Julián Fuks, Prémio José Saramago 2017

"A Resistência", romance agora premiado com o Prémio Saramago, foi o pretexto para uma conversa com o autor brasileiro em 2016. Recorde a entrevista sobre o livro

Fotografia: Arlindo Camacho

Para fugir à ditadura, os pais saíram da Argentina para o Brasil e Julián Fuks já nasceu lá. A Resistência, livro editado em Fevereiro de 2016 em Portugal, pela Companhia das Letras, é uma encenação mas também um regresso real ao passado, como confessou na entrevista que deu nessa ocasião à Time Out. 

A mentira criada por um escritor é a verdade de que se faz a literatura. Enquanto escrevem sobre si é sobre o mundo que os escritores nos conduzem; quando descrevem o que está em redor, partilhamos, tantas vezes, uma purga camuflada. As duas faces de uma moeda de troca, aceite entre quem escreve e quem lê. Esta conversa com Julián Fuks é também sobre esse contrato.

Sebastián está a escreverum livro, que é, no fundo, o livro que vamos lendo. Esta narração é umaespécie de memória dentro da memória?

Há sem dúvida um jogo de memórias. É um confronto entre a memória desse narrador, sobre o que se passou, com a memória dos pais, o que eles transmitiram ao longo da convivência entre eles, e de uma memória política e social de todo um país. Ou de dois países, melhor dizendo. Uma confluência de memórias que cria um discurso próprio.

Há uma sensação permanente de recalcamento em relação às atrocidades da ditadura. O próprio Julián cresceu com essa sensação?

Sim, foram coisas contadas lateralmente, ou sempre com meias palavras, que não se exploravam até ao limite, não se narravam até ao fim. Isso no âmbito familiar, individual. Mas mesmo no âmbito social, político, os crimes da ditadura militar não foram explorados tanto quanto poderiam ter sido – ou deveriam ter sido. Essa memória não foi exercitada tanto quanto se deveria.

Quase no final, lemos uma frase sobre o que a mãe do narrador não gostaria de ver referido no livro. É uma forma engenhosa de o referir?

Ao longo de todo o livro tem esses momentos que são de negação mas que afirmam algo. Esse é um dos procedimentos que eu procurei desempenhar. Como uma forma de complexificar o próprio discurso, o próprio pensamento e essas questões, que são muito íntimas… são difíceis de revisitar, de trabalhar literariamente. A questão de quanto isso expõe os meus pais, o meu irmão, é colocada o tempo todo. Era preciso escrever um livro delicado, que tivesse em conta não só os leitores anónimos, como o leitor mais próximo. Além disso, eu acabo por discordar da razão pela qual minha mãe não queria que eu incluísse algumas coisas, e digo porque discordo… acaba por ser uma forma de diálogo com ela.

O teu livro anterior, Procura do Romance, já tinha como protagonista um Sebastián e o regresso à infância em Buenos Aires. Porquê o mesmo tema e o mesmo nome para o protagonista?

Quando escrevi esse livro, acreditava que estava resolvida a questão da minha identidade, em termos de origem, de nação, que estava explorando a minha infância tanto quanto gostaria. Só que, passaram-se alguns anos e eu percebi que ainda tinha muito que falar. As questões identitárias nunca terminam de se compreender e, de facto, neste caso, havia irmãos que tinham sido silenciados.

A mãe diz: “você não mente como costumam mentir os escritores, e no entanto a mentira se constrói de qualquer forma”. A literatura reconstrói o passado?

Procura reconstruir, mas enquanto reconstrói acaba por reinventar. Esse é o procedimento que se torna marcante no livro. Mesmo a tentativa de escrever sem mentir, de não inventar e criar literatura a partir de uma versão factual das coisas, acaba construindo versões nada factuais, que são reflexivas, interpretativas e que complexificam a vivência e o passado.

Se encontrasses o Sebastián, o que gostavas de lhe dizer?

Talvez lhe recomendasse que ele relaxasse um pouco, ele é um sujeito muito tenso, muito sério. Eu sou mais bem-humorado (risos).

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