Maria Adelaide Coelho da Cunha, uma "doida" por amor

Uma senhora muito rica foge de casa, trocando o marido por um amante com metade da idade. Assim começa esta história verídica que faz... 100 anos.

Arquivo da família

Uma conspiração que envolve a venda do DN, um mediático adultério, subornos aos mais importantes médicos portugueses. Falámos com Manuela Gonzaga, e respirámos fundo: a acção de Maria Adelaide Coelho da Cunha – Doida Não e Não, livro reeditado esta semana, passou-se há um século.

 

Maria Adelaide apaixona-se por Manuel Claro, que fora seu motorista. O marido consegue dá-la como louca e encarcerá-la. Ela era filha de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, casada com Alfredo da Cunha, administrador e director do mesmo periódico. Naturalmente, fica também impedida de gerir os seus bens. Esta manobra de Alfredo da Cunha foi apenas por despeito, ou a situação económica de Maria Adelaide ajudou-o a tomar essa decisão?

As duas coisas, ele tinha vontade de vender o jornal, que era dela, mas ela não estava de acordo. A partir do momento em que ela é interditada, deixa de ter qualquer palavra a dizer sobre o assunto.

Por estes dias, muito se tem falado da opressão das mulheres. Achas que este é um bom exemplo de prepotência masculina?

É um caso exemplar, porque não estamos a falar só da opressão do marido, mas também da Ciência da época, dos psiquiatras da época e de uma sociedade patriarcal. No hospital onde a Maria Adelaide é internada, há várias mulheres nessas circunstâncias, interditadas pelas famílias.

Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid, três dos mais celebrados nomes da psiquiatria portuguesa, deram o seu aval à suposta loucura de Maria Adelaide. Como podemos entender essa atitude de três destacados médicos?

O que a Maria Adelaide acusava é que havia muito dinheiro envolvido nisso. Os pareceres deles foram pagos principescamente. E não só deles, houve outros médicos pagos. Por outro lado, dois deles, Sobral Cid e Egas Moniz, eram visitas do Palácio de São Vicente [onde Maria e Alfredo moravam], eram amigos do Alfredo da Cunha. Estamos a falar do topo da pirâmide social da época. Uma associação de interesses.

A 3 de Fevereiro de 1919 Adelaide foge de novo, mas logo no dia 25 é detida por polícias, a mando do marido. Com a conivência dos irmãos. Porquê esta colaboração?

Temos de ver as coisas à luz da época... e ninguém sonhava que havia infelicidade naquele casamento. Uma paixão de uma pessoa daquele patamar social por outra considerada muito inferior… tudo aquilo é um bocado chocante. Numa primeira abordagem, é possível que a família e os amigos tenham pensado que ela estava mesmo louca. Mas também há o outro lado, quem detém o poder é o Alfredo da Cunha e as pessoas tendem a ficar do lado do mais forte. Há quem defenda que, se ela se tivesse limitado a ter um affair com o motorista, desde que fosse às escondidas não era grave. O que não era normal era assumir uma “pouca-vergonha” como aquela…

Este livro tem sido alvo de estudo em universidades, no âmbito da Psicologia e do Direito. Tiveste noção das possibilidades deste caso e das questões que levanta nesses domínios, quando o escreveste?

Sim, embora não tivesse a noção de que seria tão bem sucedido ao cruzar tantas fronteiras. Pela forma como está construído, chega a pessoas muito diferentes. Foi muito gratificante, perceber que ele é estudado em diversas universidades… é uma história que toca o Direito, o jornalismo, a Psiquiatria…

Manuel Claro, o amante de Maria Adelaide, tinha estado ligado ao movimento anarco-sindicalista e o Alfredo Cunha sabia disso. Este foi também um confronto ideológico?

Não consegui arranjar essas fontes… o Alfredo da Cunha era maçon e o Manuel Claro integrava a Carbonária. Parece. Não tenho a certeza, mas o despedimento do Manuel Claro pode ter passado por isso, o Alfredo da Cunha confrontava-se com alguma contestação por parte dos tipógrafos, uma classe muito ciente e culta. Pode estar relacionado…

Por todos esses aspectos, este livro é uma bela metáfora sobre diversas relações de poder…

Completamente! E sobretudo um livro, não só sobre o direito à liberdade, mas também sobre a capacidade que algumas pessoas têm de lutarem por aquilo em que acreditam. A idoneidade mental da Maria Adelaide só foi reconhecida definitivamente quando ela tinha 74 anos. Mas esta mulher não se vergou.

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