Cinemateca: Stan Brakhage ou a arte da visão

Este ciclo não é, como se costuma dizer, para meninos apenas cinéfilos. Os curiosos são bem-vindos. Mas é preciso pertencer à linha dura da cinefilia para a abraçar o radicalismo experimental de Stan Brakhage em cena na Cinemateca até ao fim do mês.
Stan Brakhage
Stan Brakhage
Por Rui Monteiro |
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Cinéfilo que é cinéfilo está, por esta altura, a salivar perante a possibilidade de, com esta grande retrospectiva do realizador falecido em 2003, conhecer finalmente a obra de um dos grandes mestres do cinema experimental norte-americano. Não estão todos os 350 filmes que criou em mais de 50 anos de carreira. O que está, porém, chega para dar a volta à cabeça de muita gente.

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Cinemateca: Stan Brakhage ou a arte da visão

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O Trabalho Tardio do Som

O título desta secção do ciclo dedicado a Stan Brakhage denuncia a sua organização temática e é, em simultâneo, auto-explicativo. De facto, a rejeição do som é uma das marcas de água deste cinema, nele surgindo associada a “uma ideia de composição conotada com a música visual.”

Por isso este é também um dos programas mais aliciantes, reunindo alguns dos poucos filmes sonoros que dirigiu a partir do fim da década de 1980. The Riddle of Lumen, por exemplo, é um clássico desta filmografia em que a luz tem também um papel essencial. Já Faust 4 resulta de uma colaboração com Rick Corrigan, que compôs a música, e é a última de quatro partes de um projecto alimentado durante 30 anos em torno do mito de Fausto. Já Passage Through: A Ritual é uma das suas mais enigmáticas obras, em que o negro profundo da imagem contrasta com a irrupção de clarões de luz, e, também, uma resposta a uma composição de Philip Corner inspirada precisamente por outro filme de Brakhage, The Riddle of Lumen. Reel 5, onde se cruza a música de James Tenney com a pintura visual, encerra esta sessão.

Quarta, 21, 18.30.

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Música Visual

Com esta sessão chega-se aquele segmento da obra dedicada aos filmes pintados, desenhados ou raspados à mão sobre a película, técnicas que Brakhage explorou ao longo das duas últimas décadas do século XX e uma das principais razões para a celebridade do seu cinema.

Mothlight é uma das obras essenciais desta série ao assentar no “contexto de um cinema sem câmara”, exclusivamente realizado através de colagens que, projectadas, “transformam uma natureza morta numa dança luminosa.” Entre este conjunto de películas próximas do expressionismo abstracto encontram-se os poucos segundos de Eye Myth, assim como os 12 minutos de Lovesong. E é também entre esta série de obras que o realizador inaugura o que chamou a “percepção da possibilidade de criação de um mito com pintura”, através de filmes como The Dante Quartet, trabalho modelado no universo poético de Dante e de Rilke, cujas quatro partes são inspiradas por um estado que o autor definiu “como a visão de olhos fechados”, ou a visão hipnagógica. Neste alinhamento encontram-se ainda The Persian Series, Untitled (for Marilyn) e First Hymn To the Night – Novalis, assim como Coupling, Dark Night of the Soul e Chinese Series, o seu último filme.

Quinta, 22, 18.30.

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Figurações da Morte, o Ciclo da Vida

Brakhage nunca teve uma visão ligeira do mundo, ou da vida, como esta sessão, organizada em torno da ideia de morte, tema que atravessa todo o seu cinema, embora ganhe múltiplos sentidos no contexto de uma visão cíclica da vida.

Sirius Remembered, por exemplo, é um exercício no qual o cineasta procura ressuscitar a memória de Sirius, o seu cão. Já em The Dead, o motivo é a exploração do cemitério Père Lachaise, em Paris, através de sobreposições, inversões negativas e montagem fragmentada. Burial Path, por sua vez, é puro “pensamento visual”, da mesma forma que Christ Mass Sex Dance, Chartres Series ou Commingled Containers reflectem sobre períodos específicos da sua vida onde a espiritualidade teve papel determinante. A encerrar esta sessão, Panels For the Walls of Heaven, o seu filme mais longo inteiramente pintado à mão, onde Brakhage exercita uma pluralidade de técnicas, ao mesmo tempo último capítulo de Vancouver Island Quartet.

Segunda, 26, 18.30

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O Jardim do Olho

Apesar de quase sempre presentes no conjunto da sua cinematografia, a natureza e a paisagem surgem nesta obra de muito diferentes formas.

Se My Mountain (parte do conjunto Songs) é um estudo do Monte Arapaho, no estado norte-americano do Colorado, inspirado pela pintura, Automnal e The Wold Shadow são, pelo criador, descritos como “uma laboriosa visão pintada do Deus da floresta.” Por sua vez, The Garden of Earthhly Deligths, evidente homenagem ao pintor Hieronymous Bosch, é um trabalho de colagem de vegetação e matéria orgânica sobre a película que, projectado, adquire uma imensa energia visual, e Creation um “filme fotográfico” que convoca as paisagens do Alasca em forma de sinfonia visual. A sessão encerra com Visions in Meditation 1 e 2, dirigidos nos últimos anos da década de 1980, que reúnem séries meditativas de imagens de paisagens carregadas de simbolismo, o primeiro inspirado em Stanzas in Meditation, de Gertrude Stein, enquanto o segundo documenta as ruínas de Mesa Verde.

Terça, 27, 18.30

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Meditações

Foi no princípio da década final do século passado que, em paralelo com os filmes pintados à mão, Brakhage produziu uma série de “meditações sobre a infância, a adolescência e o envelhecimento.”

Obra que ficou conhecida como Vancouver Island Quartet, conjunto de quatro filmes, iniciado com A Child’s Garden and the Serious Sea, que abre esta sessão, é série documental por portas travessas associada à biografia da sua segunda mulher, Marilyn. E se este filme é o início do desbravar de uma nova fase, idêntico papel tem a outra película da sessão, Antecipation of the Night, uma montagem elíptica que convoca a imagem de uma inocência perdida, que, em 1958, anuncia uma transição decisiva no seu cinema, abandonando formas mais narrativas e explorando intensamente um conjunto de novas técnicas em que a ideia de repetição, importada de Gertrude Stein, desempenha papel determinante.

Quarta, 28, 18.30.

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O Texto da Luz

Última sessão, oportunidade para conhecer The Text of Ligth, trabalho considerado essencial pelo modo como Brakhage opera “um verdadeiro estudo da luz a partir dos reflexos de um cinzeiro de vidro.”

Dedicado ao cineasta Jim Davies, o filme é uma descida radical até ao domínio da abstracção, ou, como também já se escreveu, “uma sinfonia de padrões de luz e de ritmos de composição”, exemplo que o realizador prosseguiria em obras posteriores em que o trabalho da abstracção fotográfica atinge o auge, como as séries Roman Numeral e Arabic, de que são apresentados neste ciclo quatro exemplos que, como pretendia o autor, revelam “um mundo ainda não visto.”

Quinta, 29, 18.30.

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