10 canções com cheiro a maresia

O mar tem sido uma inesgotável fonte de inspiração para artistas de todas as épocas e áreas. Agora que o calor convida a que nos aproximemos da praia, eis 10 canções que combinam com o rumor das ondas
Maresia
©DR
Por José Carlos Fernandes |
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10 canções com cheiro a maresia

“La Mer”, de Charles Trenet

Décadas de hegemonia do pop-rock anglo-saxónico têm feito esquecer que, em meados do século passado, a canção francesa deu cartas. Um dos seus nomes mais notáveis foi Charles Trenet (1913-2001), que teve o seu auge de popularidade entre as décadas de 1930 e 1950 e teve em “La Mer” um dos seus maiores êxitos.

Segundo Trenet, a letra foi escrita aos 16 anos, mas foram precisos mais 14 para que fosse musicada e ainda mais três para que Trenet decidisse gravá-la. Quando a cantou, no próprio dia em que a escreveu, em 1943, o público não manifestou grande entusiasmo e Trenet entendeu que ela não teria potencial para se tornar num êxito. A guerra mundial em curso e a ocupação alemã da França também não eram propícias e só em 1945 a canção foi orquestrada e gravada, pela voz de Roland Gerbeau. Trenet gravaria a sua versão no ano seguinte e foi esta que ganhou popularidade planetária, embora existam cerca de quatro centenas de registos por outros cantores.

A canção tem um balanço tão hipnótico como o dos “reflexos de prata” sobre a sua superfície e ganha intensidade a cada nova estrofe. Há que reconhecer que na última estrofe ganha um arrebatamento descabido e que destoa da atmosfera tão habilmente construída no início, mas nem por isso deixa de ser uma das melhores canções marítimas de sempre, daquelas que “embala o nosso coração pela vida fora”.

“Amsterdam”, de Jacques Brel

A canção francófona gerou outra obra-prima de temática marítima: “Amsterdam”, composta por Brel em 1964 e que, embora se tenha tornado num dos seus maiores êxitos, nunca foi alvo de gravação de estúdio pelo seu criador, sendo conhecida sobretudo pela versão ao vivo no Olympia, em Paris, em 1964. Tal como Trenet não depositava grande fé em “La Mer”, também Brel tinha expectativas baixas para “Amsterdam”, mas o público aderiu entusiasticamente assim que a ouviu.

Embora a canção tenha por tema os marinheiros de licença no porto de Amesterdão e tenha, portanto, o Mar do Norte como pano de fundo, a canção foi escrita numa casa em Roquebrune-Cap-Martin, com vista para o Mediterrâneo.

A canção é estruturalmente simples mas Brel injecta-lhe mais emoção e veemência a cada volta até atingir um clímax arrepiante. Têm sido gravadas muitas versões – incluindo uma feliz leitura de David Bowie, em 1973 – mas nenhuma se aproxima da intensidade de Brel.

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“O Barco vai de Saída”, de Fausto

Por Este Rio Acima (1982), que bem poderia chamar-se Por Este Mar Fora, é o primeiro quadro do tríptico Lusitana Diáspora e é a obra-prima de Fausto Bordalo Dias. É um álbum duplo conceptual, inspirado na Peregrinação, o relato (publicado postumamente) que Fernão Mendes Pinto fez das suas aventuras no Oriente, e na História Trágico-Marítima compilada por Bernardo Gomes de Brito em 1735-36.

Após a abertura instrumental “É o Mar que nos Chama”, desfralda o pano este endiabrado “O Barco Vai de Saída”, impelido por percussões de sabor popular: despede-se do “cais de Alfama” e sonha com “terras de pimenta e maravilha/ Com sonhos de prata e fantasia”, numa “aventura p’ra lá da loucura/ P’ra lá do Equador”, deixa a “vida boa” de Lisboa para enfrentar “tempestade medonhas” que estão “p’ra lá do que é eterno” e são “o retrato do inferno”.

[Versão ao vivo no CCB]

“Blue Lagoon”, de Laurie Anderson

“Blue Lagoon”, do álbum Mr. Heartbreak (1984), é uma canção sobre uma ilha deserta e também uma canção para se levar para uma ilha deserta. Nela se entrelaçam uma carta escrita por um ilhéu dirigindo-se a quem ficou na “civilização” e excertos de duas obras magnas da literatura, ambas com temática marítima: The Tempest, de Shakespeare, e Moby Dick, de Melville. A colagem de Anderson recorre à passagem mais célebre e impregnada de sal de The Tempest, a “Canção de Ariel” (“Full fathom five thy father lies...”); a Moby Dick vai buscar a frase de abertura “Call me Ishmael” e cita aproximadamente (“And I alone am left to tell the tale”) a epígrafe do epílogo, retirada do Livro de Job. Tal como Ismael foi o único sobrevivente do naufrágio do Pecod, causado pela obsessão cega do capitão Ahab, esta carta da ilha deserta dir-se-ia escrita pelo último sobrevivente de um colapso civilizacional: “e só eu sobrevivi para contar a história”.

Os teclados criam ondulações hipnóticas, a guitarra de Adrian Belew é uma ave marinha planando sem esforço, as percussões de David Van Thieghem fervilham como insectos exóticos, a voz de Laurie Anderson é um feitiço irresistível. Se ouvir esta canção muitas vezes, também os seus ossos se converterão em coral, os olhos em pérolas...

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“Seven Seas”, dos Echo and the Bunnymen

“Seven Seas” foi um dos singles de Ocean Rain (1984), um álbum em que o mar está omnipresente e que é um dos marcos do pop-rock da década de 80. Se as letras de Ian McCulloch tendem a ser enigmáticas, esta é um delírio surreal que resiste à descodificação (e não é o bizarro videoclip que ajudará a elucidar o seu significado). Embora os Echo & The Bunnymen sejam de Liverpool, é duvidoso que as tradições da cidade portuária tenham influído decisivamente neste álbum: os mares de Ocean Rain são mares interiores.

A música prossegue no crescendo de sofisticação dos três álbuns anteriores e todas as canções contaram com inventivos (e quase sempre sombrios) arranjos orquestrais.

“Sete Mares”, dos Sétima Legião

Três anos depois de Ocean Rain, uma banda pop de outra cidade com forte tradição marítima – Lisboa – lançava o seu segundo álbum, Mar d’Outubro (1987), de que fazem parte duas das canções de maior sucesso da banda, “Sete Mares” e “Noutro Lugar”. O som dos Sétima Legião, embora filiado no pós-punk britânico – e com particular afinidade com os Echo and the Bunnymen – tinha identidade própria e uma marca ibérica, para a qual contribuíam a gaita de foles de Paulo Marinho e as percussões de Paulo Abelho.

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“Estuary Bed”, de The Triffids

Os australianos The Triffids tinham tido existência discreta e irregular desde 1978, mas foram precisos nove anos para, com o segundo álbum, Born Sandy Devotional (1986), atingirem a plena maturidade. O oceano que banha Born Sandy Devotional e lhe enche as canções de areia e sal é o Índico, pois a banda é de Perth, na costa ocidental da Austrália, uma região excêntrica ao usual eixo criativo Sydney-Melbourne. “Estuary Bed” é a canção que se conecta com a imagem da capa do álbum: “As crianças regressam da praia/ O passeio queima-lhes os pés/ Lavam o sal sob o chuveiro”; gastam as horas despreocupadamente, pois o Verão irá durar para sempre e as praias estendem-se a perder de vista. Depois percebe-se que Dave McComb rememora um tempo passado, de amores passados no limbo entre rio e mar, entre infância e idade adulta, e que a melancolia invade as imagens do passado como uma maré: “De que serve a memória se está coberta pelo sedimento do estuário?/ Conheço a tua forma/ Os nossos membros enlaçados/ Sei o teu nome, lembra-te do meu”.

“Sea, Swallow Me”, de Budd/ Raymonde/ Guthrie/ Fraser

A colaboração entre os Cocteau Twins – Elizabeth Fraser, Robin Guthrie e Simon Raymonde – e Harold Budd dir-se-ia estar escrita nas estrelas. O piano liquefeito de Budd é o complemento perfeito para as atmosferas oníricas dos Cocteau Twins e The Moon and the Melodies (1986) é diáfano como a memória de um sonho. O álbum abre com esta canção de imersão oceânica.

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“That Sea, the Gambler”, de Gregory Alan Isakov

A canção que dá título ao terceiro álbum de Isakov, That Sea, the Gambler (2007), fala de navegações por águas não-cartografadas – da vida, do amor? –, com correntes adversas, ventos imprevisíveis, baixios traiçoeiros, um jogo em que o mar tem todas as cartas fortes e atira os marinheiros exaustos sobre um rochedo solitário.

“The House at Sea”, dos Amor de Días

O trio londrino The Clientele anunciou uma paragem por tempo indeterminado, mas o vocalista e guitarrista Alasdair MacLean não entrou de férias, ainda que em The House at Sea (2013), o segundo álbum do projecto Amor de Días – um duo com Lupe Núñez-Fernández, dos Pipas – tenha ido (pelo menos em espírito) para uma casa junto ao mar. A toada é atmosférica e onírica, as vozes são suaves e serenas e a guitarra acústica de MacLean ganhou nos Amor de Días um cunho latino e ensolarado, embora não suficientemente forte para fazer dissipar completamente a névoa. A canção que dá título ao álbum é uma aguarela marinha em que “sobre o nosso cabelo, crescem conchas/ Sobre os nossos dedos, correm as marés”.

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