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Tchinda, a rainha trans de Cabo Verde

A vendedora de coxinhas tornou-se um dos ícones LGBT de Cabo Verde e já deu origem a um documentário premiado

©DR

Em várias ilhas de Cabo Verde, principalmente em Santiago e São Vicente, “tchinda” é a palavra usada por muita gente para se referir a alguém da comunidade LGBT. Na verdade, o nome partiu de Tchinda Andrade, a “heroína transgénero”, como lhe chamou a CNN num artigo, uma das personagens mais conhecidas do Mindelo, São Vicente, e o centro das atenções do documentário Tchindas, que estreou em Setembro no Queer Lisboa.

Foi o jornalista Marc Serena, realizador e um dos convidados do festival, quem descobriu Tchinda, a vendedora de coxinhas, enquanto entrevistava pessoas para o livro Isto Não É África, “com gente gay, lésbica e trans de países africanos em diferentes situações”, conta-nos o catalão Pablo Garcia, outro dos realizadores do filme. “No Mindelo, o Marc encontrou um lugar que lhe pareceu de esperança absoluta para a comunidade, depois de conhecer a Tchinda e a Edinha [outra activista transgénero da ilha].”

Por recomendação de Cesária Évora, com quem Marc esteve pouco antes de a cantora morrer,e também ela amiga de Tchinda, voltou à ilha em 2013, desta vez com Pablo, para filmar as preparações do Carnaval do Mindelo, impulsionadas em grande parte pelas transgénero da ilha. “Quando chegámos, percebemos logo que a Tchinda era a líder do bairro e uma pessoa muito querida. Obviamente que Cabo Verde não é um paraíso [Tchinda chegou a ser agredida na cidade da Praia, em Santiago, por causa da sua identidade sexual e ainda tem cicatrizes visíveis na cara], mas é um exemplo de aceitação para muitas pessoas do mundo, principalmente de África.”

O filme, rodado ao longo de um mês e com pouco dinheiro – “o financiamento só chegou depois”, diz Pablo –, foi apresentado o ano passado no Outfest de Los Angeles, onde recebeu o prémio do júri. Chamou a atenção da imprensa, e a PBS, televisão pública norte-americana, adquiriu os direitos de emissão. Ao todo já soma onze prémios em festivais de cinema internacionais e esteve em competição este ano na secção de Documentários do Queer Lisboa.

Tchinda, agora uma espécie de estrela adorada no Mindelo, já tinha saído do armário em Cabo Verde no Carnaval de 1998, quando se assumiu como trans numa entrevista a um jornal local. A entrevista fez manchete, com o título “Tchinda-val!” (um trocadilho com Carnaval) e o jornal esgotou e começou a abrir as mentalidades do arquipélago. A primeira marcha de orgulho gay em Cabo Verde aconteceria em 2013.

Depois da estreia do filme, Tchinda Andrade (a quem a mãe ainda chama Alcides) foi convidada para o New York African Film Festival e a partir daí viajou por vários países para falar sobre a sua vida. “Nos Estados Unidos ficou até o visto terminar e pelas fotos que pôs no Facebook parece-me que foi recebida como uma diva”, conta Pablo. Entretanto, voltou à sua terra natal onde continua a vender coxinhas pela rua, toma conta de crianças enquanto os moradores vão trabalhar e já está a pensar no próximo Carnaval, que calha a 28 de Fevereiro.

 

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