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Música, Cantora, Produtora, Aline Frazão
©Mariana Valle LimaAline Frazão

Aline Frazão: “Este título é uma provocação”

O novo álbum de Aline Frazão, ‘Uma Música Angolana’, começa a desafiar-nos logo no título. Acabámos a perguntar mais pela música Aline, do que pela música que Aline faz.

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Aline Frazão fala de uma pátria imaginária. De um território consolidado por ritmos e expressões musicais aparentadas, mas também por uma história de memórias e lutas partilhadas. É essa a geografia deste seu sexto disco a solo, onde ela própria reconhece o massemba e o kilapanga de Angola, o batuku de Cabo Verde, o soukous do Congo, o afoxé e o maracatu do Brasil como expressões de uma cultura comum.

Aline chamou-lhe Uma Música Angolana, num esforço consciente para deixar a dúvida sobre o sujeito da expressão. A língua portuguesa é muito traiçoeira, e se música é palavra umas vezes usada para nomear uma simples canção, outras para significar toda uma arte, raramente nos serve para nomear a artista inteira.

É um disco luminoso, feito de reencontros e de uma celebração de vida pós-confinamento, e também tem a sua própria geografia de afectos. É oficialmente lançado neste 4 de Março, contando com a participação do angolano Nástio Mosquito, do brasileiro Vítor Santana e da alemã Suzanne Paul no violoncelo. Tem o português João Pires a compor sobre poema da brasileira Brisa Pires, tem Ricardo Ribeiro a compor sobre um poema de Pedro Homem de Melo, tem Aline a reinventar uma velha canção de Paulo Flores. Mas disso pouco se falará aqui. Esta é uma conversa mais sobre a pátria real do que sobre a imaginária, e em que nos focamos mais na música Aline do que na música que Aline compõe.

Comecemos pelo título, até porque a provocação é evidente. Em Uma Música Angolana, o sujeito é a arte ou a artista?
As duas coisas. Na verdade, há um triplo sentido da expressão. E em todos os três sentidos resulta um pouco provocador. Eu como música, assumindo essa como minha profissão. É uma expressão que não se usa no feminino. Normalmente chamam-me cantora, compositora, produtora...

Sempre alguma coisa redutora.
Sim. E eu vejo-me muito como música. Então é uma forma de reivindicar essa palavra e esse sentido na língua portuguesa, que não é utilizado para mulheres que trabalham na música. E neste disco em particular, sinto que esse papel como música é muito assumido. Música como um conceito que engloba todas as funções do trabalho, como compositora, produtora, guitarrista, cantora.

O segundo sentido...
O segundo pode ser uma música angolana como estilo, como categoria de género musical, daquilo que as pessoas imaginam que é a música angolana. Neste caso, imagina... Posso te tratar por tu?

Agradeço-te.
[Riso] Obrigada, que alívio, fica mais fácil. Tenho muito pouco jeito para vocês.

Nós...
Jornalistas, entrevistas, fico sem saber...

Diria que estás a ir lindamente.
Óptimo. Imagino que tenhas ouvido o disco.

Claro.
Então, não é um disco daquilo que as pessoas imaginam sempre que é a música angolana. Há as que imaginam sempre kizomba, kuduro, esses géneros mais urbanos, mais recentes, e as que esperam sempre uma coisa mais tradicional, estilo Bonga ou Waldemar Bastos. Então, é ali uma proposta de música angolana em que eu acredito muito. Acredito em colocar nisto a etiqueta de música angolana apesar de ter influência de muitos países, como o Brasil, o Congo, Cabo Verde. E depois tem o outro sentido de ser uma canção, uma música angolana enquanto canção.

Música, Álbum, Uma Música Angolana, Aline Frazão
©DR

Eu pensei logo em uma música angolana quase como uma balada angolana, um relato, uma crónica...
Sim...crónica é uma boa palavra... não tinha pensado nisso. Eu ainda não falei muito sobre o disco, então é muito fresco na minha cabeça. Mas pode ir por aí também, sim. É um disco com muita história dentro, muita viagem, muitos lugares de Angola.

Vamos então por partes. A provocação da ‘música’, no primeiro sentido, da profissão assumida no feminino, é uma provocação a uma língua que faz distinção de género.
Sim, exactamente. É uma questão muito importante. A língua em que a gente vive molda a forma como pensamos. E no meu caso em particular molda a forma como eu própria me vejo. É aí que as coisas ficam mais sensíveis. Recentemente houve um momento que foi gatilho para pensar essa questão mais a sério, de como a linguagem pode excluir, sobretudo no caso as mulheres e as pessoas que se identificam com o género feminino. Foi a preencher um documento oficial que perguntava a minha profissão. E, claro, eu nesses momentos coloco cantora. Eu própria, como música, me reduzo, salvo seja, que não é pouco ser cantora, mas eu não sou só cantora, não corresponde à verdade, faço muitas outras coisas. Mas eu própria reduzo para simplificar a conversa. Se disser que sou música a conversa não vai acabar ali.

E agora decidiste que a conversa não podia mesmo ficar por aí.
Acho que é importante porque isto é simbólico do lugar das mulheres na música. E à medida que vou falando com outras mulheres músicas, noto que é uma história partilhada, que não é só minha. Há dificuldades e há até oportunidades que se perdem por isso. Lembro-me de no meu segundo álbum, Movimento, irem ter com um dos músicos que tocavam comigo a dizer “fogo, estive a ouvir o álbum da Aline e os arranjos estão incríveis, vocês fizeram um trabalho incrível com ela”. Os arranjos são meus, está escrito nos créditos, mas as pessoas não imaginam que a cantora fez os arranjos. Isso é violentíssimo. Imagina, considerarem que o teu trabalho não foste tu que o fizeste, que escreveste. Portanto sim, este título é uma reivindicação, uma provocação e um desabafo.

Passemos aquela dimensão da música angolana como crónica angolana. Sinto que é um disco atravessado por um certo desencanto...
[Pausa] Tenho vontade de te responder coisas opostas. É impossível não estar desencantado sendo angolano. Principalmente agora que estamos em fase de profunda crise económica depois de um tempo em que Angola tinha dinheiro. Foi ainda ontem, e foi uma oportunidade completamente desperdiçada. Angola é um país onde é fácil uma pessoa se desiludir. Porque tem uma narrativa de nação muito baseada na ideia de que é especial, que um dia se vai cumprir, porque é tão rico e tão interessante e mais não sei quê. E eu faço parte de uma geração que cresceu com essa ideia.

E qual é a resposta oposta?
Depois de viveres um tempo em Angola, o desencanto fica num segundo plano. É como a canção “Luz Foi”, que diz “desisti leitura para encher o bidão, água veio”. Essa questão da realidade prática ser muito mais urgente que pensar o país ou pensar o MPLA, sabes? Tens de resolver questões. Uma ida ao banco é uma manhã perdida. Por isso é que te dizia que me parecem respostas opostas. Por um lado sim, é impossível não estar desencantado com Angola, por outro lado olho para este disco como pós-desencanto. É um outro lugar. O meu lugar já não é de desencanto. É algo de conformado.

Isso soa ainda pior.
Não tem de ser negativo. Há algo de muito útil em ver as coisas de forma realista, sabes? Para realmente alterar a realidade. Entender que não há nada de especial com a nacionalidade angolana, que Angola não é diferente de outros países. Desromantizar as coisas é positivo. Conformar-se com algumas coisas não é necessariamente desistir de tudo.

Este é ano de eleições em Angola...
[Riso] Péssimo estares a perguntar-me isso...

Não quero transformar isto numa entrevista política, mas a conversa veio andando.
Não, sem problema! É só que me estou a dar conta de que provavelmente mais pessoas me vão perguntar isso e a minha opinião hoje é capaz de ser muito diferente do que era há uns anos atrás.

Vamos por aí então. Como era a tua opinião antes?
Lá está, acho que romantizava mais. E acho que essa ideia de desromantização está muito presente neste disco. A música “Luanda” diz isso mesmo: “e eu queria tanto te romantizar”.

Cantas que “metade da cidade é a mais bela varanda de deus, a outra reza para enganar a fome e a morte”.
Exacto. Ouviste mesmo o disco [riso]. É isso. Quem me dera que não houvesse esse lugar negativo para que eu, como poeta, pudesse ainda te romantizar e te idolatrar e continuar a achar-te uma musa perfeita que me faz fazer canções...

Mas ainda faz, como se demonstra.
Faz, claro, mas é isso, estou noutro lugar. Não quero romantizar mais o que não deve ser romantizado e encaro com um certo realismo o difícil que vai ser mudar aquele país. O difícil que vai ser as eleições terem um resultado diferente do que sempre foi. Quando estava José Eduardo dos Santos no poder, havia outra energia, uma mudança iminente que podia acontecer. A partir do momento em que ele sai, dá-se um boost, uma injecção de esperança de que as coisas iam mudar muito. Hoje em dia não temos muito a quenos agarrar. A possibilidade de uma alternativa de oposição é muito baixa, até pela saúde democrática de Angola. Então há um grande vazio de esperança, de um caminho concreto para o país. Porque antes havia dinheiro, hoje não há. O cenário é ainda mais desolador e torna-se difícil imaginar mudanças políticas significativas para os próximos dez anos. A gente não cruza os braços, obviamente. Lançamos discos, fazemos o que podemos.

A pandemia acrescentou crise à crise.
Sim, sim. Usaste bem as palavras, já existia crise, já havia um sistema de saúde colapsado, já havia crise económica, mas agora tudo isso está muito mais complicado. Há mais fome, isso é muito visível. Na cultura então, foi uma razia muito grande. Há muito poucas condições para se ser músico em Angola.

Ou música.
Pior ainda [riso].

Música, Cantora, Produtora, Aline Frazão
©Mariana Valle Lima

E apesar de tudo isto, este é um disco com uma grande luminosidade.
Fico feliz que tenhas percebido isso.

Está no próprio texto sobre o disco, a ideia de reencontro, de libertação.
Este disco só é isso, na verdade. Tudo o resto é o antes. A única coisa que me apetece é fazer esta música. Tenho uma intuição de que a música, o cinema, a literatura, as artes podem realmente dar um sentido a tudo isto. Digo isto não tanto da pessoa que cria, mas de quem consome. A arte, a música, salva-nos um pouco. Em plena guerra civil, Angola inventou o kuduro, uma dança super-excêntrica, uma música de festa. É a humanidade. Em momentos difíceis uma canção pode ser a melhor resposta possível.

Esta música angolana mistura ritmos de Cabo Verde, Congo, Brasil...
Mas isso faz todo o sentido a nível histórico. Nasci em Luanda em 1988, vivi e cresci lá até aos 18 anos, sei qual é a música que tocava lá, que era música do Brasil, de Cabo Verde, do Congo, de Cuba, música pop, romântica, brega, um mishmash de coisas. Depois é olhar para as gerações anteriores de músicos angolanos, André Mingas, Rui Mingas, Paulo Flores, Teta Lando, Filipe Mukenga... mais atrás ainda, Angola Ritmos, anos 60... quais eram as influências deles? Era o Brasil, depois a música latina, o merengue... essas influências de outros lugares fazem parte há muito da música angolana. Não sou eu que estou a fazer isso agora. E eu quando toco afoxé ou maracatu, não sinto que estou a tocar um ritmo estrangeiro.

Porque partiram de África...?
Claro. Provavelmente levados por gente que saiu do Congo e de Angola há centenas de anos. Há aqui uma circularidade da história, da música, que me parece fascinante. Que me parece importante de reflectir. E não é só a nível musical. É que as lutas desses povos negros do mundo continuam a ser parecidas em todas as partes.

É um tema muito actual.
É verdade. Olha para mim. Tenho um avô cabo-verdiano, tenho uma avó que nasceu no Brasil, tenho uma avó que nasceu no Norte de Angola, tenho realmente origem de vários lugares, incluindo Portugal. Isto não é por acaso, eu não sou uma excepção, eu sou produto de uma história que existe, uma história que passa pela colonização. Eu própria como pessoa mestiça, privilegiada em Angola, não sou um acaso. Isso acontece com a música também. A música acaba por ser uma língua subliminar que vai unindo esses episódios da história. Há aqui uma pátria imaginária. Que fala essa língua de ritmos, mas que fala também de uma história partilhada. E acho que isso dialoga muito com o presente. Com o facto, por exemplo, de me questionar porque é que não sou música.

Teatro Maria Matos. Qua, 20 de Abril. 21.00. 12,5€.

Mais conversa afinada

  • Música

Com 15 anos, Mallu Magalhães çomeçou a carreira com a pressão de ser a grande revelação da música brasileira. Entre o álbum Pitanga (2011) e Vem (2017), mudou-se para Lisboa, distanciou-se da folk e das fixações anglo-saxónicas, provou o sabor da saudade e redescobriu o colorido calor do samba e da bossa nova, ganhando mais confiança na sua poesia. Quase 15 anos depois de entrar no mundo da música, segue em elegante evolução e apresenta Esperança, um disco escapista.

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Opus musical, literário e cinematográfico, 20.000 Éguas Submarinas é um mergulho no imaginário imenso de Rui Reininho, nas suas inquietações e deslumbramentos – e nas suas lutas. É um álbum como nenhum outro em que o tenhamos ouvido. Sentámos com o cantor numa mesa de Lisboa para falar do mar, de vibrações, viagens ao Nepal e, claro, também dos GNR. Uma conversa aberta em que até se desvenda a origem copiada de uns dos versos memoráveis de “Pronúncia do Norte”.

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