Arturo Pérez-Reverte: "Sem os livros, o mundo que vivi seria muito difícil de compreender"

"Falcó" é o protagonista da nova saga do escritor espanhol, que se inspirou nos cenários de Lisboa e Estoril. Uma edição Asa com passagem pela Guerra Civil espanhola
arturo pérez-reverte
©Victoria Iglesias
Por Maria Ramos Silva |
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Devíamos estar no quarto andar deste hotel de espiões, com o famoso corredor que o ligava à estação do Rossio.

Ah, sim. No segundo romance desta saga Falcó está neste hotel.

Lisboa é bom sítio para escrever?

Sim, conheço Lisboa há anos, e quando falo de lugares nos meus romances são sempre sítios que conheço. Hotéis, restaurantes. O Martinho da Arcada, por exemplo, é o meu restaurante em Lisboa de sempre. Aparece em Club Dumas. Há uma parte muito divertida nos romances que é conhecer estes locais.

Onde nasceu Falcó? Portugal ou Espanha?

Em Espanha. Em todos os meus romances planeio muito. Procuro a biografia da personagem e antes de escrever já sei muito bem quem é. Sou espanhol, Falcó é espanhol. Nem sou bem espanhol. Passei a minha vida fora de Espanha, fui repórter de guerra 21 anos, saí de casa jovem. Viajei muito, li muito. A minha cabeça é muito espanhola, conheço muito a sua historia, mas não me sinto muito espanhol.

Um pouco apátrida, como Falcó?

Sim, mas é perigoso procurar o romancista nas suas personagens porque isto é ficção. Claro que deixas sempre algo. Não sou Falcó mas emprestei parte do meu olhar do mundo a Falcó e ele beneficia da minha experiência pessoal.

Que importa mais ao romancista: experiência ou imaginação?

Imaginação. A experiência serve para vesti-la mas a imaginação é fundamental. Um romancista tem um olhar do mundo. Se falo de dor, de tortura, da morte, não aprendi isso num filme. Vi isso. Não é autobiográfico porque manipulo. Sou as coisas que vivi e os livros que li. Falcó resulta dessa vida. Sem a minha vida, Falcó não existiria. Com outro novelista, Falcó seria outra pessoa. Digo que cresci numa biblioteca. Depois peguei numa mochila com livros e fui correr mundo.

Que livros?

Ilíada, Eneida, Os Três Mosqueteiros. Quando vejo arder Beirute, Nicósia, Sarajevo, vejo arder Tróia; imagens que os livros me deram. Sem os livros, o mundo que vivi seria muito difícil de compreender. Os livros ajudam-me a manter a cabeça sensata.

São uma forma de ordenar o mundo?

Claro, e a chave para o mundo. Parti dos livros, fui ao mundo, e voltei aos livros através da escrita. Agora escrevo com o que li e pela memória pessoal.

A reportagem ajudou a ordenar ou a desordenar?

Ajudou-me a ver a realidade. Tudo isto é mentira. Este casaco, os teus sapatos, nada disto é real. O mundo real é dor, sofrimento, África, Síria, as favelas do Rio. O homem ocidental crê que já deixou isto para trás mas isto está ao lado. Por vezes isso irrompe pela vida, seja uma violação, ou um tsunami, e há que encará-lo. A vida que levei acostumou-me a ter sempre presente a vida real. Tenho sempre uma lucidez como no mar. Sou marinheiro e passo muito tempo no mar. É parecido; tens que estar sempre atento. A guerra adestrou-me para esperar sempre o mal. Mas mal não significa pessimismo.

Como resolve isso?

Sou um realista, a vida é assim, é isso que está nos meus romances. Encaro a violência com naturalidade, tal como o amor. Não lhe dou mais nem menos importância. Mas não vivo amargurado nem nada disso. Não tenho boas recordações do ser humano, mas também sei que há pessoas que valem a pena. Há palavras como lealdade, dignidade, amor, que sobrevivem ao caos do mundo. Utilizo essas palavras como consolo, analgésico.

Porque escreve?

Escrevo porque gosto de contar histórias. Sou feliz contando histórias. É um acto de vida. Vivo dois anos com um romance na cabeça. Tenho 65 anos e isso mantém-me jovem e em jogo. Se não escrevesse livros a esta altura, com a vida que levei, estaria sentado entregue a memórias. Faz-me menos egoísta, ensimesmado; envelheço melhor.

O mar reforça a vigilância e ao mesmo tempo isola?

Nasci no Mediterrâneo, navego desde pequeno. Há quem se drogue; para mim é uma forma de recuperar a paz. 15, 20 dias, um mês.

Não escreve lá?

Nada, só leio. Dizia Conrad que só há paz a dez milhas da costa mais próxima. Quando entras mar adentro, a terra não importa. Só conta o dia, a luz, o vento. Limpa-me a cabeça. Sou um escritor feliz. Há quem escreve porque sofre. Para mim é divertido.

Diz que as mulheres lêem mais e estão cara a cara com os livros. Quem o lê?

Lêem-me em 40 países. Os números falam de 68% de mulheres. A mulher lê mais. O homem é mais autosatisfeito. Leva séculos a criar vínculos sociais para sua comodidade. A mulher esteve em segundo planos séculos. Desenvolveu uma forma de manejar o silêncio, tem mais perguntas por resolver, mais conflitos, mais intensidade. Tem esta curiosidade e a leitura alimenta-a. Nos meus romances as mulheres são sempre muito poderosas. Desde a Ilíada, o protagonista é masculino. Agora faz frente a este cânone, também porque vive em contradição, entre os instintos antigos e o mundo novo. Como sujeito narrativo é muito interessante.

Mas ela nunca é a principal nas suas histórias, excluindo "A Rainha do Sul"...

Não, é a numero dois... Mas no próximo volume será a protagonista. Eva sai esta semana em Espanha. E o protagonista é sempre uma desculpa para falar de outras coisas.

Este primeiro volume da saga termina no Estoril.

Sim, imagino uma série de detalhes sobre Falcó; como encostou o braço na cadeira, como andou pelo Estoril. Já conhecia o hotel, que é o meu hotel de sempre no Estoril. Vou lá, sento-me, tomo notas.

O paralelismo com a turbulência na Europa actual foi consciente?

Não foi intencional mas é inevitável. São tempos turbulentos com uma diferença importante. Nos anos 30, palavras como comunismo e fascismo ainda não haviam mostrado o seu lado perverso. Havia esperança e gente honrada que acreditava que eram soluções possíveis.

E conheciam-se os bandos.

Claro, e havia esperança. Hoje sabemos que não. Que essas palavras levaram a sítios obscuros. Hoje temos os mesmos problemas e faltam-nos as palavras de esperança. Aí sou pessimista de verdade porque duvido que haja solução. O século XX foi o século das soluções e por estupidez o ser humano perdeu essa oportunidade. Não há ilusão possível, há apenas politicamente correcto.

Ainda há espaço para Falcós e Evas?

Sim, conheci Falcós. Em Moçambique, há 20 anos, conheci gente assim. Mas ele não tem fé política. Gosta de mulheres, adrenalina, aventura. Isso há sempre. Idealistas lúcidos há menos. Também há muitos idealistas tontos, o que é pior que um tipo mau. Pensava que o pior do mundo eram os maus mas depois..

São os estúpidos?

Isso. E agora até penso que são os cobardes.

Que mais mudou com o tempo no seu pensamento?

As grandes mudanças foram na juventude. Agora apenas consolido coisas. Entre os 20 e os 40 é que mudei. Tinha fé em coisas e palavras, como lealdade, amor, dignidade. A vida despojou-me disso e deixou-me muito poucas. É com essas que faço romances. Era um miúdo de boas famílias, educado em cortesias, mas vi a impotência perante a brutalidade. No romance ordeno um pouco o mundo.

No romance, na literatura, que mudanças identifica?

Está em retrocesso. A literatura perde o seu lugar no mundo. Mais valia escrever guiões para videojogos ou séries de TV. Não creio que os livros assim durem mais de 30 anos. Olha para Lisboa, uma cidade que amava, senhorial, elegante, serena, educada. Está cheia de turistas de merda e toda a cidade se reconverte para receber isto. Acontece noutros lados, claro, traz dinheiro, mas o que terás é uma uniformização e lojas de souvenirs. O que vai destruir a cultura europeia não são os terroristas islâmicos mas o turismo de massas.

Não há nenhum benefício neste processo?

Mas tu vê-los? Param em frente ao Marques de Pombal, tiram a foto, pergunta-lhes quantos sabem quem é! Vêem o mundo através de um ecrã. O ritual é fazer a foto da Coliseu de Roma e da Torre Eiffel. É idiota haver um bando de imbecis na fila para o elevador de Santa Justa. No Martinho, não lêem Pessoa mas vão lá encher aquilo e tenho que ligar ao empregado antes para ver se consigo sentar-me.

Diz que as redes estão cheias de ideologia e de gente sem biblioteca.

Verdade. Não há mudança possível. É possível apostar em cultura e educação mas quem vai vencer estas hordas de analfabetos? Quando era jovem peguei numa mochila e corri a Europa para ver catedrais góticas. Pensamos que cultura é facilitar o acesso a ela mas não é. A cultura deve ser para quem a quer ter.

O que resta para quem lhe vê o acesso dificultado?

Se queres, consegues. A cultura é para quem se esforça, não é para ser oferecida. É das elites que guerreiam para tê-la. Fiz-me ao caminho com pouco dinheiro no bolso porque queria vivê-la. Não é uma agência de viagens que te vai dar a cultura.

Como tem visto o processo na Catalunha?

Não falo sobre Catalunha nem de Espanha. Já escrevi muito sobre o tema. Realista, pessimista, optimista? Nenhum. Sou um velho viajante que lê muita história e não tenho nada a dizer.

E depois de Eva?

Já vou no terceiro volume. Falcó seguirá o seu caminho para Tanger.

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