em minúsculas. O livro inédito de Herberto Helder

Publicados na imprensa de Luanda há 47 anos, estes textos de Herberto Helder desvendam uma abordagem da escrita que muito poucos terão conhecido
Herberto Helder
©Alfredo Cunha
Por João Morales |
Publicidade

Dificilmente adivinharia o autor: “O turista, como se sabe, é logo a seguir à galinha (de aviário ou não), o animal menos viável da criação”. Estes textos, publicados em Luanda no ano de 1971, no Notícia – Semanário Ilustrado, devolvem-nos um Herberto Helder (1930-2015) que muito poucos conhecerão (o próprio filho, Daniel Oliveira, que prefacia o livro, nunca os lera), num registo entre a reportagem e a crónica, munido de um humor espantoso e de uma verve crítica que, todavia, não apagam um certo traço poético na sua escrita.

Os temas variam, vão dos sucessivos e preocupantes casos de atropelamento e fuga à labuta dos pescadores; da denúncia de uma vigarice envolvendo um negócio automóvel à displicência irresponsável de um médico; do tédio dos domingos (“os domingos são, em todo o mundo, o mais triste alimento humano”); de considerações sobre Agustina-Bessa Luís a uma fascinante conversa com Carlos do Carmo: “Cantar começou por ser uma actividade marginal. Depois, foi-se apossando progressivamente de mim. No entanto, continuo a ser um homem de negócios. Muita gente depende economicamente da minha atenção aos negócios. Não posso dedicar a minha vida toda a cantar. E talvez seja bom que assim aconteça. Porque fico livre para recusar (…) Sabe? Consigo cantar enquanto faço a barba. Isso é importante.” O título, magistral, “Vê o que fizeram da minha canção, mãe…” faz a ponte entre Lucília do Carmo e o refrão de Melanie Safka.

E há ainda alguns textos, deliciosos, sobre… futebol (“desconfio que a influência dos repórteres desportivos no meu período eufórico, é monstruosamente superior à influência dos isabelinos, no período doentio”). A descrição de um jogo a que assistiu em 1951, vai em crescendo: “Começámos a gritar. De repente, alguém achou que era necessário as pessoas darem porrada umas nas outras. E então demos porrada umas nas outras. Depois, acabou. Nunca mais fui ao futebol. Tinha sido divertido de mais, e eu receava dedicar o resto da minha vida às fascinações do tinto, do grito e da batatada no meio da cabeça.” A construção destes textos preocupa-se tanto com a forma, erguidos num português rigoroso e ginasticado, como com uma abordagem pessoal, um olhar, por vezes um dedo apontado, até.

Há expressões que ganham novas vidas, sempre protegidas por uma poética constante. como em “Porque arde um homem”: “Tempos depois – aqui e ali – nos lugares centrais das cidades sul-vietnamitas, jovens religiosos espalhavam gasolina pelo seu próprio corpo, sentavam-se na posição sagrada de lótus e lançavam-se fogo (…) Era uma nova espécie de terrorismo, movido por forças espirituais difíceis para nós – racionalistas do Ocidente – e cuja agressividade apresentava uma certa inovação: era centrípeta, autodestrutiva. Nisso residia a sua força exemplar.” “Maiúsculas e minúsculas” reflecte sobre o próprio jornalismo, com uma surpreendente actualidade. E a liberdade que iria gerar tanta e intensa poesia já era bem patente: “A vida é breve. E raios partam a ordem e quem lá ande parafraseando esse “indisciplinador de almas” que, em vida breve, se chamou Nandinho Pessoa.”

em minúsculas ***** (cinco estrelas)

Herberto Helder

Assírio&Alvim

197 pp

17,70€

Outras leituras

Arte

"Constantinopla": um belo livro de viagens do século XIX

Edmondo de Amicis (1846-1908) é recordado quase exclusivamente por Coração (Cuore), um livro para rapazes cuja pedagogia dos “bons sentimentos” envelheceu mal, mas que, quando surgiu, em 1886, teve extraordinário sucesso em Itália, cuja unificação recente a obra exaltava. Porém, De Amicis foi também um viajante muito activo e publicou meia dúzia de livros em que verteu impressões colhidas em Espanha, Londres, Holanda, Marrocos, Paris e Constantinopla.

Arte

A meteorologia das almas de Marina Perezagua

Há uma possibilidade de bonança, mas o caminho destas personagens nem sempre se deixa torrar pelo sol. Violento, inquietante, cruel e insólito são apenas alguns ingredientes de A Tempestade, autêntica central meteorológica dos estados das almas e corpos humanos. Marina Perezagua (Sevilha, 1978), a mesma autora do aclamado Yoro, editado em Junho de 2016, ajuda-nos a navegar por esta colectânea de contos. 

Publicidade
Arte

Bangladesh e outros contos de Eric Nepomuceno

Voz pausada, sorriso franco, simpatia indiscutível, muitas milhas percorridas, histórias acumuladas e memórias para reciclar. Tradutor, jornalista, ficcionista, em 2018 perfaz 70 anos de idade. Foi uma das figuras da edição deste ano das Correntes D’Escritas, festival onde escutámos o seu linguajar solto do Rio de Janeiro. Há vários elementos comuns nestes contos, escritos num leque temporal com mais de 30 anos. 

Publicidade
Esta página foi migrada de forma automatizada para o nosso novo visual. Informe-nos caso algo aparente estar errado através do endereço feedback@timeout.com