Matthew Broderick
©DRMatthew Broderick em 'Painkiller: Acabar de Vez Com a Dor'

‘Painkiller: Acabar de Vez com a Dor’. No reino do sofrimento

As vítimas da insensibilidade, da ganância e da amoralidade da família Sackler, e da trágica razia do OxyContin, mereciam mais e melhor do que a nova série da Netflix.

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★★☆☆☆

Cada um dos seis episódios de Painkiller: Acabar de Vez com a Dor (Netflix), sobre a crise dos opióides nos EUA, iniciada nos anos 90 com o lançamento do altamente viciante OxyContin, da Purdue Pharma, começa com o testemunho de uma ou mais pessoas que tiveram familiares que morreram de overdoses deste medicamento, e que após dizerem que a série se baseia em factos reais mas está ficcionalizada para fins dramáticos, as suas histórias são verdadeiras. 

Ora o grande problema de Painkiller: Acabar de Vez com a Dor é precisamente esse. Os autores tomam tantas liberdades, e fazem um tal banzé para atingirem os tais “fins dramáticos”, que o impacto geral da tragédia e o efeito realista necessário para o conseguir, são afectados. Ao contrário do seu mais sisudo mas também mais direccionado e eficaz antecessor Dopesick (disponível no Disney +), Painkiller: Acabar de Vez com a Dor, que se baseia num livro (Pain Killer, de Barry Meier), e num artigo da The New Yorker, está dividido entre impressionar, denunciar e indignar, por um lado, e distrair e entreter, pelo outro. Por isso, o pungente e o berrante, o lancinante e o espalhafatoso, o chocante e o apatetado, convivem constante e incomodamente nesta série de dramaticidade bipolar e estilisticamente descompensada.

O realizador Peter Berg ora se cola aos factos e segue uma linha narrativa de sóbrio dramatismo descritivo, ora se desdobra em facécias de comédia negra, sequências onírico-fantasiosas, metáforas pueris (Arthur Sackler representado como um sacerdote a distribuir analgésicos como se fossem hóstias) e alusões básicas (até mesmo na banda sonora), e simplismos melodramáticos, enquanto personagens que nunca existiram (a investigadora interpretada por Uzo Aduba) se cruzam com outras reais mas reduzidas a bonecos prontos-a-detestar (o Richard Sackler de Matthew Broderick, ao qual pouco mais é dado para fazer do que ser friamente odioso). 

As vítimas da insensibilidade, da ganância e da amoralidade da família Sackler, e da trágica razia do OxyContin, mereciam mais e melhor do que o desconcerto formal, as facilidades e os humores contraditórios de Painkiller: Acabar de Vez com a Dor. Um documentário sério, rigoroso e aprofundado, por exemplo.

Mais críticas de televisão

  • Filmes

★★★★☆

‘A Orquestra’ (Filmin) vicia de imediato e saboreia-se com voracidade e num ápice. Que venha a segunda temporada, prestissimo! 

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