Pedro Costa, um cineasta do mundo

Há semanas, Pedro Costa foi convidado a integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas norte-americana. Se aceitar o convite vai poder votar nos Óscares. O que dado o carácter do seu cinema não será decerto o mais importante. Senão vejamos

Pedro Costa

Há uma mudança na Academia. Uma tentativa de a tornar mais diversa e representativa. Só assim se explica o convite ao realizador português, pois o cinema que o tornou conhecido e apreciado internacionalmente está nos antípodas do filme de Óscar. Basta ver esta meia dúzia de longas-metragens.

Pedro Costa, um cineasta do mundo

O Sangue (1989)

Por esta altura, Pedro Costa ainda não era o artista radical que hoje o circuito artístico-cinematográfico disputa e louva com encomendas, mostras, conferências, livros e críticas aos filmes onde, no mínimo, se insinua a genialidade da sua abordagem, a empatia com as personagens, ou o brilhantismo dos seus planos e sequências cuidadosamente compostos. Nesta altura era o estreante prometedor que gizou a pungente história de dois rapazes (Pedro Hestnes, Nuno Ferreira), irmãos pela morte libertados do jugo paterno, e uma rapariga (Inês de Medeiros), sua aliada na tentativa de, juntos, encontrarem o seu caminho e acharem o seu lugar. Mas, tão importante com a sageza do argumento, a agilidade da realização e a segurança na direcção dos intérpretes, aqui já despontavam algumas marcas do seu cinema futuro, e o que mais brilhava era a relação entre as imagens e a banda sonora que tão bem desenvolveu.

Casa de Lava (1994)

Parece uma história simples. Afinal, o enredo da segunda longa-metragem de Costa trata apenas de uma enfermeira portuguesa (Inês de Medeiros) acompanhando um trabalhador imigrante (Isaach De Bankolé), em coma, na sua viagem de regresso a Cabo Verde. Não é propriamente a rotina da profissão, mas a empatia de Mariana com o seu doente e com a sua terra que transforma, por mor do argumento, uma missão vulgar e sem contratempos de maior numa espécie de jornada revelatória, ou simplesmente imerge a protagonista numa abstracção dramática que Mariana não pode – ou não quer – compreender.

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Ossos (1997)

Se as duas obras anteriores ainda foram olhadas com alguma condescendência, em Ossos, primeiro volume da trilogia sobre o bairro das Fontainhas, Pedro Costa afirmou uma diferença, uma ousadia, uma coragem que não mais permitiria olhar para os seus filmes apenas como o trabalho de cineasta prometedor. Pelo contrário, neste filme sem actores profissionais, rodado em condições precárias, a maturidade artística do autor sobrepôs-se à miséria de um bairro em escombros e dos seus habitantes em via de desaparecimento para, assim, com crueza realista ampliada pela direcção de fotografia do veterano Emmanuel Machuel, mostrar a realidade que até os seus protagonistas preferiam esconder – no processo contrariando a euforia financeira e económica e o suposto desenvolvimento que ia acabar com as barracas e tornar Portugal a Suécia do Sul da Europa.

No Quarto da Vanda (2000)

E na quarta longa-metragem, outra vez com Vanda Duarte, por assim dizer protagonista da película anterior, Pedro Costa foi mais longe do que algum cineasta antes fora, criando um retrato tão esclarecedor como comovente, revoltante e incómodo com a sua descida ao fundo da pobreza e da miséria em Lisboa. Nesta altura, estava o século a despontar e o céu sobre Portugal ainda parecia sempre radiante, não era o filme que alguém desejava ver mas era, e é, a película que era necessário fazer para mostrar como a desigualdade e a sordidez convivem e se desenvolvem emocionalmente numa espiral descendente.

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Juventude em Marcha (2006)

As Fontainhas acabaram e com elas se encerra a trilogia de filmes dedicada ao bairro, metáfora de um Portugal escondido de olhares que, realmente, preferiam não ver, não fosse estragar-se o retrato que a bancarrota mostrou alguns anos depois. Vanda Duarte e Beatriz Duarte ainda andam por lá, apesar de realojadas num desses bairros sociais dos arredores, mas a atenção do realizador centra-se agora em Ventura, imigrante cabo-verdiano, 75 anos, vagueando pela vida, vagueando agora entre as novas e as velhas casas como quem procura o paradeiro dos que com ele partilharam o passado.

Cavalo Dinheiro (2014)

As dúvidas sobre a qualidade e a diferença do cinema de Pedro Costa já estavam dissipadas e o seu prestígio e influência estabelecidos quando Cavalo Dinheiro deu um novo passo na evolução artística do cineasta. Com Ventura, outra vez, agora de regresso ao passado, ao tempo da Revolução dos Cravos, logo para andar à naifada com o seu amigo Joaquim e iniciar uma jornada onde a memória é como uma esperança perdida ainda antes de nascer.

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