Dez livros infantis para este Natal

No meio da parafernália de presentes possíveis para os miúdos, esta é sempre uma boa solução. Não há outra época do ano tão fértil na edição de livros infantis e a escolha é farta. Eis dez que nos caíram no goto e que recomendamos
Os Pais Não Sabem Mas Eu Explico
©Teresa Cortez
Por João Pedro Oliveira |
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Dez livros infantis para este Natal

Zooleógica
©Patrícia Portela

Zoelógica

Eis uma nova categoria dentro dos livros infantis. Elas chamam-lhe um livro-tertúlia. Porque “todas as suas histórias desenhadas ou escritas nasceram de conversas nossas e nenhuma está acabada”, explicam. Patrícia Portela, a mãe, 42 anos, trabalha em teatro, dança e cinema, diz que “sonha com mundos paralelos em livros e outros formatos”, uma definição que se repete em todas as referências biográficas que lhe são feitas porque assenta na perfeição em tudo o que ela faz. Foi o que fez, por exemplo, no notável A Colecção Privada de Acácio Nobre, livro para gente grande editado já este ano. E é o que volta a fazer neste Zoelógica, o seu primeiro livro infantil, assinado em parceria com Zoe, a filha, sete anos, também ela uma revelação na arte de sonhar outros mundos a partir da desconstrução deste. O que temos, como elas bem explicam, é uma colecção de conversas quotidianas entre mãe e filha. Das perguntas desconcertantes (“os peixes têm costas?”) às involuntariamente poéticas (“o que é que eu vivi amanhã?”); dos estratagemas corriqueiros (“amanhã posso ir lavar o cabelo à cabeleireira e não tomar banho?”) às reflexões matemáticas e filosóficas (“um um não pode ser um sozinho”); tudo serve de pretexto. Mas temos mais. Zoelógica é uma lição sobre a beleza que se descobre quando nos predispomos a ouvir o outro e a sonhar pelos seus olhos. Por outras palavras, um exercício de amor e educação. Facilmente um dos melhores livros infantis do ano.

Patrícia Portela, Caminho, 48 pp, 10,90€

A Grande Viagem do Pequeno Mi
©Rachel Caiano

A Grande Viagem do Pequeno Mi

O mínimo que se pede aos livros infantis é que não infantilizem. Não é fácil, mas também ninguém disse que era – ou, pensando melhor, talvez alguém tenha dito, pois por estes dias toda a gente se acha capaz de escrever um. Porque haveria de ser fácil conseguir ver o mundo da forma que o mundo passou anos a tentar corrigir, como se diagnosticasse uma miopia na capacidade de ver sempre alguma coisa diferente nas coisas que já toda a gente viu? É preciso uma moral da história sem que a história seja moralizante, um verbo que desafie sem ser pretensioso, um enredo verosímil sem deixar de ser onírico, uma vontade surrealista de conhecer porcos que se entretêm a resolver equações matemáticas ou a árvore onde nascem todos os pássaros. É assim A Grande Viagem do Pequeno Mi, um rapaz que se dá conta de que perdeu alguma coisa, não sabe o quê, parte em sua busca e acaba por perceber que afinal, nunca a perdeu: a imaginação. Talvez uma boa parábola para descrever qualquer adulto que, como Sandro William Junqueira, seja ainda capaz de imaginar uma história assim, ou como Rachel Caiano, que a soube ilustrar admiravelmente.

Sandro William Junqueira (textos) e Rachel Caiano (ilustrações), Caminho, 40 pp, 10,90€

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O Lagarto
©J. Borges

O Lagarto

Logo à primeira página, fala-se de um “lagarto que surdiu no Chiado”, com o seu “corpo flexuoso” e a sua “língua bífida”. Falam-se palavras que não se costumam falar em livros para miúdos porque a história, na verdade, não foi feita para neles. O Lagarto é um conto escrito em registo de fábula e nascido em formato de crónica. Foi incluído em A Bagagem do Viajante (1973), volume que reuniu 60 textos de José Saramago originalmente publicados entre 1969 e 1972 nas páginas d’A Capital e do Jornal do Fundão. Regressa agora num pequeno álbum que casa as palavras do escritor português com as xilogravuras do mestre brasileiro J. Borges. Conta a história do aparecimento de um “sardão imponente” nas ruas da cidade, de como as pessoas reagiram e a ordem pública se alterou. É um texto de jornal pré-1974 e as entrelinhas falam. Mas também é a história desconcertante de um lagarto gigante a passear em pleno Chiado. É coisas diferentes, conforme a idade de quem lê. Precisamente o que se pede aos bons livros infantis. 

José Saramago (texto) e J. Borges (xilogravuras), Porto Editora, 24 pp, 13,30€

 
medo
©Rodrigo Abril de Abreu

Medo do Quê? + Sílvio, Guardador de Ventos

Dois livros infantis que se debruçam destemidamente sobre o medo. O primeiro é um pequeno livro que se diz à medida de miúdos até seis anos, mas mente. Medo do Quê?, de Rodrigo Abril de Abreu, um neurocientista com queda acentuada para a ilustração, é na verdade um genérico para todas as idades. O princípio activo é simples: por cada medo diagnosticado, prescreve um anticorpo de fascínio. Medo do escuro? “É aí que nascem as estrelas”. Medo de ser diferente? “Ser diferente é ser como toda a gente”. O desafio é enunciado pelo autor: “E se, ao tiramos o medo da sombra, nos descobrimos a nós próprios?” E por isso todas as ilustrações são pontuadas por uma sombra – que ora ameaça, ora protege – numa técnica mista de desenho e fotografia que dá coerência visual ao todo. 

Medo do Quê?, Rodrigo Abril de Abreu, Presença, 10,50€

 

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Sílvio, Guardador de Ventos
©Madalena Moniz

O segundo não diz a quem se destina, mas a história não deixa mentir. Sílvio, Guardador de Ventos, escrito por Francisco Duarte Mangas e ilustrado por Madalena Moniz, fala dos medos que os crescidos fazem crescer nos gaiatos. Sílvio terá os tais seis anos e sonha com o que será quando for grande. Já decidiu que há-de ser guardador de alguma coisa. De quê, não sabe. Ele imagina as possibilidades e a mãe responde com os pavores que lhe inspiram. Ser guarda-chuva é uma vida de constipações, ser guarda-jóias é um convite a ser assaltado, guarda-nocturno implica andar sozinho no escuro. Sílvio compreende e sentencia a moral da história. “Obrigado mãe, por me acarinhares com tantos medos."

Sílvio, Guardador de Ventos, Franscisco Duarte Mangas e Madalena Moniz, Caminho, 11,90€

Céu de Sardas, Uma História para Jogar
©Alicia Baladan

Céu de Sardas, Uma História para Jogar + Um Dia de Loucos, Trinta Ossos Duros de Roer

É verdade que devemos incentivar nos miúdos um certo sentido de desapego das coisas materiais. Uma ideia, um olhar, uma história: um livro é tudo isso antes de tudo o resto. Mas é também um objecto que se cobiça e a verdade é que não há mal nisso. Ora, estes dois livros infantis são puros objectos lúdicos. O primeiro, Céu de Sardas, é para gente mesmo pequena que gosta de riscar páginas e define-se como “uma história para jogar”. A Sofia tem pintinhas na cara, a Camila tem sardas – diz que a Via Láctea lhe caiu em cima. As duas amigas inventam uma série de jogos imaginados na pele de uma e de outra. Um objecto bonito com uma ideia bonita para as cabeças mais tenras: o mundo só se compreende quando aprendemos a vestir a pele do outro.

Céu de Sardas, Uma História para Jogar, Inês d’Almey e Alicia Baladan, Bruaá, 24 pp + jogo, 12,51€ 

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Um Dia de Loucos, Trinta Ossos Duros de Roer
©Marta Monteiro

O segundo já pede gente mais crescidinha (pelo menos seis anos, vá) e nasce da cabeça de Walter Benjamin (1982-1940), pensador cuja biografia mistura materialismo dialético e idealismo alemão, tradução literária e teoria estética, e títulos essenciais para diferentes áreas como A Tarefa do Tradutor (1923), A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica (1936) ou Teses Sobre o Conceito de História (1940). O que é que isto importa para o caso? Não muito. É mais pela curiosidade de perceber que os livros infantis são uma arte cultivada por grandes cabeças. Um Dia de Loucos: Trinta Ossos Duros de Roer é na verdade um programa de rádio, um dos 90 que Benjamin fez entre 1927 e 1933 e que acabou recauchutado em livro. Em 40 páginas ilustradas por Marta Monteiro, acompanhamos um dia estranho na vida de Bruno e a sua busca pela solução de uma adivinha. Pelo caminho, Benjamin semeou 15 perguntas a que é preciso responder e 15 erros para detectar. Cada resposta correta vale dois pontos, cada erro identificado vale um. As soluções estão todas no fim e podemos espreitar à vontade, mas isso tira a graça toda à coisa.

Um Dia de Loucos, Trinta Ossos Duros de Roer, Walter Benjamin (texto), Marta Monteiro (ilustrações), Bruaá, 40 pp, 13,50€

Os Pais Não Sabem Mas Eu Explico
©Teresa Cortez

Os Pais Não Sabem Mas Eu Explico + Monterrosso

Alinhemos agora dois livros infantis que, além da editora, têm duas outras coisas em comum: ambos são objectos cuidados e inteligentemente ilustrados, e em ambos os pais são personagens e, de algum modo, alvos para a moral da história. No primeiro, a coisa torna-se evidente logo pelo título. Os Pais Não Sabem Mas Eu Explico conta a breve história de um miúdo desassossegado com as sua perguntas e insatisfeito com as respostas dos pais. Perante as hesitações e os rodeios, decide ir ele próprio à procura da solução para as suas interrogações – porque é que as estrelas não caem do céu? porque é que não podemos estar todos os dias contentes? porque é que o meu coração dispara quando vejo a Maria?, coisas deste género – e depois explicar tudo aos progenitores, de forma clara e ao alcance de todas as inteligências.

Os Pais Não Sabem Mas Eu Explico, de Maria João Lopes (textos) e Teresa Cortez (ilustrações), Máquina de Voar, 32 pp, 9,54€ 

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Monterrosso
©Maria Bouza

O segundo traz uma homenagem literária lá dentro. Monterroso era escritor, nasceu hondurenho e naturalizou-se guatemalteco. Eis uma biografia curta para o escritor que se gabava de ter escrito o conto mais curto de sempre: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”, escreveu ele. Augusto Monterroso (1921-2003) é uma referência na literatura latino-americana e um mestre da escrita curta e este Monterrosso (a grafia do nome usada no livro) é uma espécie de tributo que lhe é prestado. Começa assim: “Quando os pais chegaram ao quarto, Monterrosso não estava lá”. Percebem depois que o filho desapareceu dentro das páginas de um livro e partem em busca dele. Como se quer nos bons livros infantis, o texto é simples sem que a mensagem seja simplista. Mas o convite ao mergulho nas páginas – e não só para os miúdos - é literal e evidente. 

Monterrosso, de João Ferreira Oliveira (textos) e Maria Bouza (ilustrações), Máquina de Voar, 32 pp, 9,54€

O Plock do Polock
©Ivone Gonçalves

O Plock do Polock

A arte de Jackson Pollock (1912-1956) é tudo menos consensual. Podemos falar dele como o pintor que desenvolveu um dos estilos abstractos mais radicais da história da arte, capaz de nos fazer repensar o que é afinal uma pintura, o que é que representa, segundo que regras e quem as define. Ou então como um destrambelhado que em vez de pintar telas as salpicava de tinta ao acaso. Uma coisa é certa: ele viu, ou quis ver, coisas como ninguém viu antes dele. Com este outro Pollock, acontece mais ou menos mesmo, e essa é a premissa para um dos melhores livros infantis da época. Esta é a história de um menino que decide que quer ser pintor, mas que não parece ver o mundo como toda a gente nem está interessado em representá-lo como os outros pintores antes dele. Os pais apoiam o projecto e apesar das suas dúvidas vão acompanhando as suas descobertas. No final, acabam a ver na tela as mesmas coisas incríveis que ele. E a perceber que na arte como em tudo, o valor da obra final pode estar no caminho que se fez para chegar até ela.

Rui de Almeida Paiva (texto) e Ivone Gonçalves (ilustrações), Caminho, 40 pp, 10,90€

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