Contos em Viagem - Macau

Teatro
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Contos em Viagem - Macau
@Susana Monteiro

É um momento particularmente belo e significante para o espectáculo. O corpo da dançarina executa movimentos delicados e precisos, como que saídos de um poema, por detrás de uma cortina translúcida. Portal que num delicado jogo de sombras leva o protagonista de um para a procura de outro estado de espírito, eventualmente mais capaz de interpretar a dúvida e a ambivalência, equilibrando fascínio e estranheza, às vezes até um pouco de repulsa perante o choque do exotismo.

Nesta encenação, em que a bem dizer se sentem os cheiros e a humidade do ar, o primeiro sinal que os forasteiros ocidentais reconhecem na sua estreia no Oriente, Natália Luiza conta com o actor Romeu Costa, acompanhado por música original de Rui Rebelo, interpretada ao vivo pelo compositor, e com a bailarina Margarida Belo Costa, o corpo novo desta jornada pela lusofonia. Teve primeira etapa no Brasil, em 2006, prosseguiu em Cabo Verde, um ano depois, para voltar ao Brasil com Novas Rotas, em 2009, e agora pesquisar e explorar o uso da língua e a “sua escrita poética, ficcional e de prosa” através de textos de portugueses e macaenses sobre, claro, Macau, o território mítico entretanto tomado pela indústria do jogo. E estão ambos neste espectáculo: nos ruídos das ruas, nas campainhas das bicicletas, no patoá da vozeria, no som do mar. Também nos carregados tons de vermelho e preto e dourado do desenho de luz de Miguel Seabra, banhando o espaço cénico e os figurinos concebidos por Marta Carreiras recordando rituais, crenças, superstições, mitos, jogadores de majongue exaltados, a expressividade dos adivinhos à cata de cliente, os movimentos lentos e precisos do tai chi em contraste com o bulício do tráfego, o silêncio dos pagodes; tanto como a sofisticação electrónica, a decadência dos bares de karaoke, a vibração do néon que invade a noite, espécie de antecâmara dos casinos, lugares sem tempo, lugares de excitação e prazer, lugares igualmente de queda, de perda. Perda que ganha voz nas palavras alinhadas, entre outros, por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais, Eugénio de Andrade e José Augusto Menano, Maria Ondina Braga, ou José Augusto Seabra. Palavras tomadas por Luiza na sua dramaturgia como delicados fios de filigrana, sabiamente organizados de maneira a mostrarem o indivíduo na multidão, o estrangeiro entre o fascínio e a estranheza. Enfim, a nossa memória.

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