10 obras para dar graças ao Todo-Poderoso

No dia 31 de Dezembro ecoarão louvores a Deus na Igreja de São Roque, sob a forma de dois Te Deum, um hino que tem uma longa tradição na História da Música

©Márcia LessaCoro Gulbenkian na Igreja de São Roque

Na Lisboa setecentista vigorava a tradição de executar um Te Deum no dia 31 de Dezembro, em sinal de reconhecimento por tudo o que de bom se recebera durante o ano, prática que também era seguida noutros países católicos. Além disso, os Te Deum eram também tocados quando da coroação de reis, nascimento de príncipes ou celebração de tratados de paz.

A tradição cristã atribui a autoria do texto aos santos Agostinho de Hipona e Ambrósio de Milão, no ano de 387 (o que explica que seja também conhecido como “hino ambrosiano”), mas alguns especialistas apontam antes para Aniceto, bispo de Remesiana (hoje Bela Palanka, na Sérvia), que também viveu no século IV. Seja qual for o autor, o certo é que o texto inflamou a imaginação dos compositores ao longo dos séculos.

10 obras para dar graças ao Todo-Poderoso

1. Du Caurroy: Te Deum para a Paz de Vervins

Compositor: Eustache Du Caurroy (1549-1609) foi o mais importante compositor francês do final da Renascença. Entrou para a capela real como menino de coro e ascendeu a mestre de capela, tendo servido três reis de França – Carlos IX, Henrique III e Henrique IV. O Requiem que compôs para as cerimónias fúnebres de Henrique IV foi cantado em todas as exéquias dos reis de França nos séculos seguintes. Pouco sobrou do prestígio de que gozou em vida, pois hoje é, infelizmente, conhecido apenas por alguns melómanos com gostos mais excêntricos.

Ocasião: Tratado de paz assinado em Vervins, a 2 de Maio de 1598, que pôs termo ao conflito entre Henrique IV de França e Filipe II de Espanha (na prática, foi um reconhecimento da derrota pela Espanha, que se viu forçada a retirar as tropas que apoiavam os católicos franceses nas guerras religiosas que tinham agitado França nas últimas décadas).

Obra: É um dos três Te Deum de Du Caurroy que chegaram aos nossos dias.


[Te Deum para a Paz de Vervins, direcção de Olivier Schneebeli, um dos grandes especialistas na música sacra francesa da Renascença e Barroco. Schneebeli gravou a obra para a editora K617 com Les Pages et les Chantres do Centro de Música Barroca de Versailles.]

2. Purcell: Te Deum & Jubilate Z.232

Compositor:Henry Purcell (1659-1695), o mais importante compositor do barroco inglês e, feitas as contas, o mais notável compositor nascido do lado de lá do Canal entre a Renascença e o século XX. Compôs óperas, música de cena, canções e uma impressionante quantidade de música sacra.

Ocasião: Celebrações do Dia de Santa Cecília, a 22 de Novembro de 1694, na St. Bride’s Church, em Londres.

Obra: Destinando-se a um contexto anglicano, o texto latino foi substituído pelo seu equivalente inglês (“We Praise Thee, o Lord”). Foi o primeiro Te Deum composto em Inglaterra a ter componente orquestral e foi uma das últimas obras compostas por Purcell, que faleceria meses depois, com apenas 36 anos. Foi tocado todos os anos na Catedral de S. Paulo, em Londres, até 1712.



[Te Deum de Purcell, pelo Coro da Catedral de Christ Church (Oxford) e The English Concert, sob a direcção de Simon Preston. A gravação foi editada pela Archiv]

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3. Lully: Te Deum LWV 55

Compositor: Jean-Baptiste Lully (1632-1687), um florentino que, graças à sua amizade próxima com Luís XIV, sórdidas intrigas e ausência de escrúpulos, foi durante muitas décadas “o dono disto tudo” na música francesa. A sua influência exerceu-se para lá da sua morte, pois as suas óperas (tragédies lyriques) tornaram-se no padrão pelo qual se regeram e foram avaliados os compositores franceses até meados do século XVIII.

Ocasião: Baptismo do primeiro filho do compositor, na Chapelle de la Sainte-Trinité, em Fontainebleu, a 9 de Setembro de 1677, na presença de Luís XIV, que foi padrinho da criança (o que dá ideia da estima que o Rei-Sol tinha por Lully). Foi tocado pela segunda vez a 31 de Agosto de 1679, por ocasião do casamento de Carlos II de Espanha com Maria Luísa de Orléans.

Obra: Tornou-se na obra sacra mais tocada em França no seu tempo, servindo para assinalar numerosas ocasiões solenes. Uma delas revelar-se-ia fatal para o compositor: quando dirigia o seu Te Deum, no final de 1686 ou no início de 1687, frente a um portentoso ensemble de 150 cantores e músicos (efectivos extraordinários para os padrões da época), em acção de graças por Luís XIV se ter restabelecido de uma enfermidade, Lully atingiu o pé com o bastão com que marcava o tempo (na época, a batuta ainda não entrara em uso). A ferida gangrenou e o maior compositor de França sucumbiu à infecção a 22 de Março de 1687.



[Te Deum de Lully, por Les Arts Florissants, ensemble fundado em 1979 por William Christie, um americano que se tornou num dos maiores paladinos do barroco francês; as gravações de Les Arts Florissants & Christie estão disponíveis nas editoras Harmonia Mundi, Erato e Virgin Classics (hoje Erato)]

4. Charpentier: Te Deum H.146

Compositor: Marc-Antoine Charpentier (1643-1704) foi o mais prolífico e inspirado compositor de música sacra do barroco francês e deixou também várias obras-primas profanas – nomeadamente a ópera Médée – embora neste domínio a sua produção tivesse sido menos extensa, uma vez que só se consagrou a ela a partir de 1687, depois da morte de Lully, que detinha o exclusivo da ópera em França.

Ocasião: Terá estreado em 1692, na igreja jesuíta de S. Luís, em Paris, onde o compositor era então “mestre de música”, e ter-se-á possivelmente destinado a dar graças pela vitória francesa na sangrenta Batalha de Steenkerque (hoje na Bélgica), a 3 de Agosto desse ano, contra um exército conjunto de ingleses, escoceses, holandeses e alemães, no decorrer da Guerra dos Nove Anos.

Obra: Charpentier compôs seis Te Deum, de que sobreviveram quatro, sendo o H.146 o mais famoso por um excerto da sua marcial e faiscante abertura (“Prélude: Marche en Rondeau”) ter sido escolhida como indicativo das transmissões da Eurovisão. Que quem ficou enjoado de ouvir este trecho em loop na TV durante anos não esmoreça, pois a obra é muito mais rica do que a amostra televisiva pode sugerir.



[Início do Te Deum H.146 de Charpentier, por La Capella Reial de Catalunya e Le Concert des Nations, com direcção de Jordi Savall]

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5. Handel: Utrecht Te Deum HWV 278

Compositor: George Friderick Handel (1685-1759) nasceu em Halle, na Alemanha, e, ainda muito jovem, trabalhou na ópera de Hamburgo e viajou por Itália. Regressou à Alemanha para dirigir a música na corte do Eleitor de Hannover, mas foi atraído pela vida musical de Londres, cidade em que se estabeleceu definitivamente em 1712. Foi o mais importante compositor setecentista britânico (naturalizou-se como súbdito britânico em 1727), compondo e levando à cena uma longa fiada de ópera italianas; quando o empreendimento se revelou ruinoso, apostou nas oratórias cantadas em inglês, que moldaram a música sacra britânica.

Ocasião: Estreou na Catedral de S. Paulo, em Londres, a 13 de Julho de 1713, e celebrou a assinatura do Tratado de Utrecht, pondo termo à Guerra da Sucessão de Espanha, que envolveu boa parte das nações da Europa Ocidental (Portugal incluído).

Obra: Foi a primeira obra de música sacra de Handel com texto em inglês e foi também a primeira encomenda que recebeu da corte britânica. Handel, que sempre soube adaptar-se rapidamente ao contexto em que vivia, tomou como modelo o Te Deum & Jubilate de Purcell (ver 2) e o resultado agradou de tal modo aos britânicos que o Utrecht Te Deum passou a ser tocado na Catedral de S. Paulo, em alternância com o seu “modelo”, até ser substituído por um novo Te Deum de Handel, composto em 1743 para celebrar a vitória britânica sobre os franceses na Batalha de Dettingen. 

[Utrecht Te Deum de Handel pelo RIAS Kammerchor e Accademia Bizantina, com direcção de Ottavio Dantone, ao vivo no Festival de la Chaise-Dieu, Agosto de 2013]

6. Zelenka: Te Deum ZWV 146

Compositor: Jan Dismas Zelenka (1679-1745) foi um dos mais geniais compositores do barroco, embora nunca tenha obtido o reconhecimento que mereceria. Compôs grande número de obras sacras, muitas delas para a sumptuosa orquestra da corte de Dresden. Após a morte do mestre de capela, Johann David Heinichen, em 1729, Zelenka, que era seu adjunto, assumiu interinamente as suas funções, vindo em 1734 a ser nomeado formalmente como responsável pela música sacra (o cargo de mestre de capela fora atribuído, entretanto, a Johann Adolph Hasse).

Ocasião: Novembro de 1731, para dar graças pelo nascimento da princesa Maria Josefa da Saxónia, filha de Augusto III da Saxónia e rei da Polónia, e de Maria Josefa de Áustria. A princesa casar-se-ia com o Delfim de França e um dos seus filhos seria o infeliz Luís XVI.

Obra: É o mais exuberante e grandioso dos dois Te Deum de Zelenka que chegaram aos nossos dias. Recorre a dois coros e a uma orquestra que, além das cordas, inclui quatro trompetes, pares de flautas, oboé e fagotes e timbales.

[“Te Deum laudamus” do Te Deum ZWV 146 de Zelenka, pelo Collegium 1704, dirigido por Václav Luks, ao vivo na Abadia de Saint-Robert, Agosto de 2011 (Festival de la Chaise-Dieu). O Collegium 1704 é dos ensembles que mais tem feito para divulgar a obra de Zelenka, nomeadamente através dos discos editados na Accent, Supraphon e Zig-Zag Territoires]

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7. Teixeira: Te Deum

Compositor: O lisboeta António Teixeira (1707-1774) foi um dos mais notáveis compositores portugueses do século XVIII. Fez parte dos jovens promissores a quem D. João V pagou os estudos de aperfeiçoamento em Roma e tirou excelente proveito da sua estadia de 10 anos em Itália, regressando como compositor consumado e assumindo de imediato cargos na Sé de Lisboa. O seu envolvimento na música sacra não o impediu de compor óperas para o teatro de marionetas, sobre libretos de António José da Silva, dito “O Judeu”.

Ocasião: Acção de graças pelo ano de 1734, na Igreja do Loreto, em Lisboa, a 31 de Dezembro (há quem sugira uma estreia dois anos anterior).

Obra: É um monumento em mais do que um sentido: dura 80 minutos e requer oito solistas, cinco coros (de quatro partes cada) e uma orquestra de cordas reforçada por flautas, oboés e trompas. Os colossais meios são usados judiciosamente e impera a variedade, da intrincada densidade polifónica aos solos vocais de virtuosismo a pedir meças à ópera italiana.

[“Te Deum” e “Tibi omnes angeli” do Te Deum de Teixeira, por The Sixteen e The Symphony of Harmony and Invention, com direcção de Harry Christophers. A gravação, realizada originalmente para a Collins Classics, em 1989, é a única desta obra e foi reeditada na Coro, a editora do agrupamento The Sixteen]

8. Berlioz: Te Deum

Compositor: Hector Berlioz (1803-1869) foi o mais relevante compositor do Romantismo francês e influenciou Wagner, Liszt e Strauss. Ao contrário dos outros grandes compositores do seu tempo, não revelou dotes precoces para a música, foi um medíocre executante de piano e recebeu uma instrução musical pouco sólida. Compensou estas insuficiências com uma imaginação ardente e um desapego a regras que fizeram dele um inovador. A sua música sacra é marcada pelo gigantismo e pela espectacularidade.

Ocasião: O compositor almejara que o seu Te Deum fosse tocado na coroação de Napoleão III e, quando esta oportunidade se gorou, que servisse para abrilhantar o casamento do imperador. Teve de contentar-se com um pretexto bem menos nobre: a abertura da Exposição Universal de Paris de 1855. Estreou na Igreja de S. Eustáquio, a 30 de Abril.

Obra: Na estreia, dirigida pelo próprio compositor, este, sempre ávido de monumentalidade, conseguiu recrutar cerca de 900 cantores e instrumentistas. O resultado correspondeu às suas ambições: “Foi colossal, babilónico, ninívico! Nem uma falha, nem uma hesitação!”. Não pode é esperar-se que as modestas colunas dos computadores façam justiça a uma obra “babilónica”, pelo que se recomenda que se busque uma boa gravação ou um concerto ao vivo.

[Te Deum de Berlioz, gravado na Catedral de St. Albans, em Inglaterra, em 1981, por Claudio Abbado, à frente de nove coros (nomeadamente o London Symphony Chorus e o London Philharmonic Choir) e da Orquestra de Jovens da Comunidade Europeia; o registo foi editado pela Deutsche Grammophon e continua a ser uma das versões de referência da obra]

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9. Bruckner: Te Deum

Compositor: O austríaco Anton Bruckner (1824-1896) foi um inspirado compositor de sinfonias e música sacra. Iniciou-se como menino de coro no mosteiro de Sankt Florian, onde viria a ser organista. Aos 40 anos, quando muitos compositores já têm vasta obra, Bruckner ainda se julgava necessitado de aulas de composição – o que, juntamente com as constantes revisões a que submetia as partituras, ajuda a explicar a relativa brevidade do seu catálogo.

Ocasião: Por esta altura, a maior parte da música sacra já não tinha de estar associada a eventos do calendário litúrgico ou comemorações e valia por si mesma. Bruckner terá concebido o Te Deum como uma acção de graças pelo sucesso obtido pela sua Sinfonia n.º 4. Estreou a 10 de Janeiro de 1886 na Musikverein de Viena.

Obra: Bruckner, ainda que se sentisse inseguro sobre a qualidade das suas obras, classificava o Te Deum como “o orgulho da sua vida” e terá dito que se um dia o Criador lhe perguntasse o que fizera ele com o talento que lhe concedera, lhe mostraria o Te Deum.

[Te Deum de Bruckner, na gravação realizada em 1965 pelo Coro da Deutschen Oper de Berlim e pela Filarmónica de Berlim, com direcção de Eugen Jochum, um dos grandes maestros brucknerianos. Foi editada pela Deutsche Grammophon e, meio século depois, continua a estar entre as melhores versões da obra]

10. Pärt: Te Deum

Compositor: O estónio Arvo Pärt (n. 1935) começou por compor no registo usual no Ocidente na década de 1960, com recurso a procedimentos dodecafónicos e seriais, mas quando essas obras foram proibidas pela censura soviética, o compositor remeteu-se a um longo período de silêncio e reflexão, de onde emergiu praticando um minimalismo austero, de atmosfera mística, inspirado na música medieval e com vínculos ao cântico bizantino.

Ocasião: Foi encomendado pela Rádio do Oeste da Alemanha (WDR) e estreado a 19 de Janeiro de 1985, sob a direcção de Dennis Russell Davies.

Obra: Pärt associa o texto do Te Deum a “verdades imutáveis” e à “imensurável serenidade de uma paisagem montanhosa”, o que explica que se trate de uma obra despojada, serena e meditativa, contrastando com a exuberância (e, nalguns casos, o estardalhaço) usual nos Te Deum.

[Excerto do Te Deum pelo Coro de Câmara da Filarmónica Estónia e pela Orquestra de Câmara de Tallinn, sob a direcção de Tönu Kaljuste. Foi este o primeiro registo da obra e foi lançado em 1993 pela ECM]

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