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António Zambujo
©Arlindo Camacho António Zambujo

António Zambujo: as canções de ‘Voz e Violão’ apresentadas na primeira pessoa

Uma por uma, as 13 canções do novo álbum explicadas pelo próprio.

Por João Pedro Oliveira
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António Zambujo, Voz e Violão é editado hoje, 23 de Abril. É o décimo álbum da carreira do músico que diz de si mesmo ser uma galdéria, que gosta de cantar e fazer música com meio mundo, mas que no fim escolhe sempre regressar ao essencial, numa solidão de seis cordas. O disco reparte-se quase irmãmente entre canções originais e versões que nos vão falando das principais influências de Zambujo: o fado, o cante, a música brasileira, as canções da América hispânica. Umas e outras explicadas aqui pelo próprio, durante uma conversa com a Time Out em que antecipa várias novidades e que pode ler aqui.

1. “Lote B”

Letra: Pedro da Silva Martins
Música: Luís José Martins / Pedro da Silva Martins

“E só com uma voz e uma guitarra eu fiz parar a rua inteira”.

A canção escolhida para single de lançamento tem assinatura dos irmãos Pedro da Silva Martins e Luís José Martins e a frase forte do refrão podia bem ser uma espécie de biografia de António Zambujo em 60 caracteres.

É mesmo isso. E por isso é que a escolhi para abrir o disco, porque resume o disco em si… e sim, porque acaba por resumir toda a minha abordagem à música. É um bocadinho a história da minha vida.

A assinatura de Pedro da Silva Martins aparece duas vezes neste António Zambujo Voz e Violão, somando a pelo menos cinco outras canções nos anteriores álbuns de estúdio (duas em Quinto, duas em Rua da Emenda, uma em Do Avesso). E há novidades prometidas nesta colaboração com os homens dos Deolinda, como Zambujo revela em entrevista à Time Out.

2. “Visita de estudo”

Letra: Maria do Rosário Pedreira
Música: António Zambujo

“Mas foi só dentro do Expresso / Já de volta ao Alentejo / Que cometemos o excesso / De dar o primeiro beijo”

A par de João Monge, Maria do Rosário Pedreira tem sido a grande letrista das canções originais de Zambujo. Em “Visita de Estudo”, investe meia dúzia de quadras certeiras a contar a história de um gaiato alentejano, que por altura da Preparatória veio a Lisboa numa visita de estudo e regressou a casa com o seu primeiro beijo.

Tenho as portas abertas a muitas pessoas que me desafiam enquanto compositor e enquanto intérprete, mas o facto de trabalhar e fazer muitas parcerias com as mesmas pessoas permite que esse tipo de coisa aconteça. É o caso da [Maria] Rosário [Pedreira] e do [João] Monge, principalmente. Muitas vezes acontece eu fazer uma melodia, mandar para eles, e eles mandarem uma letra de volta. Falamos sobre o que é que eu imagino cantar por cima daquela música e eles escrevem-me. Nada disto é precisamente autobiográfico, mas é sempre escrito a pensar em mim. Nas histórias que partilhamos em tertúlia, provavelmente vão ficando com aquilo na cabeça. Esta história da “Viagem de Estudo” não anda longe da verdade, só não teve o postalzinho no final, de que a música fala.

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3. “Bricolage”

Letra: Pedro da Silva Martins
Música: Luís José Martins / Pedro da Silva Martins

“Começaste a chorar depois de rir / Fiz um belo jantar e vais dormir / Ainda bem porque assim eu leio as instruções que não li / Ainda está por nascer alguém que supere o meu amor por ti.”

A criança está quase a nascer e a mãe com as hormonas aos saltos. O pai meteu os pés pelas mãos a montar o novo berço e agora vê-se aflito para aplacar os humores da grávida.

O giro das músicas é a história, o que contas é o mais importante. E há aqui uma história muito divertida. A troca de música entre mim e o Pedro é uma coisa sempre aberta. Estão sempre a aparecer coisas novas e tenho várias músicas dele lá guardadas. Esta era uma delas. Quando as oiço digo-lhe logo “olha, quero gravar esta”. Às vezes manda-me outras que eu também digo “podes despachá-la que não a vou cantar” (riso). O “Bricolage” era uma das que estava lá guardada, à espera.

4. “Pião de Corda”

Letra e música: Miguel Araújo

“Este mundo é um pião / Pendurado por um fio / Embalado pela mão / De um deus tonto e arredio”

É uma das grandes cumplicidade de Zambujo. Além de um disco conjunto e um recorde de 28 noites nos coliseus, mantêm uma conta corrente de novas canções. E há até quem os confunda na rua.

Há muito tempo que eu e o Miguel falamos muito, estamos muito juntos e tocamos muito também. Temos uma relação muito próxima. Ele às vezes quando faz músicas e sente que tem ali um nó difícil de desatar, manda para mim. “A Romaria de Santa Eufémia” foi assim; o “Dia da Procissão”, que lançámos há pouco tempo, também, ele não conseguia fazer o refrão e mandou para mim. Vamos andando assim, vamos nos complementando. Quanto a confundirem-nos na rua, é engraçado, porque há malta que até diz que somos parecidos. Não percebo, acho que sou muito mais bonito que ele. Mas há quem venha ter comigo na rua a dizer: “eh pá, gosto muito das suas músicas, mas aquela d’ ‘Os Maridos das Outras não consigo perceber”. E eu já nem me dou ao trabalho de explicar.

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5. “O Sol de azar”

Letra e música: Agir

“Estou com um nó na garganta / Mas que não é da gravata / É o telhado que já está a dar de si”

Foi uma surpresa. O Agir está a mudar um bocadinho o conceito da música dele, a tentar fazer uma coisa mais acústica. Quando eu estava já em gravações, ele ligou-me e disse: “tenho aqui uma música que, de cada vez que a toco, só te imagino a ti a cantá-la”. Eu respondi: pá, manda, calha bem que eu estou em gravação, se gostar e funcionar meto-a já no disco.” E assim foi. Ele mandou e eu gostei muito. Achei muita piada e fiquei muito surpreendido com a escrita, completamente diferente das outras coisas que eu já conhecia dele.

6. “Sinais”

Letra: João Monge
Música: António Zambujo

“Já não dobro um tango numa pista / Mas se dançar ainda chego ao céu”

Oh pá, é o João Monge! O Monge tem essa capacidade de pôr nos versos aquilo que todos pensamos de uma maneira bonita. As letras dele são muito cinematográficas para mim, na minha cabeça vejo sempre um filme. E então estamos com esse projecto, já temos umas quantas músicas feitas… este “Sinais” foi tirado dessa pasta. Temos a pretensão de fazer em breve um disco, todo com músicas minhas e letras dele, sempre no papel de uma mulher, a falar de coisas que continuam a acontecer hoje em dia, com a malta a assobiar para o lado. O assédio sexual no trabalho, a violência doméstica, a escravidão da imagem de que se fala neste texto. Hoje em dia, se és mulher tens de aparecer igual àquela gaja que aparece na revista cheia de filtros em cima. Mesmo sabendo que estás a ser enganada, acabas por tentar alcançar aquilo, uma coisa totalmente ridícula. Quer em relação à mulher, quer ao homem, acaba por deixar de haver singularidade, é quase tudo igual, tudo em série, as mulheres têm de parecer todas assim… quando na verdade o essencial é outra coisa, é o que se sente, independentemente da aparência, da idade...

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7. “Mona Lisa”

Letra: Ray Evans
Música: Jay Livingston

“Is it only 'cause you're lonely they have blamed you / For that Mona Lisa strangeness in your smile?”

A estreia a cantar em inglês com um standard.

O “Mona Lisa” vem da tournée do Do Avesso. Eu tinha lá o João Moreira e o Filipe Melo comigo, e nós nos ensaios de som tocávamos sempre standards de jazz. Ou melhor: eles tocavam e eu cantava. Pá, e eu adorava aquilo! O “Mona Lisa” vem um bocadinho por isso e por causa daqueles discos do Nat King Cole em espanhol, que eu adoro – ele faz a versão definitiva do “Mona Lisa”. Então, eu nessas brincadeiras nos ensaios ia sacando a harmonia que ainda não tinha, ia vendo com eles, até que chegou aquela versão meio ritmada que gravei no disco. Nunca tinha cantado em inglês. Gosto muito mais das línguas latinas, acho-as muito mais musicais. Mas depois lá em casa, no estúdio, com os microfones ligados, comecei a tocar aquilo. O Naná [Francisco Nunes, produtor] perguntou o que era e eu respondi que era uma brincadeira que costumava fazer nos ensaios. E ele disse que achava incrível e que eu devia gravar. Foi assim.

8. “Tu Me Acostumbraste”

Letra e música: Frank Dominguez

“Yo no concebia como se quería / En tu mundo raro y por ti aprendí / Por eso me pregunto al ver que me olvidaste / Por que no me enseñaste cómo se vive sin ti”

Esta nasce das minhas procuras, dessa minha quase obsessão quando descubro um determinado artista ou género. Aconteceu assim com o João Gilberto, como aconteceu com o Chet Baker ou o Tom Waits: tenho de ouvir tudo, ouvir muitas vezes, conhecer tudo. E aconteceu-me isso com a música latino-americana hispânica. Aquilo tem ali uma cena muito especial com que me identifico muito. Não acredito em outras vidas, mas se tivesse tido outra antes desta, de certeza que tinha andado para ali. Depois há uma versão desta música que é da Chavela Vargas, que até foi da banda sonora do Babel, uma versão com a voz dela já velha, cheia de cigarros e de mescal. Impressionante. Além disso é uma música lindíssima. Então é assim que vão surgindo as ideias.

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9. “Rosinha dos Limões”

Letra e música: Artur Ribeiro

“(...) qualquer dia por graça / Vou comprar limões à praça e depois, caso com ela.”

O regresso aos fados tradicionais.

Essa é por causa da obra do Max. Estou sempre a falar nele e sinto uma pena muito grande de as pessoas associarem o Max basicamente à “Mula da Cooperativa” e depois não conhecerem mais nada. Ou melhor, conhecem, porque toda a gente conhece a “Rosinha dos Limões”, mas pouca gente a associa ao Max, que foi dos primeiros a cantá-la. É como o “Nem Às Paredes Confesso”, que também já gravei e que ninguém associa ao Max. A verdade é que ele era um compositor e um intérprete impressionante e pouca gente o conhece. E então é um pouco para recuperar coisas antigas e relembrar esta malta que fez muito pela música.

10. “Como 2 e 2”

Letra e música: Caetano Veloso

“Digo, não digo, não ligo, deixo no ar / Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar”

É a primeira vez que grava um tema de Caetano Veloso, apesar de ser seu fã confesso. A admiração é recíproca. Caetano diz que quando ouviu o português pela primeira vez, pensou em João Gilberto. Zambujo sorri.

“Narciso só acha feio o que não é espelho, como diz o próprio. A comparação obviamente para mim não faz sentido, João Gilberto é outra coisa. Mas eles acabam por rever em mim alguma coisa do João por razões óbvias, porque é uma das minhas maiores influências. Mesmo sem querer acabas por ser um reflexo daquilo que ouves, uns mais que outros. Apesar de ser um grande fã do Tom Waits não me vais ouvir com uma voz cavernosa como a dele, porque infelizmente não a tenho. Apesar de fumar cada vez mais (riso).

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11. “Escutando o universo”

Letra e música: Diogo Zambujo

“De vida perdida / Inundada de questões / Pedia desejos / Às luzes dos aviões”.

É a estreia do filho, Diogo Zambujo, em disco. Como compositor, letrista e intérprete que começamos por confundir com o pai. Não estamos sós na confusão: As duas avós, e a própria mãe, quando ele mostrou a música já gravada, no fim perguntaram: “mas quando é que tu entras?”, pensando que era sempre eu a cantar.

Mas vamos à canção.

Pá, isto foi a melhor surpresa de todas! O meu filho sempre tocou, sempre ouviu muita música. Era um tipo que ouvia muitas coisas que eu sugeria, mas nos últimos tempos tem sido mais o inverso, ele sempre a mostrar-me coisas novas. Mas só no confinamento é que ele me mostrou as músicas originais dele. É um tipo super reservado e tímido. Uma noite estávamos a beber uma cerveja, ele pegou na guitarra e disse-me “vê lá o que achas destas músicas”. Eram duas. E esta inicialmente eu pensei logo em gravá-la, sem lhe propor nada ainda. Mais tarde nessas tertúlias com malta amiga desafiei-o para mostrar as canções a outras pessoas. À medida que ele ia cantando fui achando que se calhar fazia sentido se ele participasse no disco comigo. Lá arranjei coragem e felizmente consegui convencê-lo. Tocou e cantou pela primeira vez num disco.

12. “Pelo toque da viola”

Popular

“Pelo toque da viola / Já sei as horas que são / Inda não é meia-noite / Já te dei um bom serão”

Uma moda tradicional alentejana que Zambujo torce e transforma numa balada íntima, quase uma canção de embalar.

Esta é daquelas que conheço desde que me conheço… E na altura em que estava a gravar ela andava por aí, comigo. Acho que quando pegas numa música precisas de lhe acrescentar alguma coisa tua, de tocá-la como a sentes, senão não vale a pena. Na minha cabeça aquela moda faz sentido cantar assim. Uma coisa meio dolente, não é? Ritmicamente a malta costuma cantar aquilo mais acelerado. Assim parece uma canção de embalar.

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13. “Adeus Parceiros das Farras (Partir É Morrer um Pouco)”

Letra: Mascarenhas Barreto
Música: António dos Santos

“Partir é morrer um pouco / A alma de certo jeito / A expirar dentro de nós”

É uma música que eu sempre cantei desde o princípio, quando ainda não tinha repertório próprio sequer. Quando havia aquelas noites de fados… É também de um cantor que muito pouca gente conhece, o António dos Santos. Um cantor e compositor incrível, que só tem um disco. Também é só voz e violão, ele a cantar e o Martinho da Assunção a tocar. À medida que ia cantando a canção ia desenvolvendo ideias que tinha, coisas que eu imaginava para a música. Resolvi gravá-la para fim de disco, como uma despedida, um até breve.

Conversa afinada

António Zambujo
©Arlindo Camacho

António Zambujo: as canções de ‘Voz e Violão’ apresentadas na primeira pessoa

Música

António Zambujo, Voz e Violão é editado hoje, 23 de Abril. É o décimo álbum da carreira do músico que diz de si mesmo ser uma galdéria, que gosta de cantar e fazer música com meio mundo, mas que no fim escolhe sempre regressar ao essencial, numa solidão de seis cordas. O disco reparte-se quase irmãmente entre canções originais e versões que nos vão falando das principais influências de Zambujo: o fado, o cante, a música brasileira, as canções da América hispânica. Umas e outras explicadas aqui pelo próprio, durante uma conversa com a Time Out em que antecipa várias novidades.

Minta & The Brook Trout
Fotografia: Vera Marmelo

Francisca Cortesão: “Não gosto de chafurdar na tristeza”

Música

Há um manto de tristeza na música de Francisca Cortesão. Um tumulto interior mascarado de uma sensação de calma, mas também um véu de esperança que a leva a tentar fazer as pazes consigo própria. “Eu projecto isso naturalmente, mas se calhar não sou assim tão calma", conta. “Acho que sempre dei essa impressão, mesmo quando não é propriamente isso que está a acontecer. Não sou muito dada a explosões, mas acho que às vezes me faz falta.” O novo disco, Demolition Derby, divide-se entre observações sobre o mundo e ruminações internas.

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© Lois Gray

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© DR

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