Paolo Cognetti:"Quando me senti angustiado na montanha comecei a correr como Forrest Gump"

Divide-se entre Milão e uma casa na montanha, a dois mil metros de altura, onde idealiza uma comunidade anarquista. De visita a Lisboa, Paolo Cognetii, autor de "As Oito Montanhas", falou com a Time Out
Paolo Cognetti
©Roberta Roberto
Por Maria Ramos Silva |
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Chamem-lhe a crise dos 30, quando decidiu largar a cidade e sem aviso prévio (nem sequer aos amigos mais chegados) se instalou numa cabana em Val D'Ayas, região alpina a cerca de duas horas de Milão. Paolo Cognetti (n.1978) fixou em livro as suas aventuras neste recanto duro; foi finalista do prémio Strega em 2012, com Sofia veste-se sempre de preto, e no final de 2016 lançou em Itália o seu romance de estreia, As Oito Montanhas, primeiro dos seus títulos com edição portuguesa, pela Dom Quixote. 

 

Dizia que esta é a primeira edição de As Oito Montanhas fora de Itália.

Sim, no Verão sairá em França, Alemanha; por fim nos EUA. São 32 países. Muitas das edições no Outono. Tinha grandes esperanças para Itália, por ser o meu sétimo livro. Comecei a ser bem recebido pelo público, mas esta dimensão é inesperada.

Teme que a certa altura se fale mais do seu estilo de vida do que dos seus livros?

Sim, as pessoas ficam muito curiosas sobre a minha vida na montanha, mas gosto de falar disso. 

Como costuma descrever essa vida?

Começou tudo quando era criança. Fui para a montanha com os meus pais e lembro-me bem dos verões da minha infância nos Alpes; deste sentimento de liberdade. Milão é uma grande cidade e cresci num apartamento como a maioria de nós. Lá sentia-me muito livre e selvagem. Mais tarde, esqueci-me da montanha durante anos.

Porquê?

Apaixonei-me pelas cidades, pela literatura americana, por Nova Iorque. Viajei muito, portanto entre os 20 e os 30 nada de montanhas. Quanto fiz 30 passei por uma crise. Senti-me horrivelmente.

Uma crise existencial?

Talvez. Coincidiu com o fim de muita coisa. De um amor, de um trabalho, de um projecto político com uns amigos, em Milão. Tinha que começar de novo e não sabia a partir de onde. Talvez pudesse tentar a montanha. Aluguei uma pequena casa, como a da capa do livro, e comecei a lá passar períodos de seis meses.

Como foi no começo?

No primeiro ano vivi como ermita. Comecei a travar algumas amizades entre os montanhistas. Vivia num local com imensas vacas no Verão, mas fora disso não há nada. A solidão é enorme.

Visitavam-no?

Sim, alguns amigos de Milão, mas apenas no Verão. É muito frio. A semana passada estive lá e nevava. A minha vida divide-se agora entre duas estações. O Inverno em Milão e o Verão na montanha. Também viajo.

Que disseram os amigos e a família?

Que eu os estava a abandonar. Tinha uma namorada; não a Federica (que está ao lado de Paolo, a seguir a conversa) que não gostou nada desta ideia de eu me mudar para a montanha.

Mas a relação acabou porque queria ir para a montanha ou foi o fim do namoro que o levou para lá?

Foi uma mistura. Acho que não sou um bom amigo.

Porque diz isso?

Porque falo pouco; nem lhes anunciei que me ia embora por me sentir mal na cidade. Não disse nada.

("Um dia pegou nas coisas e foi-se embora, simplesmente, sem dizer nada", diz Federica. "Na altura éramos só amigos e como amiga fiquei preocupada, como toda a gente. Era mesmo estranho e perigoso ir sozinho")

Que levou consigo? Telemóvel, ao menos?

Sim, levei. Repara, fica a duas horas de Milão, não é assim tão longe. Mas é longe em termos de pensamento. Tinha telefone, ligação à internet, mas péssima. Tinha que me pôr no cimo de um monte para conseguir sinal.

Não usa redes sociais.

Não. Parei de falar com toda a gente. Não é longe de Milão mas é muito distante da ideia de cidade. Na altura tinha visto o Into the Wild; assisti àquela revolução pessoal. Senti-me perto daquele personagem. Foi no meu 30º aniversário. Lembrei-me da infância, da montanha. Estava a ler o Walden, do Thoreau. Acho que esta decisão se dá com quem lê muitos livros.

É esse o "perigo" para quem lê o seu livro agora? Alguém mudou de vida por sua causa?

Talvez algumas pessoas pensem que gostavam de fazer o mesmo. Muitos leitores dizem-me isso mas não os vejo a fazer o mesmo. É apenas um sonho.

O que move quem parte é mais coragem ou desespero?

Coragem, sim, mas também é preciso alguma força para sobreviver. É preciso sobretudo coragem para parar, para dizer não a um trabalho, a uma forma de vida. Eu não tinha filhos, o que facilitou.

Usou a expressão de abandono. Em algum momento viram-no como um cobarde?

Sim, algumas pessoas talvez tenham pensado assim. A minha decisão envolve várias questões políticas. Quando vivia em Milão, junto com amigos, estive envolvido em diferentes projectos políticos. Para eles, a ida para a montanha é uma forma de abandonar a luta.

Havia uma decepção política da sua parte?

Sim, enorme. De Itália, de Milão.

Mas a política não faz sentido essencialmente no contexto de uma polis?

Sim (risos). Mas comecei a tentar fazê-lo nas montanhas. Começámos um pequeno festival. Gostava de poder comprar um pequeno estábulo para abrir um centro cultural, associado ao movimento "Os Novos Montanhistas".

Que expressão tem?

É pequeno, mas existe, sim. São pessoas que abandonam as suas cidades, descontentes com o curso da política, da economia. Vamos tentar reunir estas pessoas em Julho. Viram-se para novos velhos trabalhos, como a ordenha das vacas, o pastoreio. Nos Alpes temos muitos vales, vilas, abandonados desde os anos 50, quando as pessoas se mudaram para a cidade. Mas estão muito próximos de Milão ou Turim. Para um citadino, não é difícil imaginar um recomeço ali ao virar da esquina, entre vacas e ovelhas.

Voltar às origens.

Sim, começar do zero. Há quem viva em apertos, portanto porque não tentar esta vida alternativa?

Essas pessoas partem sozinhas ou acompanhadas?

Mais em famílias. É muito duro fazer como eu fiz. Normalmente levam mulher e filhos. É mais fácil sobreviver num sítio tão agreste.

Como se imagina nos próximos anos?

Não tenho o sonho de me tornar pastor. Gosto do meu trabalho, gosto da montanha de uma forma peculiar, de dar aulas, de criar um ponto de encontro para artistas.

Quando se mudou tinha trabalho?

Na altura tinha pouco dinheiro. Comecei a trabalhar como cozinheiro num restaurante

("Ele é bom cozinheiro", confirma Federica)

Vivi assim dois ou três anos. Mas ainda hoje não sou rico. Escrevo desde os 18 anos e continuo a fazê-lo. A ideia é pegar nos talentos da cidade e levá-los para a montanha.

E se todos se mudam e transformam o paraíso num inferno? 

Não (risos). Isso é impossível.

De que forma esta alternância afecta a sua escrita?

A escrita é diferente, sim. Este livro foi escrito entre 2014 e 2016, todo na montanha. Tinha muitos problemas para escrever e ler na cidade. A concentração era impossível. Ficava muito zangado. Na montanha consegui voltar a ler.

Sentia falta de algo quando se mudou?

A solidão é o mais difícil. Não temos o hábito do silêncio na cidade. Foi como um treino para aprender a viver sozinho; uma longa caminhada comigo mesmo. Não é nada fácil.

Em que medida a solidão da cidade é diferente da da montanha?

É verdade que podes ser muito solitário na cidade, sim. Senti isso várias vezes em Nova Iorque. Na montanha, se te aventuras por ali fora podes descobrir animais, trilhos, e sentes-te menos só.

Quando sentiu que era tempo de voltar à cidade?

No Outono, quando começou a nevar e a escurecer muito cedo. A água tornou-se gelo e tudo me disse para partir.

Teve mais a ver com o clima do que com estados de alma?

Sim, até porque não era uma questão de voltar à cidade. Sou do tipo de levar as pessoas comigo e não o contrário.

Um tipo de líder?

Bom, que arrasta as pessoas até si. Não sou eu que vou atrás delas. É do género, isto é muito bonito, venham ter comigo. Gostava que os meus amigos viessem fazer algo comigo na montanha.

Não terá um lado um pouco egoísta?

Sim (risos), também.

Gostava que se reunissem em redor desse ideal?

O Pietro, do livro, tem esse sonho. De ocupar essas vilas desertas e de criar uma comunidade anarquista. O meu sonho é o mesmo.

Portanto, a ideia não é estar isolado, como inicialmente poderia parecer.

Não, não. Não estou nada interessado em estar sozinho. É um mal entendido que passa. Gosto de estar sozinho mas durante pouco tempo.

Tudo começou com uma crise. Houve um momento em que a decepção abrandou?

Senti-me melhor a certa altura e com vontade de recomeçar, mas não de fazê-lo a partir da cidade. Queria fazer o que fazia já antes mas na montanha, num sítio que me acolhia.

A montanha é hospitaleira?

Senti isso, sim. Mas eu cresci num sitio duro como Milão. Nestes nossos tempos, e mesmo quando éramos mais jovens, sempre foi difícil fazer algo diferente quando a direita tem o peso que tem na cidade. Milão sempre se afirmou como o centro de um movimento de direita em Itália. Liga Norte, Berlusconi. Tudo começou aqui. Ganhas pouco e precisas de muito para viver em Milão.

Imagina-se a viver na cidade se tivesse outras condições?

Acho que não. Pelo menos por agora. Tenho condições que não teria em full time na cidade. Trabalho com as mãos, caminho, faço escalada, aprendi a cortar lenha. É tudo diferente. Para mim a cidade não é segura (risos). Para a minha saúde, digo.

Ficou doente na montanha?

Não, talvez só uma constipação.

Que conselho daria a quem parte?

Que o tente fazer acompanhado, envolvido num projecto qualquer.

Anda a escrever?

Estou a pensar numa história, com a montanha e uma rapariga. Esta é uma história de rapazes. Escrevi muito sobre mulheres em pequenas histórias, e no caso de Sofia veste-se sempre de preto. (não está traduzido entre nós).

Imagina-as num cenário à partida tão masculino?

Sim, há algumas no sítio onde vivo, que decidiram partir também. Claro que é duríssimo para elas. Quero escrever uma história sobre isso.

(Pedimos opinião a Federica. "Há um machismo muito grande na montanha. É um problema real. Imagina-te sozinha numa cabana. Mas algumas arriscam. É fascinante esse ponto de vista").

No livro, Pietro diz que a montanha o tornou mais rebelde. É curioso proporcionar isso, para além do apaziguamento.

O sentimento cliché é de que vais para a montanha e ficas super calmo, mas se vais viver para lá há muita raiva. Se tens um projecto, um trabalho, sentes-te afastado.

Sente-se excluído?

Isso mesmo. A rebeldia é um prolongamento da luta.

Tem vontade de gritar?

Sim (risos). Nunca o fiz mas comecei a correr.

Como Forrest Gump?

Sim! Quando me sentia mais angustiado.

(Como é que Federica lida com este cenário todo? "Não teve que me convencer, há um equilíbrio bom. Estamos juntos de vez em quando; é assim há quatro anos. Não vivemos sempre juntos. Adoro a montanha, mas não penso em mudar-me de vez. É bom passar longos períodos afastada da cidade. E é verdade que ele é uma pessoa diferente quando está lá (risos)")

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