A Ordem do Dia, um Goncourt cinco estrelas

Éric Vuillard regressa à véspera da ascensão do partido nazi e às pequenas grandes estórias de uma História grotesca
Em 1940, Gustav Krupp recebeu de Adolf Hitler a medalha de ouro do Partido Nazi
Em 1940, Gustav Krupp recebeu de Adolf Hitler a medalha de ouro do Partido Nazi
Por Maria Ramos Silva |
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A marcha europeia desenrola-se pé ante pé, ao ritmo de bons sapatos que ditam péssimas sentenças. A dos vivos, claro, porque um morto não precisa de solas nem tem dívidas por liquidar. Nos anos 30 do século XX ou em qualquer outra era. “A ironia vertiginosa é aqui uma modalidade de revelação da verdade”, dirá Éric Vuillard em entrevista sobre esse episódio macabro descrito por Walter Benjamin: a companhia austríaca do gás deixou de fornecer os lares dos seus clientes judeus por ficar a arder com a factura – homens e mulheres suicidavam-se para escaparem a um destino pior. Por outras palavras, um suicídio colectivo que foi na verdade um crime cometido por outrem.

É de retratos como este, e ainda de fotografias e filmes, memórias e arquivos do julgamento de Nuremberga que o vencedor do prémio Goncourt 2017, natural de Lyon, se socorre para compor A Ordem do Dia, uma pequena narrativa exemplarmente escrita que escrutina a véspera do abismo, ou as suas sementes, recuando a episódios que oscilam entre o sinistro e o caricato. Intromete-se nessa reunião em 20 de Fevereiro de 1933 quando “vinte e quatro sobretudos negros, castanhos ou conhaque”, vinte e quatro industriais alemães, vinte e quatro apelidos (Opel, Siemens, Krupp, etc., etc.) são recebidos pelo presidente do Reichtag Herman Göring e por Adolf Hitler e instados a financiar a campanha do partido nazi às eleições legislativas. Vuillard viaja aos contornos da anexação da Áustria pela Alemanha em 12 de Março de 1938, e a esse encontro entre Hitler e o chanceler austríaco Kurt von Schuschnigg, quando o mundo celebra o Carnaval. Lembra ainda que a guerra pertence à estante do espectáculo e que nada como um actor frustrado para maquinar uma boa cena, transportando o leitor para esse jantar oferecido pelo primeiro-ministro britânico Chamberlain a Joachim von Ribbentrop, em que o recém-promovido a ministro dos negócios estrangeiros alemão se demora para lá da boa educação para atrasar a resposta dos britânicos ao Anschluss.

Há outros pontos menos conhecidos mas nem por isso pouco entusiasmantes, como a ridícula panne dos panzers germânicos, supostamente infalíveis, na fronteira austríaca. Quase tão ridículo como o ámen das democracias europeias ao carrocel de barbárie. Porque afinal, se “a noiva consente, não é uma violação, como alguns pretenderam, é uma boda".

A Ordem do Dia ***** (cinco estrelas)

Éric Vuillard

Dom Quixote

144 pp

12,51€

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