Joaquim Leitão: "Não estamos aqui para sofrer"

'Índice Médio de Felicidade', de Joaquim Leitão é uma história de esperança em plena crise. Falámos com o realizador
Joaquim Leitão
Fotografia: Ana Luzia
Por Eurico de Barros |
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Habitualmente avesso a fazer ficções sobre a  actualidade, o cinema português respondeu, no entanto, ao tema da crise. E com filmes tão diferentes como As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, São Jorge, de Marco Martins, A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho, Colo, de Teresa Villaverde, e agora Índice Médio de Felicidade, de Joaquim Leitão, adaptado do livro homónimo de David Machado. A Time Out conversou com o autor de Adão e Eva, Tentação e Inferno sobre esta fita optimista.

 

É sabido que o cinema português não costuma ser muito amigo da actualidade, mas a crise, pelo menos, não lhe passou ao lado. Já tinha planeado fazer um filme sobre este tema?

Eu queria fazer um filme que pelo menos tivesse como pano de fundo a crise. Mas ela está lá bastante presente. Tenho 60 anos e passei mais ou menos 50 a acreditar que, com altos e baixos, não só Portugal mas também o mundo ficariam melhor no ano seguinte, ou então na década seguinte, que em geral seríamos mais livres com o passar do tempo, que lentamente, mal ou bem, a tendência seria para haver mais países onde houvessem regimes democráticos. Não tinha ilusões que seria um percurso linear, mas essa seria a tendência geral e que acreditava que todos nós partilhávamos alguns princípios comuns. Para mim, a melhor definição disso é o 1º artigo da Declaração da Independência dos EUA, que diz que toda a gente tem direito à liberdade, à busca da felicidade e à vida. E isso, primeiro com os reflexos dos 11 de Setembro, e depois com a crise económica, foi muito abalado. Hoje vivo pior do que vivia há10 anos, mas isto bateu-me mais sobretudo porque esse optimismo – céptico, mas sempre optimismo – ficou afectado.

Em que aspecto?

Descobri-me a pensar, como muita gente, que esperava que o ano seguinte não fosse pior que o anterior. E embora continue a acreditar numa série de coisas, penso que o pior ainda está para vir. Vemos agora que há muitas coisas com pés de barro. Por exemplo, se tivesse havido referendo à nossa adesão à Comunidade Europeia, eu teria votado sim na altura. Mas fiquei surpreendidíssimo por ninguém ter pensado, quando assinou aqueles documentos, na existência de um protocolo para sairmos, caso a coisa corresse mal. Tal como a internet, que parecia ter imensos lados positivos, tal como a globalização, e agora está tudo a revelar aspectos altamente nocivos que não podem ser controlados senão por medidas muito repressivas, que penso que ninguém está disposto aplicar. E vemo-nos num mundo descontrolado, com as redes sociais a revelarem-se muito perigosas, com a informação falsa a passar mais rapidamente do que a informação minimamente credível, temos senhores como o Trump nos EUA que mentem vezes atrás de vezes e parece que os apoiantes dele não se importam e acham aquilo completamente natural. É neste mundo que de repente nos descobrimos a viver. Eu continuo pelo menos a ser optimista em relação a cada um de nós, e é isso que o livro e o filme comunicam: se há imensas coisas que não controlamos, há algo que pelo menos todos nós conseguimos controlar: a nossa reacção ao que nos acontece. E acredito pessoalmente que estamos neste mundo para tentar ser felizes e não para sofrer; e que há muitas maneiras de ser felizes, mesmo quando as coisas correm mal.

Já tinha uma ideia para rodar um filme sobre a crise, ou encontrou-a neste livro?

Eu já tinha falado várias vezes com o meu produtor, o Tino Navarro – gosto de falar nas coisas que me interessam e depois, penso se haverá também interesse de outras pessoas em ouvir falar delas –, mas não tinha conseguido ter nenhuma ideia dramática para encenar uma história passada durante crise. O Tino sugeriu-me ler o livro do David Machado e eu descobri nele uma daquelas coisas que raramente acontecem: material já escrito que reflecte ou cria um contexto para o nosso ponto de vista. A partir desse momento, quis mesmo fazer isto. Houve as habituais negociações, o David participou na adaptação e correu tudo muito bem, porque eu queria contar aquela história, porque a história de Índice Médio de Felicidade ia ao encontro das ideias que eu tinha.

Ao contrário de outros filmes sobre o mesmo tema, este introduz uma nota de optimismo e esperança no meio da adversidade extrema.

É nisso que eu acredito. Tenho tido uma vida relativamente privilegiada, mas também já passei por alguns períodos chatos. As pessoas queixarem-se apenas do que lhes acontece de mau não leva a lado nenhum. Temos de reagir e temos que controlar essa reacção. Mesmo quando a crise estava mais forte, eu não me sentia menos capaz de ser feliz. Sentia-me era menos capaz de comprar dois pares de calças e podia era só comprar uns shorts. Isso não me retirava a capacidade de tentar ser feliz e de procurar desfrutar a vida. Isto é um lugar comum, eu sei, mas muitas das melhores coisas da vida são de graça. Eu continuo pelo menos a ser optimista em relação a cada um de nós, e é isso que o livro e o filme comunicam: se há imensas coisas que não controlamos, há algo que pelo menos todos nós controlamos, que é nossa reacção ao que nos acontece. E acredito que estamos aqui para tentarmos ser felizes e não para sofrer. E que há muitas maneiras de sermos felizes, mesmo quando tudo corre mal.

Foi mais difícil, precisamente, fazer este filme por causa da crise?

Desde há alguns anos, sobretudo desde 2007, íamos sempre tendo mais algum dinheiro para fazer filmes todos os anos. É que fazer filmes custa dinheiro, e toda a gente, os técnicos, etc. também querem receber mais, é natural. O cinema é como todas as outras profissões. Mas de repente bateu a crise e começaram a fazer-se menos filmes, a haver menos dinheiro – do ICA, da RTP, dos distribuidores – o bolo começou a diminuir e os filmes passaram a ter orçamentos mais pequenos. Eu há 10 anos faria um filme em sete, oito semanas. Neste momento, o normal será quatro, cinco. Foi o caso deste. Mas quero continuar a fazer cinema, porque me dá muito prazer.

Esse aperto financeiro sente-se no filme. É uma história mais maneirinha, mesmo tendo ido filmar a Andorra e Espanha, não é?

Sim, mas isso é também fruto de uma escolha estilística minha. Eu prefiro resolver as coisas antes de filmar. Ou seja, tenho este projecto, quero fazê-lo com qualidade e tenho que aplicar o dinheiro nas coisas que se vêem no filme, em vez de em cenas que depois às vezes caem. Eu e o Tino tentámos ter a coisa muito bem preparada antes da rodagem, para que o dinheiro fosse aplicado naquilo que desejávamos. Mas é inegável que filmar uma longa-metragem em quatro ou cinco semanas não é mesma coisa que a filmar em sete ou oito. O Spielberg também se queixa de só lhe darem três meses em vez de quatro. É só uma questão de escala.

Mudaram ou cortaram muita coisa que estava no livro, ou mexeram-lhe pouco?

O filme é muito fiel ao livro. Uma das coisas que eu gostei nele é que tinha uma espécie de “voz” da personagem principal que é omnipresente, ele está a falar mentalmente com um amigo que está preso, e esse dispositivo está reproduzido no filme. Há coisas menores que caíram, como é óbvio, concentraram-se coisas que tinham que o ser e há alguns desvios narrativos, mas o filme é muito fiel ao livro em espírito, e às vezes literalmente.  

Já trabalhou anteriormente com vários dos actores do elenco de Índice Médio de Felicidade. E aqui tem muitos jovens no elenco. Como é que os escolheu?

Sim, já trabalhei antes com o núcleo principal dos actores do filme e como os conheço bem, conheço o talento deles e como eles habitam as personagens. Foi um trabalho relativamente simples e correu tudo muito bem. Quanto aos miúdos, escolhemos os actores que fazem de pais primeiro e depois tentámos escolher os miúdos que fossem credíveis como filhos daqueles pais. Fiz um casting até encontrar aqueles que achava que serviam. Há uma coisa que adoro em filmar com miúdos: quando a coisa acerta, há um lado de espontaneidade que é inigualável e por vezes até tocante.

Trinta anos depois da sua primeira longa-metragem, continua fiel a um cinema narrativo e romanesco, que conta histórias e fala de pessoas comuns, coisa que nem sempre foi muito popular no cinema português, mais dado ao “autorismo”.

Acho que isso é perfeitamente correcto e corresponde à verdade. E acho que permaneço fiel a outra coisa. Normalmente, os bons realizadores estão sempre a fazer mais ou menos o mesmo filme. Os filmes do John Ford ou do Martin Scorsese não são muito diferentes de uns para os outros. O que eu tenho tentado sempre, e acho que tenho conseguido, além dessa linha de cinema que conta histórias e tem personagens credíveis, é fazer filmes variados e com uma perspectiva estilística diferente. Já fiz dramas, já fiz comédias, já fiz filmes de acção, fiz um filme de guerra, gostava imenso de fazer um filme de terror. Não me dá prazer fazer filmes muito parecidos com os que já fiz. Gosto de tentar procurar filmes que sejam novos desafios.

Já está a trabalhar noutro filme. É outra adaptação literária, ou um argumento original?

É a adaptação de outro livro, chamado O Fim da Inocência. É uma história completamente diferente da deste e espero que ainda estreie este ano.

Entrevistas Time Out Lisboa

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