Hope Harbor, o cenário de Hope, a nova realização de Na Hong-jin (O Lamento), é uma sonolenta vila costeira da Coreia do Sul, situada perto da Zona Desmilitarizada que a separa da Coreia do Norte. Não é para admirar, assim, a quantidade de cartazes a prevenir os locais sobre a possibilidade de andarem espiões na zona, e sobre os campos minados na separação entre os dois países. É numa estrada perto de um destes que um grupo de caçadores descobre um touro morto e estranhamente mutilado. Chamam o chefe da polícia da vila, Ko Bum-seok, e uma vez este presente começam as especulações sobre que tipo de animal poderia ter deixado o touro naquele estado.
É levantada a hipótese de ter sido um tigre da Sibéria, que conseguiu contornar os campos de minas. Mas as marcas de garras no touro são invulgarmente grandes. O chefe da polícia volta então à vila para lançar um aviso, enquanto os caçadores, que avançaram no terreno, encontram mais touros mortos numa quinta próxima, que foi parcialmente arrasada. E encontram também o dono desta morto e despedaçado: um dos braços foi parar aos ramos de uma árvore. E quando, pelo seu lado, Bum-seok chega a Hope, depara com um cenário de destruição e vários habitantes mortos, descobrindo que há um monstro à solta. Um monstro que se movimenta tão depressa, que não o consegue ver e está sempre vários passos à sua frente. Além disso, parece ter uma enorme resistência às balas. De onde terá vindo? Do mar? De sob a terra? Do espaço?
Combinando a acção, o terror e a ficção científica, e polvilhado de humor negro, Hope, que competiu no Festival de Cannes, onde causou sensação, é o filme mais caro da história do cinema da Coreia do Sul, a melhor e mais jubilatória superprodução deste Verão, e um dos filmes do ano. Através dele, Na Hong-jin vem confirmar e reiterar que a pujante, variada e inventiva indústria cinematográfica sul-coreana é hoje uma das mais produtivas e criativas do mundo, conseguindo já bater a americana no seu próprio jogo – a espectacularidade tamanho XXL –, e nos seus territórios de eleição – os géneros tradicionais, da ficção científica ao terror, da acção ao policial, e até mesmo no drama, na comédia ou no filme histórico.
Os filmes ditos de grande entretenimento e de produção aparatosa a abundar de vedetas que Hollywood nos propôs nestes meses de calor, desde os títulos de super-heróis como Supergirl até A Odisseia, de Christopher Nolan, ou O Fim de Oak Street, empalidecem e fazem-se pequeninos perante a escala e a sofisticação, a inventividade e a vertigem cinematográfica, o vigor e o fôlego narrativo de Hope. E, ainda por cima, Na Hong-jin não tirou nenhum coelho da cartola, já que o seu filme glosa – e refresca – um tema familiar da ficção científica, em especial da de série B, mil vezes tratado pelo cinema americano: a cidadezinha remota que se vê ameaçada por criaturas alienígenas.
À medida que o caos se vai instalando em Hope e nos bosques em redor, com o aparecimento de mais monstruosas criaturas alienígenas, muito diferentes de aspecto, provindas de uma nave que ali aterrou ou se terá despenhado, e o chefe Bum-seok, a novata mas destemida agente Im Sung-ae, e Ko Sung-ki, o caçador que, quanto mais pancada apanha dos invasores, mais furioso fica, fogem a pé, a cavalo e de carro dos alienígenas enquanto tentam estoirar com eles a tiro e com granadas de morteiro e os alvejam com os piores insultos, Na Hong-jin vai introduzindo novos dados no enredo E faz-nos perceber que, afinal, as coisas não são tão simples como parecem.
No final de Hope, que dura duas horas e meia mas parece passar num instante, fica anunciado um segundo filme (o realizador já o escreveu, falta agora financiá-lo e rodá-lo), com a queda de uma gigantesca nave extraterrestre na região, e com o diálogo entre os dois enormes alienígenas que os habitantes da vila combatem, interpretados, sob um manto de efeitos digitais, por Michael Fassbender e Alicia Vikander. Esperemos que a parte II de Hope não demore muito a chegar aos cinemas. Entretanto, Hollywood bem pode cobrir a cara de vergonha.