No decorrer da sua vida literária, no espaço de quatro décadas e até que perdeu a visão, Camilo Castelo Branco escreveu mais de 260 livros, uma média de mais de seis por ano. Muitas dessas obras foram puramente alimentares, para poder comer e dar de comer aos seus. Conta-se que quando Camilo era pago à linha, o escritor ia à tipografia em que o livro ia ser impresso e pedia para ser usado um corpo de letra pequeno, para poder receber mais dinheiro. Além dos romances, novelas e contos, deixou também poesia, ensaios, folhetins, textos jornalísticos e de crítica, e entre os vários pseudónimos que usou contam-se alguns tão curiosos como Manoel Coco ou Anastácio das Lombrigas.
Desde que há televisão em Portugal que há obras de Camilo Castelo Branco adaptadas para este meio, datando as primeiras logo de 1957, primeiro ano de existência da RTP: A Morgadinha de Vale d’Amores e O Morgado de Fafe em Lisboa. No cinema, e durante o tempo do mudo, filmaram-se três adaptações de Amor de Perdição, respectivamente em 1914, 1918 e 1921, esta da autoria de Georges Pallu e com pouco mais de três horas de duração. Este clássico de Camilo continuou sempre a interessar os realizadores portugueses, como o demonstram as versões de António Lopes Ribeiro, em 1943 (com o célebre e raro papel dramático de António Silva como o ferreiro João da Cruz) e de Manoel de Oliveira, esta para cinema e televisão, em 1978/79.
Mais recentemente, vimos Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz (2010), e O Livro Negro, da viúva deste, Valeria Sarmiento (2018), que teve também uma versão em série de televisão, O Livro Negro do Padre Dinis (2021). A vida de Camilo Castelo Branco, sobretudo a sua turbulentíssima componente amorosa, daria um filme, ou melhor ainda, uma série de televisão, mas não tem interessado muito a quem de direito. Em 2020, a RTP exibiu a série O Processo de Camilo e Ana Plácido, sobre o processo de adultério que levou o escritor e a sua amante aos calabouços da Cadeia da Relação do Porto, na década de 60 do século XIX. Em 1992, Manoel de Oliveira havia filmado os seus últimos dias em O Dia do Desespero (1992). E agora estreia-se a adaptação, por Sérgio Graciano, de Memórias do Cárcere, o livro escrito por Camilo, após ter sido absolvido e libertado, e em apenas 40 dias, sobre o tempo em que ele e Ana Plácido penaram naquela lúgubre e desumana instituição, entre 1 de Outubro de 1860 e 16 de Outubro de 1861.
Tendo Albano Jerónimo no papel de Camilo, e Maria João Bastos no de Ana Plácido, Sérgio Graciano rodou, na própria Cadeia da Relação portuense, este Memórias do Cárcere, que será ainda uma série de televisão. A fotografia é de João Ribeiro e o argumento foi o último escrito por Carlos Saboga antes da sua morte, e recebido de um trio de guionistas que o precedeu (Luca Paiva Melo, André Catarinacho e Bruna Skrzypek). É uma fita extremamente fiel à obra e que não toma liberdades anacrónicas ou que a deturpem, combinando alguns acontecimentos narrados no prólogo do livro, a que Camilo chamou ‘Discurso Preliminar’, quando andava fugido à justiça antes de finalmente se ir entregar, com factos ocorridos na cadeia e histórias que foram contadas ao autor de Vinte Horas de Liteira por companheiros de cárcere, envolvendo mesmo o temível malfeitor José do Telhado.
Sérgio Graciano e João Ribeiro aproveitam ao máximo a atmosfera carcerária como cenário limitador e opressivo, como intensificador dramático de climas emocionais, estados de espírito e das personalidades dos protagonistas, e como definidor da densa e ensombrada identidade visual de Memórias do Cárcere. A fita tem um elenco tão justamente dirigido como homogéneo no bom nível das interpretações. Além de Albano Jerónimo e Maria João Bastos, nele surgem, entre outros, Paulo Pires, Soraia Chaves (como Carolina, a irmã de Camilo), Afonso Pimentel, João Pedro Vaz (muito bom como Coutinho, o moedeiro falso que tem a companhia de uma cadelinha a que Camilo também se afeiçoa), Marcelo Urgeghe (idem, no morgado tirânico e tragicamente castigado pela filha), Adriano Luz, Adriano Carvalho, Filipa Areosa, Diogo Infante, Ricardo Pereira, Francisca Frazão ou Rodrigo Tomás (este no rei D. Pedro V, que visitou a Cadeia da Relação, e Camilo na sua cela, por duas vezes).
A vasta, pitoresca e riquíssima obra de Camilo Castelo Branco, tal como a sua fascinante e tormentosa biografia, merecem muito mais atenção do que a que lhe tem sido dada pelo cinema português. Este conseguido Memórias no Cárcere pode contribuir para que haja, a partir de agora, mais filmes sobre os livros e a vida daquele que continua a ser um dos mais populares e lidos escritores portugueses.