Festival de Cannes 2018: os dez filmes mais importantes

Depois dos Óscares não há nada mais importante no panorama cinematográfico do que o Festival de Cinema de Cannes. Desde terça-feira em cena, o programa tem de tudo, principalmente filmes capazes de agitar crítica e público durante os próximos meses.
Todos lo Saben
@Frenetic Films Todos lo Saben de Asghar Farhadi
Por Rui Monteiro |
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Uma coisa é certa, entre “blockbuster” e filme-ensaio, grande parte da exibição cinematográfica do ano passa por Cannes. Outra coisa também certa é este ser com certeza uma edição mais calma do que há 50 anos, quando os acontecimentos do Maio de 68 e a revolta dos cineastas da nova vaga francesa levarem ao encerramento do festival, a bem dizer, mal as portas abriram.

Festival de Cannes 2018: 10 filmes a não perder

Todos lo Saben

Com o peso de um Óscar à ilharga, o filme do cineasta iraniano Asghar Farhadi foi escolhido para a sessão de abertura desta 71ª edição.

Todos lo Saben é um “thriller” psicológico que junta a fina-flor da representação espanhola à nata, digamos, técnica daquele país. A saber: Penelope Cruz e Javier Bardem, pela sexta vez juntos numa película; mais o director de fotografia José Luis Alcaine, habitual colaborador de Pedro Almodóvar, e a especialista em guarda-roupa Sonia Grande (Os Outros, de Alejandro Amenábar, ou Meia-Noite em Paris, de Woody Allen). Todos juntos com o cineasta do Irão para contar a história de Laura, que viaja de Buenos Aires até à vila espanhola onde nasceu para participar no casamento da irmã e, com a família, é apanhada por um acontecimento inesperado, daqueles capazes de espoletar uma crise e revelar partes de um passado escondido.

3Faces
©DR

3 Faces

Outro realizador iraniano, Jafar Panahi, junta-se à disputa da Palma de Ouro, mas a sua circunstância é muito diferente da de Farhadi (há muito a trabalhar na Europa), pois o cineasta continua a cumprir pena domiciliária no seu país depois de ter ofendido estética e politicamente uns aiatolas.

Embora também proibido de filmar por 20 anos, Panahi continua, clandestinamente, com uma pequena equipa, a realizar os seus filmes e a encontrar maneira de os enviar para fora do Irão. Assim aconteceu com esta nova obra, na qual a actriz Behnaz Jafari, comovida e intrigada pelo apelo de uma rapariga da província impedida de prosseguir estudos teatrais, procura um cineasta amigo, o próprio Jafar Panahi, para a ajudar a resolver o imbróglio. Juntos viajam para o noroeste rural, para rapidamente descobrirem na força das tradições o aprisionamento do desejo da candidata a actriz.

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Solo: A Star Wars Story

Depois da seriedade dos filmes anteriores, um intervalo dedicado ao entretenimento em estado puro, com o festival mostrando a sua face comercial apresentando em antestreia Solo: A Star Wars Story, o atribulado quarto filme da saga na era pós-George Lucas. Depois de muitas bolandas, mudança de realizadores, alterações no argumento e cenas voltadas a filmar, a película acabou dirigida pelo eficaz tarefeiro de Hollywood Ron Howard. Como o título indica, com Alden Ehrenreich no papel de jovem Han Solo, o argumento de Jonathan e Lawrence Kasdan leva o espectador até à origem do aventureiro sempre contrariadamente disposto a ajudar a Princesa Leia e Luke Skywalker a lutar contra o Império.
Lazzaro Felice
©DR

Lazzaro Felice

Regressando à competição e a temas mais sérios, encontramos a nova obra da realizadora italiana Alice Rohrwacher, mais uma vez registando os meandros de uma amizade.

Juntando os estreantes Adriano Tardiolo e Luca Chikovani, aos experientes Nicoleta Braschi, Segi López e Alba Rohrwacher, aqui se conta a história de Lazzaro, um jovem camponês com tão bom carácter que amiúde é tomado por parvo, e do seu encontro com Tancredi, um nobre, igualmente jovem, amaldiçoado, por assim dizer, pela sua imaginação, que planeia o seu próprio rapto e arrasta o camponês numa aventura pelo mundo moderno, longe, bem longe da terrível marquesa Alfonsina de Luna, a rainha dos cigarros.

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Le Livre d'Image

Há 50 anos, com François Truffaut, um bando de cineastas da nova vaga do cinema francês e alguns aliados, como Roman Polanski ou Milos Forman, Jean-Luc Godard mobilizou forças para se juntarem ao movimento revolucionário parisiense e impediu o pano de subir na Grande Sala. Perdeu os óculos na refrega, ganhou umas nódoas negras, mas a sua intenção foi avante e o Festival de Cannes, por uma vez, acabou antes do tempo e em tumulto.

Meio século depois aí está ele (que entretanto se tornou uma referência do evento e do cinema mais virado para a arte e a experimentação), no papel de mestre envelhecido apresentando Le Livre d'Image, obra da qual, sendo franco, não se sabe quase nada, a não ser o que diz a distribuidora do filme. Isto é, que a obra é “uma reflexão sobre o mundo árabe em 2017 através de imagens de documentários e de ficção”, palavras que a sinopse apresentada não esclarece quando diz: “nada mais que o silêncio, nada a não ser um canto revolucionário, uma história em cinco capítulos, como os cinco dedos da mão.”

Blackkklanman
©DR

BlacKkKlansman

Outro habitual, Spike Lee, também ele com um rasto de controvérsia nas suas passagens por Cannes (em 1989, por exemplo, quando da estreia de Não Dês Bronca, em animada conferência de imprensa, foi acusado de dirigir um filme racista, respondeu à letra não o negando e abandonou a sala entre protestos), regressa ao festival.

Desta vez, o pretexto é o seu novo filme, BlacKkKlansman, no qual, com John David Washington e Adam Driver, conta a história espantosa e verdadeira de um negro, Ron Stallworth, agente policial no Colorado, que se infiltrou no ramo local do Ku Klux Klan e, sempre encapuçado, foi ganhando prestígio entre os racistas que queria prender, até, por um triz, não se tornar dirigente local da organização.

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Under the Silver Lake

Outro dos candidatos à Palma de Ouro é o novo trabalho do realizador norte-americano David Robert Mitchell, para já sobre ele pesando a descarada e declarada influência de David Lynch.

Neste filme, protagonizado por Andrew Garfield, no papel de Sam, um “hipster” de Los Angeles que, no meio do seu desencanto existencial, encontra uma mulher misteriosa, Sarah (Riley Keough), passeando-se pelo seu apartamento e pela sua piscina. Mal ela desaparece, como costuma acontecer às mulheres misteriosas sem contas a prestar, Sam parte numa busca surrealista através da cidade para descobrir o segredo por detrás daquela mulher, o que o vai envolver numa história de escândalo e conspiração.

Ash Is Purest White

A cinematografia chinesa, que aliás o festival tornou conhecida na Europa, tem nesta edição representação assegurada pela nova película de Jia Zhang-Ke.

Agora e como sempre, com a actriz, também sua mulher, Zhao Tao, o realizador filma uma história de gangsters na China moderna, na qual a heroína está apaixonada por Bin, um bandido local, e, por ele, durante uma batalha entre gangues rivais, dispara mortalmente contra um adversário do seu amor. Passa cinco anos na prisão, e, no fim, lá está à sua espera a paixão da sua vida, desejoso de recomeçar onde ficaram.

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The House that Jack Built

Banido do festival há uns anos, depois de uns disparates a propósito de como compreendia Hitler, Lars von Trier é outra ovelha negra de regresso ao redil.

A narrativa de The House that Jack Built, filme que dirige e que será apresentado fora da competição oficial, não é das mais claras, mas sabe-se que se debruça sobre os crimes de um assassino serial e que é registada em jeito de terror descabelado, sujeitando Uma Thurman, Matt Dillon, Bruno Ganz e Riley Keough a tratos de polé, como anteriormente fez com Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Björk ou, embora estes estejam mais habituados a papéis no fio da navalha, Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg.

The Man Who Killed Don Quixote

Quer seja exibido, como a programação anuncia, na sessão de encerramento, quer não seja, The Man Who Killed Don Quixote, do ex-Monty Python Terry Gilliam, é uma das obras mais desejadas desta edição do Festival de Cinema de Cannes.

Esperando uma decisão judicial ao processo imposto pelo produtor português Paulo Branco, que reclama a propriedade da obra que inicialmente produziu, esta é apenas mais uma bolanda em que Gilliam se meteu quando, vai para duas décadas, decidiu meter mãos à obra e realizar o seu sonho de contar a história de Dom Quixote. Porém, aconteça o que acontecer, uma coisa é certa: o filme está feito. E, no elenco, nesta narrativa cheia de fantasia e viagens no tempo, encontram-se Adam Driver, Stellan Skarsgård e, no papel principal, Jonathan Pryce.

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