10 concertos para oboé que precisa de ouvir

Vai ouvir-se na Gulbenkian o Concerto para oboé de Mozart, que é o único concerto para oboé do Classicismo no repertório canónico. Esta fraca visibilidade não significa, porém que haja escassez de concertos para este expressivo instrumento

©Uwe Arens Sony ClassicalFrancois Leleux

Se um pato fosse uma ave canora, soaria como um oboé – a observação, que surge na peça Angels in America (1993) é maliciosa, mas tem um fundo de verdade: o oboé soa algo nasalado, mas isso não deslustra a sua capacidade expressiva e a riqueza do seu timbre.

O instrumento surgiu em França em meados do século XVII, por evolução da charamela renascentista. A sua origem francesa está patente no nome que o instrumento recebeu nas principais línguas europeias e que provém de “haut” (alto) + “bois” (madeira), ou seja, é um instrumento agudo do naipe das madeiras. Os anglófonos chamaram-lhe “hautboy” e “hoboy”, antes de assentarem em “oboe” (que pronunciam como “oubou”). O Barroco tardio assistiu a um notável florescimento dos concertos para oboé, alguns deles para uma variante do instrumento conhecida como oboe d’amore, com uma sonoridade mais grave e doce do que o oboé comum. A família dos oboés ganharia ainda um elemento mais grave, o cor anglais, e Bach recorreria pontualmente, nas sua música sacra a outra variante, o oboe da caccia, de corpo curvado, que teria pouca difusão e se extinguiria no fim do período barroco, tal como o oboe d’amore.

Nos períodos Clássico e Romântico, poucos foram os compositores de primeiro plano que investiram neste formato.

Mozart por Leleux

O Concerto para oboé K314 terá como solista François Leleux, que acumulará tal função com a direcção da Orquestra Gulbenkian. O programa inclui transcrições para oboé, da autoria de Leleux, de árias de Don Giovanni e A Flauta Mágica (que fazem parte do CD dedicado a Mozart que o oboísta gravou para a Sony), o poema sinfónico Les Préludes S97, de Liszt, e a Sinfonia n.º 4 D417 Trágica, de Schubert.

Fundação Gulbenkian, sexta-feira 24, 21.00, e sábado 25, 19.00, 12-24€.

10 concertos para oboé que precisa de ouvir

Concerto em ré menor, de Marcello

Ano: antes de 1715

O veneziano Alessandro Marcello tinha posição social e rendimentos que lhe permitiam viver sem precisar de estar ao serviço de um príncipe ou de uma igreja e deixou-nos apreciável quantidade de cantatas, sonatas e concertos, que hoje raramente são tocados, com excepção do magnífico Concerto para oboé em ré menor SD935. Para a fama deste contribuiu o facto de Johann Sebastian Bach o ter achado suficientemente válido para dele ter realizado, por volta de 1715, uma transcrição para teclado solo (BWV 974). Albinoni fez publicar o Concerto em ré menor em Amesterdão em 1717, ano em que também surgiu uma transposição da obra para a tonalidade de dó menor (SZ799). O irmão de Alessandro Marcello, Benedetto, também se dedicou à composição e, no seu tempo, desfrutou de maior fama do que Alessandro e nem sempre é claro a qual dos irmãos a menção “Marcello” se refere – não é o caso deste concerto para oboé, que é sem dúvida de Alessandro.

[Por Marcel Ponseele (oboé e direcção) e Il Gardelino]

Concerto op.9 n.º 2, de Albinoni

Ano: 1722

Quis o destino que o veneziano Tomaso Albinoni (1671-1751) se tornasse célebre por uma peça (o meloso “Adagio de Albinoni”) que não é de sua lavra e que as muitas obras de valor que efectivamente compôs continuem a ser pouco conhecidas. Os seus Concerti a cinque op.7 (c. 1715) foram os primeiros publicados por um compositor italiano a dar papel solista ao oboé, a que se seguiu a colecção de 12 concertos publicada em Amesterdão em 1722 como op.9 e dedicada a Maximiliano Emanuel II, príncipe-eleitor da Baviera. Albinoni tinha contactos privilegiados com a corte de Munique e, nesse mesmo ano de 1722, tinha aí apresentado, a convite do eleitor, uma ópera e uma serenata de sua autoria. O op.9 reparte assim os papéis solistas. quatro dos concertos são para oboé, quatro são para dois oboés e outros quatro são para violino.

[Por Paul Dombrecht (oboé e direcção) e Il Fondamento, em instrumentos de época]

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Concerto BWV 1053R, de Bach

Ano: c.1717-23

Não chegou aos nossos dias nenhum concerto para oboé composto por Johann Sebastian Bach. Porém, há indícios fortes de que os concertos para cravo que Bach apresentou em Leipzig no Café Zimmermann, na década de 1730, resultaram de transcrições de concertos para outros instrumentos solistas (violino, oboé, flauta), compostos durante o seu período em Cöthen (1717-23). Presumindo que alguns desses concertos se destinariam originalmente a oboé (ou oboe d’amore), foram realizadas reconstruções – identificadas no catálogo BWV com a letra “R” – de cinco dos concertos para cravo. Entre eles está o Concerto BWV 1053R.

[I andamento, por Patrick Beaugiraud (oboe d’amore) e o ensemble Café Zimmermann, dirigido por Pablo Valetti (Alpha), em instrumentos de época]

Concerto TWV 51:f1, de Telemann

Ano: c.1716

O alemão Georg Philipp Telemann (1681-1767) deixou uma vasta produção de concertos, entre os quais se contam vários destinados ao oboé. Com base numa análise estilística, os especialistas sugerem que o Concerto TWV 51:f1 terá sido composto durante a estadia do compositor em Frankfurt, onde desempenhou o cargo de director musical da cidade (1712-21).

[Por Bram Kreeftmeijer e o ensemble Combattimento, em instrumentos de época, no Concertgebouw de Amesterdão, 25 de Dezembro de 2016]

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Concerto RV 454, de Vivaldi

Ano: c.1725

O veneziano Antonio Vivaldi deixou abundante produção em todos os géneros e nos seus concertos deu papel solista aos mais variados instrumentos – existem 21 concertos para oboé que lhe são atribuídos. Um dos mais tocados é o RV 454, de que existe também uma versão para violino (RV 236), incluída na colecção Il Cimento dell’Armonia e dell’Inventione op.8, publicada em Amesterdão em 1725.

[Por Alfredo Bernardini e Orchestra Barocca Zefiro, em instrumentos de época. Bernardini usa neste registo um instrumento construído em Milão em 1730, um dos raros oboés do tempo de Vivaldi que chegou aos nossos dias]

Concerto K 314, de Mozart

Ano: 1777

O Concerto para oboé K314 foi composto por Mozart aos 21 anos e destinou-se a Giuseppe Ferlendis, um natural de Bergamo que era oboísta na orquestra de Salzburgo (mais bem pago do que Mozart, note-se) e que acabou os seus dias em Lisboa. Quando, nesse mesmo ano, o flautista holandês Ferdinand De Jean encomendou obras para o seu instrumento a Mozart, este transcreveu o K314 para flauta e “vendeu-o” ao cliente como se tivesse sido composto para ele (era uma prática corrente e Mozart não tinha grande apreço pela flauta). A partitura do concerto para oboé andou perdida durante muito tempo, só sendo redescoberta em 1920 – só então se percebeu que o seu irmão para flauta era uma transcrição e não uma obra original.

[II andamento (Adagio non troppo), por Nicholas Daniel (oboé) e a Orquestra Sinfónica da BBC, dirigida por Jirí Belohlávek. nos BBC Proms]

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Concerto em dó maior C31, de Rosetti

Ano: c.1770-80

O boémio Franz Anton Rösler (c.1750-1792), que a partir de 1773 adoptou o nome de Francesco Antonio Rosetti (no meio musical de então, ser-se italiano era uma mais-valia), foi um dos grandes compositores do classicismo injustamente ofuscados pelos seus contemporâneos Haydn e Mozart. Foi mestre de capela nas cortes de Öttingen-Wallerstein, em 1773-1789, e Mecklenburg-Schwerein, de 1789 até ao fim da vida (faleceu seis meses depois de Mozart). Como muitos dos compositores deste período, foi extraordinariamente prolífico, deixando-nos um total de 76 concertos, dos quais nove são para oboé. São raramente tocados e muitos deles nunca foram gravados.

[Por Lajos Lencsés (oboé) e a Orquestra de Câmara Eslovaca, dirigida por Bohdan Warchal, numa gravação de 1990 em Bratislava (edição CPO)]

Concerto em lá menor, de Vaughan Williams

Ano: 1944

Por incrível que pareça, após o florescimento de concertos para oboé do início do Classicismo, seria preciso esperar mais de século e meio até que um compositor de primeiro plano voltasse a compor um concerto para oboé; até mesmo na música de câmara o instrumento foi completamente negligenciado pelo Romantismo e só Schumann compôs três breves Romances para oboé e piano. O britânico Ralph Vaughan Williams (1872-1958) passou muito tempo a estudar a música tradicional das Ilhas Britânicas e esta acabou por infiltrar-se em muita da música que compôs. É o caso do Concerto para oboé, obra tardia em cujo primeiro andamento, de deixarmos a imaginação correr, pode vislumbrar-se uma ensolarada paisagem de colinas do countryside inglês, com um pastor improvisando uma melodia no seu oboé rústico.

[I andamento (Rondo Pastorale) por Albrecht Mayer (oboé) e a Capella Bydgostiensis, dirigida por Daniel Stabrawa (Cavalli Records)]

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Concerto em ré maior, de Strauss

Ano: 1945

O alemão Richard Strauss (1864-1949) estava no ocaso da vida quando compôs este concerto e a obra tem uma aprazível e luminosa atmosfera rococó, talvez como uma reacção aos anos de negrume da II Guerra Mundial. Em Abril de 1945, John de Lancie, oboísta principal da Orquestra de Pittsburgh, cumpria serviço militar nas forças americanas estacionadas perto da residência de Strauss em Garmish-Partenkirchen e aproveitou para fazer uma visita ao compositor, no decurso da qual lhe perguntou se nunca pensara em compor um concerto para oboé. Strauss respondeu secamente que não, mas pouco depois lançou mãos à obra, tendo a peça estreado em Zurique em Fevereiro de 1946.

[Excerto por Albrecht Mayer (oboé) e a Filarmónica de Berlim, dirigida por Christian Thielemann, na Berlin Philharmonie, 4 de Março de 2012]

Concerto H.353, de Martinu

Ano: 1955

O concerto ocupa um lugar discreto na vasta produção do checo Bohuslav Martinu (1890-1959) e nasceu em circunstâncias algo insólitas: foi encomendado por Jirí Tancibudek, um oboísta checo que emigrara para a Austrália e foi patrocinado pelo jornal Daily Telegraph de Sydney, a fim de comemorar os Jogos Olímpicos de Melbourne, em 1956. A obra é, felizmente, bem melhor do que a música que costuma “abrilhantar” as cerimónias olímpicas.

[Por Stefan Schilli (oboé) e a Orquestra Sinfónica da Rádio Bávara, dirigida por Mariss Jansons]

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