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Cinema, Atriz, Catarina Wallenstein
©Gabriell Vieira Catarina Wallenstein

Catarina Wallenstein: “Há muita história enterrada da qual é preciso falar”

Catarina Wallenstein fala sobre ‘Um Animal Amarelo’, de Felipe Bragança, que se estreia esta semana, e sobre os seus papéis mais recentes no cinema.

Por Eurico de Barros
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Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, de João Botelho, já em cartaz, Catarina Wallenstein interpreta uma criada de hotel que se envolve com o heterónimo de Fernando Pessoa. A actriz acabou também de rodar Salgueiro Maia – O Implicado, de Sérgio Graciano, sobre a vida do capitão de Abril nos anos pós-revolução. E tem um dos principais papéis em Um Animal Amarelo, do brasileiro Felipe Bragança, que se estreia dia 15 de Outubro. A Time Out falou com ela sobre este novo filme, rodado em Portugal, no Brasil e em Moçambique, e o seu trabalho nos outros dois.

Um Animal Amarelo é o seu segundo filme com Felipe Bragança, depois de Tragam-me a Cabeça de Carmen M., em 2019, que também escreveu e rodou a meias com ele, além de interpretar. Como nasceu esta parceria artística luso-brasileira?
Nasceu do nosso encontro em Um Animal Amarelo, onde percebemos que podíamos escrever juntos. Isto depois de termos escrito uma letra para uma canção que a minha personagem canta no filme. Encontrámos um método em que não negamos o que o outro propõe, mas completamo-nos. E sendo Um Animal Amarelo um filme grande, com uma pós-produção longa, pusemos em marcha este projecto de fazer o Tragam-me a Cabeça de Carmen M. durante esse trabalho. A ordem dos anos de produção e de estreia dos filmes foi invertida.

Como definiria Um Animal Amarelo?
É um filme que me desperta a curiosidade sobre as ligações e as interacções da nossa história, para o que nós, portugueses, tirámos da ligação com o Brasil e com as outras ex-colónias, e da ligação que os brasileiros têm com Portugal. Vem muito da temática deste filme esta minha curiosidade sobre o Brasil, e as questões complexas que esta reflexão sobre este país e a identidade brasileira podem trazer. São questões muito prementes porque abarcam uma reflexão pós-colonial e racial complexíssima, sendo o Brasil construído sobre esta ideia de uma democracia racial funcional, e percebe-se hoje em dia que há muitos cadáveres escondidos, muita história enterrada da qual é preciso falar. Nós, portugueses, temos o nosso papel e muitas responsabilidades nisso, e também o dever de começar a falar dessas coisas, perder o medo de falar delas.

O Felipe Bragança diz que o filme é uma tragicomédia ambulante. O protagonista, Fernando [Higor Campanaro], é um cineasta falido que não consegue dinheiro para fazer uma fita sobre o avô, e vai andar pelo Brasil, por Portugal e por África, em busca não sabe bem de quê. Concorda com esta definição?
Sim, e tem várias camadas muito interessantes. A primeira é a busca da identidade deste cineasta brasileiro enquanto reflexão sobre uma geração de artistas. São os périplos de um anti-herói que tem o sentido do ridículo de si próprio. Um Animal Amarelo tem a estrutura de um filme de aventuras, sendo que não é autobiográfico, como se tem dito muito. É sobre uma geração de criadores que é a do Felipe. E é também uma reflexão sobre a identidade brasileira, sobre o processo histórico do Brasil, com um passado ligado à escravatura, como consequência de ser um país colonizado. Dentro da complexidade imensa do Brasil, país muito estratificado e elitista, o Fernando faz o percurso de um homem privilegiado, culto, parte de uma elite cultural, mas o filme inverte os signos todos nas questões de poder, em relação aos povos africanos e ao país colonizador. Este anti-herói, tendo todos os ingredientes para funcionar dentro da lógica do status quo, vai de falhanço em falhanço, sempre com um enorme sentido do ridículo. Acho que isso é bastante saudável, termos o sentido do ridículo de nós próprios.

O Ano da Morte de Ricardo Reis, Salgueiro Maia – O Implicado e Um Animal Amarelo são três filmes totalmente diferentes uns dos outros, em todos os aspectos. Como foram essas experiências de rodagem?
É de uma enorme riqueza encontrar os recursos para contribuir para cada um destes imaginários. Uma das grandes alegrias de ser actor é pensar: “Como é que eu contribuo, como é que eu pego na ferramenta do sonho e da ideia desta pessoa e alinho nesta estética, podendo contribuir para ela e enriquecê-la?” Existe sempre um grande depósito de mim, do meu ponto de vista, seja na escolha das personagens, seja nos diálogos. Mas o trabalho com os realizadores é sempre muito rico, e eu trago para os filmes muito daquilo que sou e do que ando a pensar. E no caso, são três filmes com os quais me alegra poder contribuir para o nosso imaginário, para não deixar a memória morrer e poder falar do nosso processo histórico. O Ano da Morte de Ricardo Reis é adaptado de um livro de José Saramago, feito a preto e branco, com uma carga poética e literária gigantesca e com a linguagem do João Botelho, que não tem nada a ver com a do filme sobre o Salgueiro Maia, que é sobre um lado da personagem que não conhecemos. Não é sobre as acções dele no 25 de Abril, mas sim sobre a sua vida nos anos 70 e 80, sobre a forma foi ele vivendo o pós-revolução. E Um Animal Amarelo é uma reflexão pós-colonial complexíssima e divertidíssima, já que não podemos falar de coisas sérias, de esqueletos enterrados e de passados bolorentos apenas de forma séria.

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