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Bruno Nogueira
© Duarte Drago Bruno Nogueira

Bruno Nogueira: "Para mim, não é um ponto de honra ser contrapoder"

Depois de uns quantos telefonemas e e-mails, Bruno Nogueira calçou finalmente as botas de director da Time Out Lisboa. Depois de virar esta revista do avesso, sentámo-nos à conversa com o humorista.

Por Cláudia Lima Carvalho
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Ele não se vê como humorista, mas é com um espectáculo de stand-up que consegue o feito inédito de esgotar a Altice Arena. Na sexta-feira, vão ser mais de 13 mil as testemunhas da proeza, que contará ainda com os humoristas Carlos Coutinho Vilhena e Ricardo Araújo Pereira. Depois do Medo é o regresso ao lugar onde tudo começou, sozinho em palco de microfone na mão, como quando ficou conhecido no Levanta-te e Ri. Foram dez anos de ausência que não chegaram a deixar saudades: continuámos a vê-lo e a ouvi-lo na televisão, na rádio, no palco. Bruno Nogueira já fez praticamente tudo, mas garante que lhe falta muito mais. O espectáculo na Altice Arena é o fim de uma digressão com mais de um ano que esgotou por todo o país. O que se segue nem ele sabe. É sempre assim. Vai ter de se fartar de estar em casa, para que uma nova ideia apareça.

Como é que se chega à Altice Arena?
Talvez por exclusão de partes, porque já tinha feito os outros sítios, e pelo atrevimento de fazer um sítio que não sabia se ia correr bem. E porque nunca tinha sido feito. É lógico que a ideia de fazer stand-up pela primeira vez na Altice Arena me aliciava. Dava-me medo, mas foi pelo desafio que me impus, mais do que pela ideia de grandiosidade.

Escreveste que era um erro. O é que te deixa mais nervoso? Ficaste realmente surpreendido pela resposta?
Fiquei muito surpreendido. Tanto que apostei com a minha produtora uma viagem a Nova Iorque em como não ia encher. Mas, na realidade, deixa-me mais nervoso fazer um espectáculo para 30 ou 40 pessoas do que para as mais de 13 mil. A partir de certa altura é uma energia, não consegues bem identificar uma a uma. É um vento que sentes. Portanto o que me deixa nervoso é a vontade de fazer.

Há margem para improvisar no espectáculo?
Há uma base que está sempre escrita e depois, dependendo da noite ou de uma reacção do público, ou dos próprios estupefacientes que consumi, experimento outros caminhos. Nada me impede de o fazer. De repente, nesse improviso, surgem coisas que vão acrescentar ao que já existia, outras que não acrescentam nada e são um acto falhado, mas faz parte.

E aqui vais ter convidados.
Normalmente diz-se que é para fazer a primeira parte, mas tenho algum pudor de os pôr assim. São pessoas que vão fazer antes de mim: o Carlos Coutinho Vilhena e o Ricardo Araújo Pereira.

Vamos ter o Ricardo a fazer stand-up?
Já não é a primeira vez. É uma espécie de apresentação. Vai falar um pouco sobre humor. Não sei bem o que ele terá preparado, mas é ele com o microfone.

Já andas na estrada com este espectáculo desde 2018. Como é que tem sido? É que isto também é um regresso ao stand-up dez anos depois.
Eu estava com medo porque tenho tendência para me fartar das coisas. Estava com medo de ser sofrível andar na estrada tanto tempo. Curiosamente, além da recepção que tem sido sempre muito simpática, este espectáculo está a dar-me muito prazer e até tenho alguma pena de parar. E o espectáculo está numa forma que não estava.

Está diferente?
Completamente. No sentido de estar mais enxuto. Perderam-se as coisas que não faziam falta, acrescentaram-se coisas que melhoraram e está mais eficaz.

Mas do que é que sentiste falta para regressar?
Durante muito tempo não tinha vontade de fazer. Quando saio do Levanta-te e Ri, há muito anos, as condições não eram brilhantes para fazer stand-up. Havia ali uma grande confusão sobre o que era o stand-up e aquilo deixava-me desconfortável. Percebi que era eu que estava mal e afastei-me; depois tive algum pudor de voltar. No fundo, já queria voltar há algum tempo, mas precisei que primeiro me marcassem as datas. É uma espécie de chantagem: estão marcadas as datas, já venderam bilhetes, tens que ir. Foi isso que aconteceu.

Esgotar a Altice Arena é especial, mas também é um marco levar o stand-up ao Teatro Nacional D. Maria II. Nunca tinha acontecido.
É engraçado. Há um lado em mim que fica mais impressionado com isso do que com a Altice [Arena]. A Altice impressiona-me muito pela demonstração de vontade de ir ver o espectáculo, o que é muito gratificante. O Nacional é porque nunca houve stand- -up [ali] nem nada que se pareça e a ideia de fazer lá este espectáculo com o Tiago Rodrigues, que é alguém que eu respeito e de quem gosto muito, deixou-me muito contente. Foi uma das coisas que marco a sublinhado desta tournée.

Foi um tabu que se quebrou? Aquela ideia de que não há lugar naquele palco?
Eu próprio ainda não sei se há. Sei que gostei muito de fazer, por ser quase um corpo estranho e pela coragem do Tiago em assumir esse risco, mas não sei se é um sítio para stand-up.

Está a mudar a forma como olhamos para o humor?
Vai variando conforme polémicas, gerações. Pelo menos as pessoas que se pronunciam e têm mais voz vão variando. E portanto tens fases como esta, em que querem que tenhas ultracuidado com o que dizes porque tudo é susceptível de ser ofensivo. Se calhar essas pessoas já se ofendiam antes, mas não tinham espaço para o mostrar. Portanto eu acho que o humor vai mudando, mas que o público que se chega à frente para se manifestar em relação a esse humor vai amadurecendo e vai mudando.

Pergunto também em termos de projecção e espaço mediático. Por exemplo, em Lisboa no último ano nasceram vários comedy clubs…
Sim, mas não correram muito bem, não é? Embora haja uma grande vontade de fazer um espaço com comédia todas as noites, não há humoristas. Isto sem parecer pretensioso. Uma coisa é nos Estados Unidos, onde todas as noites podes ter stand-up e asseguras sempre o mínimo de qualidade. Isso cá ainda não existe porque os mais sólidos não são assim tantos. Há muitos que estão a fazer e têm coisas porreiras, mas aguentar cinco ou seis noites por semana e manter uma bitola de qualidade é difícil.

Também houve uma maior frequência de nomes estrangeiros a vir cá e a esgotar.
Outros que não. Mas acho que há essa vontade. A Netflix é muito culpada por isso, e o Youtube, etc. Mesmo uma pessoa que não esteja por aí além interessada por aquele stand-up comedian tem tudo disponível à distância de um comando e acaba por ver. Ouves alguém a falar na internet, tens curiosidade e vais ver. É mais fácil gerar público para a comédia porque há muita coisa a acontecer.

Ainda não estamos a levar os humoristas a sério?
Não se pode levar os humoristas a sério. O papel do humorista é fazer rir. Todos os derivados disso são ramificações que escolhes. Não me considero humorista de base. Considero-me várias coisas porque não gosto de estar num só caminho, gosto de experimentar. Ou música, ou stand-up, ou escrita, ou teatro. Estou mais livre desse chapéu. Posso levar-me a sério em alguns trabalhos, podem levar-me menos a sério noutros.

Mas é mais fácil falar das coisas a brincar?
É mais difícil para quem ouve – imagina se estou a falar de ti. Vais sentir-te mais humilhada se eu disser uma coisa sobre ti [da qual] as pessoas se riem. O humor tem esse poder de, às vezes, tu sentires uma reacção sobre ti que não terias de outra maneira.

E quando o assunto é o poder? O Tubo de Ensaio [crónica diária na TSF], por exemplo, parece ser terapêutico para ti.
Muitas vezes diz-se isso da boca para fora, mas é mesmo uma forma de terapia porque o que digo lá são coisas que me incomodam, que me irritam, que me acompanham há muito tempo e que de repente posso transformar numa coisa risível. Não diminui o problema, mas ajuda. Dói mais se ficar cá dentro. O Tubo de Ensaio é muito terapêutico e às vezes é só isso. Uns roçam muito pouco o humor porque vêm de um sítio tão azedo. Acho alguma piada que o Tubo de Ensaio tão depressa seja sobre assuntos sem relevância, como sobre um assunto seríssimo. Mas aí há sempre uma luta dentro de mim e do [João] Quadros: onde é que o humor fica nisto tudo? Às vezes é difícil porque há um nervo dentro de ti que se sobrepõe ao humor.

Mas depois muitas pessoas identificam-se.
Sim, claro. Outras não porque estão à espera de se rir, mas eu estou confortável com isso.

Percebes quando foste longe demais?
Hoje em dia, sim. É quando não espero tempo suficiente para ver o assunto à distância e reajo em cima de notícias de clickbait. É muito fácil cair nessa armadilha. O perigo é que há tanta necessidade de vender uma notícia que o contraditório muitas vezes a apaga. Só que o contraditório não tem a mesma força e portanto agarras-te a uma coisa e depois ouves o contraditório e já perdeste, sentes-te usado.

E voltas atrás?
Dentro de mim fico destruído. Posso fazer uma correcção ou outra, mas estar a fazer uma crónica... Uma coisa é uma crónica escrita, outra coisa é uma crónica de rádio diária. A não ser que a resposta seja igualmente forte e tenha igual peso à notícia principal. O que acontece muitas vezes é que se esfuma a resposta, só vens a saber dias mais tarde.

E o que é que te limita criativamente?
Aquilo que faz com que eu não seja tão produtivo criativamente é o meu estado de cansaço. Eu não funciono bem em pressão. Crio bolsas de aborrecimento, como vai acontecer agora a seguir à Altice, [em] que me vou tornar um eremita e, depois desse aborrecimento, surge uma ideia. Boicota- -me muitas vezes o pensamento não ter esse espaço de aborrecimento. Em termos de limites, não há nada que diga que seja um assunto que não falo. Há assuntos a que não acho piada e desses não me interessa falar. Acima de tudo tem de ser uma coisa com a qual me identifique. Eu estar a fazer humor sobre futebol, por exemplo, é impensável. Não tenho paixão suficiente, é-me indiferente, não cola com a personagem eu estar a fazer uma crónica sobre o João Félix. É isso que me limita, é a minha vontade de rir de um tema.

Gregorio Duvivier diz que o humorista deve ser contra o poder estabelecido. É verdade que ele vive um contexto diferente, mas concordas com isso?
O humor contrapoder é um humor sempre mais frutífero do ponto de vista do humorista. Posso ter mais a ver com este governo em termos ideológicos do que teria com o governo de Passos Coelho, mas não é isso que me impede, ou ao João Quadros, de falar sobre aquilo. No meu caso em particular, não é um ponto de honra para mim ser contrapoder se concordo com aquilo que estiver a acontecer, mas acho que quando estás num regime ditatorial, como ele está, é difícil não ser contrapoder. A mim dá mais frutos quando corre mal do que quando corre bem. É uma contradição: se o país estiver a andar bem, para o meu emprego é péssimo.

Quando as coisas correm mal é um acto de coragem fazer humor?
É muito fácil chocar. Não é nada difícil seres esse tipo corajoso que diz o que pensa. Há duas pistas hoje em dia. Há quem pensa de facto assim e esteja disposto a levar com as consequências e não tem de mudar, só ser fiel a si. E há outra corrente que às vezes corre em paralelo que é, independentemente do pensamento, aquilo que vai fazer com que expluda uma notícia do que eu disse é eu dizer isto. E aí já não consigo considerar coragem; é ter lata, que é diferente. Dizeres o que pensas não devia ser nunca um acto de coragem. Há 1300 profissões que são um acto de coragem mais heróico do que teres a possibilidade de dizeres o que pensas, teres pessoas disponíveis para ouvir e receberes um ordenado.

Na verdade, uma dessas correntes é muito fruto das redes sociais e de o mundo se ter tornado tão literal.
Sim, as pessoas têm uma grande necessidade de ler as coisas literalmente para poderem ter uma bandeira para o dia. Porque isto funciona ao dia, não é propriamente ao mês. Mas, paralelamente, essas mesmas pessoas caem nas armadilhas de “eu agora vou dizer uma coisa, vão fazer-me publicidade grátis porque fui provocador e eu nem sequer penso isto, mas sei que vão falar de mim o dia todo”. E é aí que eu prefiro um troll coerente do que uma tonta à procura de tudo e que nem sequer tenta perceber com o que se está a ofender.

Olhando para o teu percurso, dá a entender que procuras sempre fugir à tua zona de conforto. Tens medo da consensualidade?
Não tenho nada contra. A consensualidade tem um preço alto, às vezes: ficas um bocadinho refém e é difícil sair desse papel, ficas muito formatado àquilo que te transforma em consensual. Embora goste de sentir essa consensualidade por perto, a ideia de [que] agora tenho de ficar a fazer isto porque é o que os elementos do consenso querem que eu faça é coisa que me assusta. Cada vez que sinto isso, fujo. Eu gosto dessa vertigem de não saber o que vou fazer a seguir e provavelmente a coisa ser exactamente o oposto da última que fiz.

Tu próprio não sabes mesmo o que vais fazer a seguir?
Não faço ideia.

E lidas bem com a crítica?
Sim. No princípio era uma coisa que me fazia imensa confusão: usarem o meu nome, dizerem o que pensavam sobre mim e ser uma coisa destrutiva numa altura em que eu estava a formar a minha identidade artística. Hoje em dia não tem esse poder sobre mim. Claro que é muito mais agradável ler coisas positivas, mas não é coisa para me beliscar o dia.

Mas sentes alguma pressão? Tens medo de falhar porque as pessoas já esperam alguma coisa de ti?
Quando estávamos a falar daquela coisa da consensualidade, é isso que te traz. A impossibilidade de viveres com o erro porque nem tu vais suportar isso nem as pessoas te vão permitir esse erro. Para grande tragédia minha, eu acho o erro uma coisa maravilhosa de explorar.

E para quando um regresso à televisão?
Não sei. Agora vou parar e acho que desse deserto há-de surgir qualquer coisa. Não sei se é televisão, teatro, cinema, dança.

Mas o que é que te falta fazer?
Tanta coisa. Falta-me realizar, encenar, escrever uma peça de teatro.

E vês-te a fazer essas coisas?
Em última análise, não me vejo a fazer nada, mas se surgir uma ideia... Não consigo é pensar que eu tenho de realizar um filme e portanto vou parir uma ideia. Eu acho que se surgir uma ideia que se justifique ser eu a dirigi-la, isso sim. Caso contrário, não.

Palavra de humorista

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