25 filmes portugueses obrigatórios

Essa coisa de o cinema português ser uma seca… Enfim, só em parte é verdade. Aliás, existindo desde 1896, com milhares de realizações, alguém se havia de safar. E safou-se. Eis 25 filmes portugueses obrigatórios
sangue do meu sangue
Sangue do Meu Sangue
Por Rui Monteiro |
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Nas várias fases do cinema português, há filmes e realizadores de se lhes tirar o chapéu, alguns, e mais do que uma vez, reconhecidos internacionalmente. Há nomes que se repetem, claro, porque como o resto na vida há realizadores melhores do que outros. Como estes 25 filmes portugueses.

25 filmes portugueses de se lhes tirar o chapéu

Maria do Mar (1930), José Leitão de Barros

Leitão de Barros, sem ser um original, tal era a influência russa e do expressionismo alemão no seu trabalho, por esta altura ainda não tinha propriamente absorvido essas influências, pelo que são muitos os planos que já vimos em qualquer sítio. Ainda assim, esta triste história de Falacha, capitão e pescador que viu os seus homens perderem-se no mar, é um relato emocionante da angústia do homem, com o bónus de uma história paralela, que quase toma conta da película, história que é uma variação piscatória de Romeu e Julieta.

Aniki-Bóbó (1942), Manoel de Oliveira

Está sem dúvida entre os filmes mais importantes do cinema em Portugal e é dos primeiros que se recorda quando se fala de Manoel de Oliveira. Curiosamente, para um cineasta que mais de uma vez criou as suas próprias regras, o relato deste romance juvenil no Porto, é, esteticamente, bastante sossegado, no entanto é mais ou menos consensual encontrar-se aqui um dos primeiros exemplos do que viria a ser o neo-realismo.

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Os Verdes Anos (1963), Paulo Rocha

E foi assim, mais coisa menos coisa, com Os Verdes Anos (e a inesquecível banda sonora de Carlos Paredes), que se inaugurou o Novo Cinema Português, evidentemente influenciado pelo cinema francês da época. A importância da obra, além de cortar radicalmente com os mandamentos cinematográficos do salazarismo, o que não é pouco, radica no retrato que cria da sociedade lisboeta a partir dos diferentes pontos de vista das personagens, realçando o mal-estar e a sensação de isolamento cultural dos jovens das classes educadas, por um lado, e, por outro, a gradual transformação urbana de Lisboa numa metrópole mais próxima das capitais europeias, apesar do espírito e do ambiente provinciano.

Belarmino (1964), Fernando Lopes

O documentário de Fernando Lopes, que contou com a colaboração de um conhecido e importante jornalista, o recentemente falecido Baptista-Bastos, sobre a vida privada de um pugilista, a sua carreira, ou ausência dela. Em suma, vemos o seu quotidiano de homem do povo, sem cultura nem educação, com mulher e filha para sustentar. Lopes teve a inteligência de filmar o que hoje se chama “contraditório”, o que faz das declarações do agente do desportista, para lá sua veracidade, um complemento realista à visão um pouco idealista, para não dizer ilusória, que Belarmino tinha de si próprio.

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Benilde ou a Virgem Mãe (1975), Manoel de Oliveira

E regressa Manoel de Oliveira. Agora sem o sossego e a história moral de Aniki-Bóbó, introduzindo de início uma espécie de naturalismo na sua obra (baseada em José Régio), para, a seguir, deslizar suavemente para um surrealismo, digamos, ligeiro. Muito apropriado, aliás, ao enredo protagonizado por uma rapariga grávida agarrada a uma recusa prática (aceitar a natureza da sua gravidez), trocando-a por uma crença mística e religiosa que, na verdade, era uma metáfora do país estagnado.

Trás-os-Montes (1976), António Reis/ Margarida Cordeiro

“De Trás-os-Montes, filme de António Reis e Margarida Cordeiro, disse Jean Rouch que inaugurava um novo cinema.” Citamos João Bénard da Costa, que assim expressava a sua admiração por um cinema peculiar e inimitável onde o povo era sempre protagonista, mas nem por isso olhado com paternalismo pelo casal de cineastas. Reis e Cordeiro eram capazes de registar cruamente tanto a dureza da vida como a singeleza, mesmo que por vezes brutal, das atitudes e da relação das gentes entre si e com o meio.

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Conversa Acabada (1981), João Botelho

Era para ser um documentário, mas durante a sua criação evoluiu para uma ficção, a primeira de João Botelho (que a esta lista voltará em breve). Com um entrecho nascido das cartas entre os poetas, e grandes figuras do Modernismo, Fernando Pessoa, então em Lisboa, e o seu amigo e par de poemas, Mário de Sá-Carneiro, na altura a viver em Paris em grande agonia existencial, o filme mostra já a diferença e principalmente a irrequietude com que Botelho encarava o cinema.

Silvestre (1981), João César Monteiro

A filha de um nobre, de momento ausente em viagem para anunciar ao rei o casamento da rapariga, dá abrigo a um estranho. O que vai desencadear uma bola de neve de acções e consequências, envolver um cavaleiro de passagem e uma tentativa de resgate. Vai também mostrar como César Monteiro encontrava na fantasia e na exploração da cor uma maneira lírica de filmar que, embora de forma muita menos poética, desenvolveu nos seus filmes seguintes (mesmo sem contar com a presença etereamente essencial de Maria de Medeiros, aqui com 15 anos).

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O Bobo
©DR

O Bobo (1987), José Álvaro Morais

É que não há mas nem meio mas. O Bobo é um filme como não há mais nenhum. Melhor, se existe película que procura tornar a sua linguagem em arte total (como Wagner queria para as suas óperas), a obra de José Álvaro Morais – e, enfim, o conjunto de filmes dirigido por Hans-Jürgen Syberberg, Ludwig, Requiem para um Rei Virgem, Karl May e, antes de mais, o exemplar Hitler, Um Filme da Alemanha, que muito influenciou também João Botelho  é das que mais se aproxima desse desiderato. Aqui domina a transcendência dos sentimentos sobre a miséria moral generalizada e a futilidade artística em que a década de 1980 se estava a tornar. E domina, através de uma sucessão de estilhaços de imagens, como quem recua aos primórdios do cinema, a arte da montagem e remontagem de uma produção que durou uma década.

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Tempos Difíceis (1988), João Botelho

Não é com certeza a mais ortodoxa e esperada adaptação da obra de Charles Dickens. Contudo, transferir a acção de 1854 para a actualidade e colocá-la em Portugal, mais do que ousadia e espírito de aventura, permitiu a Botelho solidificar, ao terceiro filme, a sua posição como um cineasta, no mínimo, idiossincrático. Tudo isto com o recurso a um claro-escuro a lembrar a beleza entre as sombras dos quadros de Caravaggio. Tudo decorre entre as trevas dos negócios e dos interesses por mor de casamento combinado a que a música de António Pinho Vargas acrescenta densidade e dor.

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