A Poesia de Mário Cesariny num só volume

‘Poesia’ expõe Mário Cesariny num volume ambicioso, como é a sua escrita. João Morales deslumbrou-se porque “o navio de espelhos/ não navega, cavalga”.

©Eduardo Tomé

“Afinal o que importa não é ser novo e galante / – ele há tanta maneira de compor uma estante”, avisava em “Pastelaria”. Mário Cesariny é, indubitavelmente, o surrealista português que mais profundamente cravou o seu nome na investida portuguesa pelo movimento, fruto de uma natural sintonia entre a sua personalidade e os pressupostos estéticos desta corrente. Uma reunião de livros com a poesia de Cesariny num único volume é uma dádiva editorial a saudar efusivamente.

A capacidade de recriar toda uma gramática semântica, articulando um refinado humor, a crítica a um quotidiano que o fez viver em permanente sobressalto e uma liberdade onírica traduzida em sugestivas evocações, foi conduzindo a sua poesia a um patamar de excelência que lhe é unanimemente reconhecido. A sua escrita (que provém de uma ética visceral) é herdeira de um lirismo anterior, associado à telúrica evidência de uma geração a quem coube questionar os destinos aprisionados de um país. Afinal, o Surrealismo eclode em Portugal em meados dos anos 30, com manifestações artísticas que persistem até à primeira metade dos anos 50. A realidade está sempre lá, transformada, acolhida em linguagem poética. “a velha que vende bananas/ o velho roxo de calor/ o rapaz que grita sacanas/ dêem-me um pouco de amor”; in “Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano”.

Há momentos em que a subversão (ou apropriação) visa a tradição poética antiga, actualizada com ironia: (“Ca morreu o meu amigo/ o que surrealista migo/ na escurana da manhã,/ ca morreu o meu amigo/ por todolo bem que fez consigo/ vou pôr outro Dolviran”; “Cantiga de amigo e de amado”).

Não raramente, Cesariny inscreve a geografia lisboeta nos seus escritos, nos títulos que citam a toponímia da cidade, mas também nas imagens recriadas: “No ângulo da Rua Augusta com a Rua Nova da Trindade estava um indivíduo coberto de trapos ensanguentados sentado no passeio” (in “Vida de Kandinsky”).

Num movimento de reacção ao 1º Modernismo, O Virgem Negra – Fernando Pessoa explicado às criancinhas naturais e estrangeiras por M. C. V. permanece um objecto acutilante e desafiador: “O Álvaro gosta muito de levar no cu/ O Alberto nem por isso/ O Ricardo dá-lhe mais gosto ir/ O Fernando emociona-se e não consegue acabar.”

São vários os momentos incontornáveis da literatura do século XX aqui alinhados, demonstrando como “entre nós e as palavras há metal fungente”. A antologia não é exaustiva – o organizador explica o que ficou de fora – mas inclui o capítulo “Outros Poemas”, com trabalhos retirados dos livros pelo próprio poeta. A ordem de alinhamento acabou por ser coincidente com a publicação anterior nesta editora, em detrimento de uma datação cronológica.

“Lembrança, louvor, home nagem: do Surrealismo, da Poesia, da Liberdade, do Desejo, do Amor, da Imaginação – cinco maneiras de dizer Mário Cesariny, cinco pessoas e um só Mário verdadeiro”, escreve Perfecto. Hoje e todos dias, acrescentamos, tomando por empréstimo as linhas inicias do poema “O Homem do Eclipse”: “Ora foi que certo dia/ o homem eclipsouse,/ – A data! Digam a data,/ a datazinha, faz favor!/ – Qual data! Foi por decreto/ que o homem se eclipsou,/ foi só manobra, espertice,/ um, dois, três, e pronto é noite,/ que nem a Lua apareça/ seja de que lado for!”

Poesia

***** (cinco estrelas)

Mário Cesariny

(org., prefácio e notas de Perfecto E. Cuadrado)

Assírio & Alvim

776 pp

44 €

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