Béla Guttmann: o fabuloso destino de "um romântico" do futebol

Em “Béla Guttmann, de sobrevivente do Holocausto a glória do Benfica”, David Bolchover persegue a estrelinha do “primeiro treinador superstar” e devolve-nos à mais negra e fervilhante das eras na Europa
Béla Guttmann
Béla Guttmann
Por Maria Ramos Silva |
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As aulas de dança ficaram no banco quando os dividendos da bola, ainda em toques amadores, o permitiram. No bailado entre quatro linhas, inovou na metodologia de treino, insistiu em questões como dieta e nutrição, e foi o primeiro a usar os media a favor da sua equipa. Béla Guttmann (1899-1981) fintou o destino numa Europa que não queria viver com judeus, e num futebol que não sabia viver sem eles. O húngaro que alinhou pelo Hakoah de Viena, distribuiu jogo pelo continente, acumulou aventuras na América, e regressou para fazer história num campo onde a figura do treinador mediático estava ainda a milhas de concretizar o golo. Venha daí, ao ataque, e à conversa com David Bolchover, autor de Béla Guttmann, de sobrevivento do Holocausto a glória do Benfica".

Quando ouviu falar de Guttmann pela primeira vez?

Há vários anos. Foi em 2013/2014 que comecei a ler mais sobre a fase em que ganhou duas taças dos Campeões consecutivas pelo Benfica. Li alguns artigos sobre a maldição de Guttmann. Prevalecia o mistério sobre o que lhe acontecera durante o Holocausto. Sempre se pensou que se escapara para a neutral Suíça, mas quando contactei as autoridades suíças garantiram-me que Guttmann nunca ali estivera. Nunca ninguém se interessou pela história, o que me parecia curioso. Estava determinado em apurar o que lhe acontecera.

A verdade é que mesmo depois deste livro continuamos sem saber muita coisa sobre a vida pessoal. Como lidou com este obstáculo?

Não faltam fontes sobre a sua carreira futebolística. Não há muita informação numa só língua, mas em várias línguas combinadas conseguimos reunir muito material. Mas sim, há pouca informação sobre a vida pessoal, portanto tive que cavar mais. Não teve filhos; não há descendentes para entrevistar e conhecer o contexto íntimo e doméstico.

Recorre ao sobrinho.

O sobrinho, Imre, que vive no Brasil, ajudou-me bastante. Pál Moldoványi, sobrinho da mulher de Guttmann, Mariann, também me deu algumas luzes sobre a sua vida pessoal. Mas claro que é difícil entrar na cabeça de um homem por mais próximo que alguém lhe seja. Tive que especular sobre diferentes aspectos: como via o judaísmo, até que ponto pensava na sua família assassinada durante o Holocausto, ou no acidente de carro em que matou um jovem italiano, em 1955, por conduzir sem cuidado, etc.

De que detalhes mais sente falta?

Há um período sobre o qual continuamos a ter que especular, entre 1939 e 1942. Em 39 perdeu o trabalho como treinador no Újpest da Hungria por ser judeu, apesar de ter acabado de vencer a liga húngara e a Taça Mitropa, precursora da Taça dos Campeões Europeus. Em 42/43, conseguiu trabalho como olheiro. Acredito que entre um e outro, viveu em extrema pobreza. Sabemos que se mudou para o apartamento do seu irmão Ernö e da mulher, devido às dificuldades. E já não era um jovem na altura.

Costuma escrever sobre gestão. Encontra pontos de contacto com o trajecto de Béla?

Sim, Guttmann era um empreendedor do futebol, que não gostava de seguir os outros. Inovou na gestão e nas tácticas. Como diz o António Simões, as coisas que Mourinho diz e faz hoje já Guttmann dizia a fazia há 50 anos. Foi também o primeiro a insistir que a figura do treinador era vital para o sucesso da equipa, e que devia ser pago devidamente. Era também bastante resiliente, e as adversidades com que foi confrontado não encontram paralelo – viu a família e os amigos assassinados e o seu habitat natural, a comunidade judaica do Centro e Leste europeu, eliminado da face da terra.

O que o surpreendeu mais ao investigar?

Muita coisa, porque assumira que ele guardaria muito poucos segredos. Mas a verdade é que fiquei a saber que matara um rapaz, que ele e a mulher eram viciados no jogo, que regressou a uma Europa caótica vindo dos EUA, em 1938, apesar de ter um visto de permanência, que sobreviveu ao Holocausto por se ter escondido num sótão e mais tarde ter fugido de um campo de trabalho; que o seu irmão Ármin não foi morto pelos nazis como se pensava (o pai e a irmã morreram em Auschwitz), que escapou à perseguição aos judeus na Hungria em 1920, que se demitiu da equipa nacional austríaca em 1964 por causa de anti-semitismo, etc.

Como resumiria este percurso marcado por uma estrelinha de sorte, entre o visionário e o sonhador?

Estava longe de ser perfeito, mas acho que é uma personagem inspiradora. Penso que era um misto de sonhador e pessoa pragmática. Era um romântico do futebol. Adorava atacar, adorava o futebol vibrante que contagiava multidões. Mas também sabia como ganhar. A sua marca em finais, e em jogos cruciais em cada campeonato, era excelente. Claro que também tentou certificar-se de que era justamente recompensado.

O que é mais incrível, a sua vida ou o seu legado?

A sua vida. Em 1944, boa parte da Europa queria-o morto por ser judeu. Em 1961, ganhou o troféu mais prestigiado nesse mesmo continente. E repetiu a façanha no ano a seguir. O seu legado é relevante para um clube como o Benfica, e para o contexto geral do futebol, abriu caminho para aclamados treinadores da era moderna como Mourinho, Guardiola, Klopp, Ancelotti, etc.

Falta falar de duas palavras-chave. Uma delas, ambição. A outra, ressentimento.

Era extremamente ambicioso. Foi a sua ambição em triunfar no futebol que o fez regressar dos EUA. Podia ter levado uma vida tranquila mas escolheu meter-se no olho do furacão por amor ao futebol. Ficou muito ressentido com o Benfica depois de 1962, sobretudo quando viu pagarem mais a treinadores depois dele. Provavelmente carregou essa raiva o resto da vida.

Por fim, tem alguma sugestão para um adepto do Benfica se ver livre da dita maldição? Obrigada.

Não há evidência de que tenha dito isso textualmente. Que estava muito chateado, não há dúvida. Mas mesmo que tenha amaldiçoado, os benfiquistas só têm que esperar mais 44 anos! Agora a sério, o que pode resolver o problema é dinheiro. Um clube enorme, um estádio incrível, mas depois não conseguem segurar os melhores jogadores. Isso é a maior desvantagem na competição europeia.

 

Béla Guttmann, de sobrevivente do Holocausto a glória no Benfica

*** (três estrelas)

David Bolchover

Oficina do Livro

288 pp

17,01€

 

 

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