Tiranossauro Rex - Procedimento básico de memorização e esquecimento

Teatro
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"Tiranossauro Rex" no D. Maria II
Tiranossauro Rex 3
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É mais ou menos como mudar de casa. Uma pessoa afunda-se na tralha acumulada, como quem se vai ver livre do supérfluo, encontra o que não recordava e… Como dizer? Reconfigura a memória. De certo modo, cria um novo passado. Tiranossauro Rex opera a partir de princípio semelhante. Explorando o que sabemos e o que pensamos saber, o que aconteceu, ou não aconteceu e supomos que aconteceu, daí criando uma – enfim – história. É mais simples do que parece. Alex Cassal (n.1967) pegou nas suas memórias temperadas pela pesquisa de Joana Frazão e espalhou-as pelo interior do Teatro Nacional. Levando os espectadores escada acima, corredor afora, através de bastidores e adereços roçagando figurinos; outra vez escada abaixo, corredor adentro, partilhando o bar dos artistas, o espaço de costura, salas forradas a livros ou por armários de sapatos, com fragmentos, quadros soltos, obrigando o espectador a usar essa matéria-prima para completar o que não é dito nem mostrado. E porque, como na vida real, existe sempre aquela branca, aquele episódio desaparecido da memória, aqui o espectador é privado de parte da representação – que pode imaginar, ou aceitar como é; em alternativa assistir às representações necessárias até, eventualmente, ver o par de quadros subtraídos.

À frente do título da peça vem a frase: “Procedimento básico de memorização e esquecimento.” É uma ajuda para penetrar no astuto dispositivo cénico e narrativo criado pelo encenador brasileiro (incluindo a sua componente aeróbica), consciente de que este não procura, embora com certeza não enjeite, levar ninguém a criar o seu próprio enredo. Ele existe por si. Não apenas na comum e inicial cena, como nos monólogos para grupos interpretados por Alfredo Martins, António Pedrosa, Cláudia Gaiolas, Márcia Lança, Marco Paiva, Paula Diogo e Tónan Quito. E só assim, incluindo o mistério das cenas perdidas, faz sentido. Faz?

Por Rui Monteiro

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