Os filmes que retratam a crise

Com uma fita portuguesa sobre a crise nas telas, 'Índice Médio de Felicidade', de Joaquim Leitão, e outra a estrear em breve, 'A Fábrica de Nada', de Pedro Pinho, recordamos as melhores ficções sobre o tema

©DRAs Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes

'As Mil e Uma Noites', de Miguel Gomes, e 'São Jorge', de Marco Martins, são dois dos oito filmes escolhidos para mostrar como o cinema tem vindo a representar, fora do documentário, a crise financeira, social e económica que desde 2008 afecta todo o planeta. 

+ Leia a crítica de Índice Médio de Felicidade

Os filmes que retratam a crise

‘As Mil e Uma Noites’, de Miguel Gomes (2015)

Não há, de certeza, em todo o mundo, um filme sobre a crise (ou melhor, uma trilogia de filmes) tão excêntrica, arrojada, desequilibrada, desconcertante, desmesurada e mutante, e ao mesmo tempo simultaneamente tão realista e fantasiosa como este (ou esta). Em três “volumes”, O Inquieto, O Desolado e O Encantado, o realizador de Tabu recorre aos métodos do cinema de guerrilha, ao mote de Xerazade no clássico da literatura do título e ao seu consabido gosto pela porosidade entre real e ficcional, para contar histórias, ora literais, ora alegóricas, ora ficcionadas, ora documentais, da crise que nos caiu em cima e dos efeitos que teve sobre a vida dos portugueses.

‘A Lei do Mercado’, de Stéphane Brizet (2015)

O título deste filme do francês Stéphane Brizet está carregado de uma ironia amarga. Vincent Lindon interpreta Thierry, um operário especializado já cinquentão, que é despedido e tem que voltar ao mercado de trabalho. E depois de fazer a via sacra das entrevistas de emprego, consegue uma colocação abaixo das suas qualificações, como vigilante numa grande superfície. Onde descobre que tem que estar atento não só aos clientes que roubam como também aos colegas que defraudam a empresa, porque estes dão a oportunidade aos patrões de fazer despedimentos “justos”. Irá Thierry calar-se e dobrar-se à necessidade de prover à família, ou seguir a sua consciência e despedir-se por razões éticas?

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‘99 Casas’, de Rahmin Barhani (2014)

O irano-americano Rahmin Barhani situa este filme na Florida para falar dos milhares e milhares de vítimas anónimas da crise do subprime e da explosão da bolha imobiliária nos EUA. Elas falharam as prestações das hipotecas e dos empréstimos das suas casas, e vêem-se na rua com os pertences num abrir e fechar de olhos, despejados por agentes imobiliários em representação dos bancos. Michael Shannon é o impiedoso agente que todos os dias põe pessoas na rua, compra-lhes as casas e depois coloca-as à venda, e Andrew Garfield uma das vítimas deste, que, em último recurso, sem tecto nem dinheiro, vai trabalhar para ele e aprender o “ofício”.

A Queda de Wall Street’, de Adam McKay (2015)

Ao contrário de 99 Casas, este A Queda de Wall Street aborda a crise do ângulo inverso, e do alto da cadeia alimentar da sociedade, em plena Wall Street. Em estilo de comédia pop e cool, recorrendo a actores como Steve Carell, Ryan Gosling, Christian Bale e Brad Pitt, e inserindo na narrativa personalidades como Anthony Bourdain ou Selena Gomez, McKay conta a história real de um pequeno, avisado e muito variado grupo de investidores, quase todos a trabalhar nas margens do sistema financeiro, que previu que o mercado ia dar um estoiro histórico, e decidiu apostar contra ele, para espanto e escárnio de quase toda a gente. A realidade deu-lhes razão e vastos lucros (e também problemas de consciência).

 

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‘São Jorge’, de Marco Martins (2016)

Não há ninguém que, de uma forma ou doutra, não ande amassado pela austeridade nesta fita de Marco Martins onde Nuno Lopes interpreta Jorge, um pugilista sem cheta, crivado de dívidas e à beira de perder a família, porque a mulher, imigrante brasileira, quer voltar ao país de origem levando o filho do casal. Em desespero, Jorge vai ter que fazer das tripas coração e ir trabalhar como brutamontes para uma firma de cobranças, daquelas cujo lema é “Se não pagas, apanhas uma sova de criar bicho”. A Lisboa em que se passa o enredo de São Jorge, é escura, feia, agreste e triste, muito longe da cidade cool, sorridente e asséptica da propaganda turística.

‘Dois Dias, Uma Noite’ (2014), de Luc e Jean-Pierre Dardenne

Sandra (Marion Cotillard) vai voltar à empresa onde trabalha depois de uma baixa por depressão. E volta para ser despedida. A sua reintegração significa que os colegas vão perder um prometido bónus de mil euros. E os colegas votaram por despedir Sandra e não ficar sem o dinheiro. Mas esta conseguiu que o director fizesse uma segunda votação. Por isso, Sandra vai passar um fim-de-semana alucinante, a correr de um lado para o outro, na tentativa de convencer os colegas a inverter o voto, abdicarem do tão almejado bónus e devolverem-lhe o emprego. Os irmãos belgas Dardenne assinam aqui uma fábula humanista para o nosso tempo, que é também um filme de suspense realista de cortar à faca.

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‘O Capital’, de Costa-Gavras (2012)

Longe das pequenas e médias empresas fustigadas pela crise e das ruas por onde circulam os cidadãos comuns que apanham em cheio com as suas consequências, este filme do veterano Costa-Gavras passa-se nos meios da alta finança e nos ambientes luxuosos e selectos frequentados pelos que nele se movimentam. Gad Emaleh, actor de comédia aqui num raro papel fora deste registo, faz o ambicioso executivo que acede inesperadamente à presidência de um banco francês, para descobrir que está sob a ameaça de uma aquisição hostil por parte de um importante fundo de investimento americano, encabeçado por um alemão (Gabriel Byrne) sem o menor escrúpulo. Ou seja: tubarões contra tubarões.

‘O Dia Antes do Fim’, de J.C. Chandor (2011

Se este não é o melhor filme de ficção sobre os tempos de crise, então anda lá mesmo ao lado. Para a sua estreia nas longas-metragens, J.C. Chandor foi inspirar-se (e de muito perto, ao que parece) na queda do Lehman Brothers, para filmar esta crónica das 24 horas de pânico num banco de investimentos, no início da crise de 2008, quando um dos seus quadros descobre, na análise deixada por um colega que acaba de ser despedido, que a companhia está à beira de uma catástrofe financeira. No final de um dia de loucos, haverá mortos, bodes expiatórios e sobreviventes, uns em melhor estado que outros. Sólidas interpretações de Kevin Spacey, Zachary Quinto, Jeremy Irons, Demi Moore, Simon Baker, Stanley Tucci e Paul Bettany.

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