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"Somos mais corredores de fundo do que sprinters"

miguel seabra e natália luiza
Fotografia: Arlindo Camacho

Devíamos Ter Parado é o espectáculo que assinala os 25 anos do Teatro Meridional, em cena até 17 de Dezembro. Falámos com os directores artísticos Natália Luiza e Miguel Seabra em jeito de balanço. 

Porque é que deviam ter parado?

Miguel Seabra (MS): Olha, o título deste espectáculo é necessariamente metafórico, porque encerra em si uma impossibilidade de voltar atrás. É um título muito beckettiano, um autor que prezo muito, e a via do actor, esta opção de vida que é contar história, é uma via de um só sentido, que impele sempre à continuidade, independentemente das oposições que a vida nos vai levantando.

Referes-te a dificuldades financeiras ou a um sentido mais filosófico da profissão e de postura na vida?

Natália Luiza (NL): Tem sobretudo uma dimensão filosófica.

Nunca se deixa de ser actor?

MS: Ser actor é muito sério, um actor quando está em palco tem que ser maior que as pessoas que tem à sua frente. Como dizia o José Mário Branco, um actor quando está em palco comunica com a humanidade. Nós prezamos muito o sentido sagrado e ético do teatro.

Então não deviam ter parado.

MS: A resposta é que estamos aqui e com pujança, ideias, ânimo e desafios.

Ainda vos faz sentido.

MS: Só tem sentido.

NL: Diria até não há outro sentido. E muitas vezes tudo isto se confunde com a nossa vida. O teatro acaba por ser um grande espelho onde se pode mostrar, desmontar, estruturar, destruturar. É segmentar o tempo, contraí-lo e ser capaz de o sintetizar.

Este espectáculo pretende mostrar coisas que o público raramente pode ver, certo?

MS: Insere-se numa das nossas linhas de trabalho, onde a palavra não é a principal forma de comunicação cénica, ela existe, mas estamos mais perante uma sequência de quadros simbólicos, se quiseres, que mostram o lado de dentro, não queria chamar-lhe bastidores…

NL: O camarim, um grande camarim, onde o actor se prepara para chegar depois ao palco e estar convocado para dar tudo o que tem. E quantas vezes o faz trazendo uma história pessoal que não é exactamente a história que conta e como isso é um processo violento. Uma vez, uma pessoa cujo pai tinha acabado de morrer e a peça não tinha nada a ver com essa dimensão. Estar a contracenar com ela nessa noite foi das experiências mais marcantes que já tive no teatro, é quando o teatro é cruel.

Que balanço fazem destes 25 anos, presumo que não seja fácil responder.

NL: Não é fácil reflectir durante 25 anos. Passou-se tanta coisa. Fizemos a travessia encontrando muitas linguagens, descobrindo coisas internamente, teatralmente e como isso foi e continua a ser estimulante. E como dizem os neurologistas: as sinapses desencadeiam outras sinapses. O caos sinático acaba por ser altamente estimulante. Tem sido fantástico.

Têm espectáculos que vos marcaram e que significam bastante para a companhia?

MS: Sim. Os primeiros sete anos, quando o projecto ainda tinha o Álvaro Lavín e o Júlio Salvatierra, que são fundadores do Teatro Meridional, foram marcantes a nível de algumas produções. O primeiro espectáculo, Ki Fatxiamu Noi Kui, que foi um lançamento feliz, com muita itinerância nacional e internacional e que foi muito relevante no teatro português. Ainda agora pus um post no Facebook do primeiro cartaz do Meridional e com a pergunta “quem é que viu?” e muitas pessoas se manifestaram. O Para Além do Tejo, em 2004, também foi significativo, logo a seguir Por Trás dos Montes, espectáculos dentro da mesma linha de comunicação sociocultural. Em 2007, a Natália Luiza pensou num projecto que temos alimentado que se chama Contos em Viagem, que gira à volta da língua portuguesa nos países da lusofonia, onde faz uma pesquisa dramatúrgica ao nível da literatura não-dramática. Falamos de espectáculos com mais de 100 representações.

É muita representação.

MS: Nenhuma das nossas produções teve menos de 50 apresentações.

Essa é uma das vossas linhas: a aposta na itinerância.

MS: Sim e na continuidade dos espectáculos. Hoje em dia, como tu sabes, há muita efemeridade na própria produção, fazem-se espectáculos de quatro ou cinco dias, e esta velocidade a que se vive hoje, nesta era digital…

...não vos diz muito.

MS: Diz-nos, procuramos estar atentos a ela, mas somos mais corredores de fundo do que sprinters.

NL: E isso também tem a ver com a exigência que procuramos nos espectáculos. Se sei que o grau de investimento que vou fazer é grande quero que aquilo fique connosco, que faça parte de nós, não é algo que consumo na estação de comboios.

É por isso que não temos visto muito o Meridional em co-produções com teatros como o São Luiz, como o D. Maria II?

MS: Ao longo destes 25 anos já tivemos várias co-produções com várias instituições. Aquela que em Lisboa gerou mais parcerias connosco foi o CCB, talvez 12. Com o D. Maria II tivemos uma, 1974, feita em 2010 e vamos ter outra em 2020. Ao longo de 25 anos tivemos duas co-produções com o São Luiz, onde também temos agendada uma apresentação, em 2019. Com a Culturgest, enquanto o António Pinto Ribeiro lá esteve, tivemos uma. Com o Maria Matos...não tivemos nenhuma.

Estamos a falar de 25 anos, de uma casa amplamente reconhecida, e que teve uma ou duas apresentações nessas estruturas em alguns casos. É pouco.

MS: É, mas essa resposta não podemos dar nós. Há aqui uma coisa que é nos últimos oito anos houve uma mudança de paradigma na programação em Lisboa, com a mudança dos programadores que estão à frente dessas casas e sentiu-se uma sintonia que até então não havia na programação lisboeta. E isso é muito positivo. O contraponto, na minha opinião, é que se começou a programar Lisboa com identidades muito próximas e isto tem a ver com escolhas, e nós não queremos impor o Meridional a ninguém. Como cidadão acho estranho, mais a mais o Meridional tem várias linhas de trabalho, com texto, sem texto, comédia, tragédia, drama, contos, poesia.

Sentem-se esquecidos?

MS: Não, não é isso. Essa sintonia de programação tem claramente uma linha e essa linha não tem abrangido o Meridional.

Por falar em Lisboa. Qual é a vossa história com esta cidade, visto que já estiveram em tantas.

MS: Está é a nossa cidade. Ponto.

Ok, respondido, próxima.

NL: Fui adoptada. Lisboa é para mim uma boa madrasta, quando saio daqui por alguma razão e volto a Lisboa tenho a sensação que voltei a casa embora necessariamente de quem não nasceu aqui, de quem não tem nas esquinas, nas ruas, a referência da infância. Embora nós estejamos aqui numa zona que há 12 anos, quando viemos para aqui, era profundamente…

...vazia.

NL: Vazia. Sem comunicação, em que as pessoas diziam que ir ao Poço do Bispo era como ir a Viseu.

MS: Havia um restaurante aqui ao lado onde se comia muito bem e que tinha um bolo de bolacha muito famoso. Um dia, a falar com o empregado, ele disse-me: “Senhor Miguel, há pessoas que vêm de Lisboa aqui para comer o bolo”.

É possível falarem sobre esses dois projectos no São Luiz e no D. Maria II?

MS: Já fizemos o Para Além do Tejo, com pesquisa no sítio, residências artísticas. Depois trabalhámos sobre Trás-os-Montes, no Por Trás dos Montes. Dito isto, a grande trilogia, para mim, era os Açores, depois de Alentejo e Trás-os-Montes. E em 2020 vamos realizá-la com o apoio do D. Maria II. Em 2019 temos também uma parceria provinciana com as Comédias do Minho.

A apresentar lá?

NL: Lá e cá, no Meridional, em 2020.

E o São Luiz, em 2019?

MS: Em 2019 o São Luiz faz 125 anos.

NL: E vamos fazer um espectáculo que tem relação com banda-desenhada. Sobre Lisboa.

MS: Ponto final.

Disseram à Lusa que estavam “na estação de serviço a olhar para o mapa e a perceber se é este o caminho”.

MS: Estamos a aproveitar estes 25 anos para fazer uma reflexão. Estamos em andamento, a olhar para o mapa, a beber um café...às vezes é preciso sair do carro para desentorpecer. Usei essa metáfora porque estás no meio da auto-estrada, ou seja, há continuidade. É para continuar, não é um ponto de chegada. É preciso ter a coragem de parar, olhar para dentro, para a equipa, perceber tudo isso.

Isso pode significar ir por outro caminho?

MS: Nós temos ido por muitos sítios.

Sim, mas há um lugar qualquer que é vosso, ainda que os vossos projectos sejam variados.

NL: Sim, percebo. A coerência interna do objecto, uma qualquer sacralidade que tem a ver com algo que é para nós o teatro nunca pode ser uma banalidade, não é quotidiano, tendo quotidiano lá dentro fazer teatro para nós não pode ser banal nem quotidiano. Tratamos com respeito aquilo que fazemos e acho que essas componentes estão sempre presentes qualquer que seja o objecto.

MS: Depois há o trabalho centrado no actor. A música ao vivo, a mão da Marta Carreiras [responsável plástica da companhia].

Tudo para continuar?

NL: O caminho faz-se caminhando. É fundamental também que sejamos atravessados por outro tipo de criadores, mas também acreditamos que continuamos muito vivos, no sentido de procurar, de não nos satisfazer com as primeiras abordagens e sobretudo a variedade de propostas são tão distintas que nos acaba por levar a dimensões de inquietação que faz com que o projecto não envelheça. Há aqui uma seriedade com que nós fazemos as coisas que é muito própria. Procuramos sempre a profundidade, mesmo quando falhamos. E temos noção que também falhamos.

Vamos supor que vos convidam para apresentar um espectáculo apenas durante três dias. Aceitam?

NL: Desde que depois o possamos trazer para o Meridional. À séria. Trabalhar para uma coisa que é descartável é o fast-food da arte e esse não é o nosso ADN.

MS: Não há arte sem liberdade do artista criador, mesmo quando falha. Como diz o Beckett é bom falhar e raramente acertamos. Falhar mais vezes, falhar melhor, procuramos sempre falhar melhor.

E o Meridional tem falhado bem nestes 25 anos.

MS: Sim, achamos que sim.

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