Pois, diz mais ou menos o original, como a iguana do título presa debaixo do alpendre, estas pessoas são igualmente criaturas de Deus agarradas à ponta da corda. Uma corda cada vez mais esfiada.

A complexidade do texto e a riqueza multifacetada das personagens exige um elenco sólido como este (Pedro Carraca, Tiago Matias, João Meireles, Vânia Rodrigues, Pedro Gabriel Marques, Catarina Wallenstein, Américo Silva, João Delgado, Bruno Xavier, Ana Amaral). E de preferência inspirado. Como, aqui, Nuno Lopes, que constrói o seu protagonista como um canalha em busca de redenção e faz do pastor caído em desgraça um vilão capaz de inspirar tanta compaixão (e em certos casos empatia, porque não?) como repulsa; ou Joana Bárcia, que torna sua Hannah Jelkes e faz da pintora medíocre mas desenrascada alguém convincentemente tentando manter a lucidez enquanto vive a agonia; interpretações a que Maria João Luís (no papel da mercurial Maxine Faulk) dá competente réplica. Todos, à beira de um singelo alpendre, contribuindo com brio para mais esta exploração do universo dramático de Williams pelos Artistas Unidos.

Por Rui Monteiro

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