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Bad Religion: “As pessoas estão assustadas e isso leva-as a agir mal”

Entrevista a Jay Bentley, dos Bad Religion. Os punks californianos acabam de lançar "Age of Unreason" e vêm a Lisboa

Por Luís Filipe Rodrigues
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Os Bad Religion são uma instituição do punk rock americano. Estão juntos desde 1980 – apesar de o vocalista Greg Graffin ser o único membro que tocou em todos os discos – e mantiveram-se quase sempre fiéis aos seus ideais. Deram a volta ao mundo inúmeras vezes, mas nunca tinham tocado em Lisboa. Até agora. Na quarta-feira apresentam o álbum Age of Unreason ao vivo na Altice Arena, numa noite partilhada com Mad Caddies e Less Than Jake, dois grupos de ska-punk americanos no activo desde a década de 90.

Aproveitámos para falar com o baixista e co-fundador Jay Bentley, dos Bad Religion, sobre o concerto, o novo disco e os seus quase 40 anos de carreira. Mas acabámos por falar sobretudo sobre Trump e o reaparecimento do fascismo nesta era da insensatez.

Os Bad Religion vão tocar em Lisboa pela primeira vez na quarta-feira. Porque é que demoraram tanto tempo a vir cá?
Não sei. Temos um calendário muito apertado e uma vida para além da banda. Não dá para ir a todos os sítios onde gostávamos de ir. Mas ultimamente temos andado a olhar para os lugares onde nunca tínhamos ido, ou onde não vamos há muito tempo, e tentado ir lá.

E têm um disco novo para apresentar, o Age of Unreason. Não lançavam um álbum há seis anos, e acho que nunca tinham estado tanto tempo sem editar. O que se passou?
Andámos a tocar ao vivo. E depois da edição do True North [2013] estávamos muito contentes com o que tínhamos feito até à data, com o nosso corpo de trabalho. Não tínhamos a obrigação contratual de fazer um disco novo, e demos por nós a pensar que aquele podia ser o nosso último álbum e que isso não seria um problema para ninguém. Estávamos contentes por andar apenas em digressão. Só há dois anos é que decidimos que afinal queríamos fazer mais música.

Porque é que acharam que o True North ia ser o vosso último disco?
Porque era muito bom. Estávamos mesmo contentes com o que tínhamos conseguido. E, na altura, achámos que mais um disco não ia adicionar nada de novo à nossa obra. Que já tínhamos suficientes canções.

Fazes ideia de quantas canções vocês gravaram ao longo destas quatro décadas?
Quase 400.

Porra. Como é que continuam a encontrar coisas novas para cantar?
Porque há sempre algo de novo a acontecer. Nos últimos anos, começámos a assistir a coisas sobre as quais só tínhamos lido nos livros de história. E acho que foi isso que fez o Greg [Graffin, o cantor e autor da maior parte das canções do grupo] voltar a escrever. O que se está a passar a nível global pode não ser uma novidade para a humanidade, mas é uma novidade para nós.

Estás a falar do quê? Do Trump, do Brexit, do ressurgimento dos fascismos?
Sim, em parte. Não acho que seja apenas isto ou aquilo. Acho que as pessoas estão assustadas e isso leva-as a agir mal. Com hostilidade e tomando decisões que vão contra os seus interesses. Parece-me uma reacção muito… humana.

Ou seja, o disco não é sobre o Trump, por exemplo, mas sobre aquilo que o trouxe ao poder.
Acho que sim. Tens razão. O Trump enquanto ideia, e aquilo que ele diz, apela a sentimentos primários. Fala para pessoas que sentem que foram deixadas para trás. Que foram ultrapassadas pela tecnologia, que sentem a sua prosperidade financeira ameaçada e, nalguns casos, até que o futuro não é aquilo que lhes tinha sido prometido.

Alguma vez dás por ti a pensar no que podemos fazer para chegar a essas pessoas? Para termos um diálogo mais construtivo com elas e sugerir-lhes outro caminho?
Penso muito nisso. Se calhar temos de aceitar que as pessoas vão continuar a ter medo daquilo que não compreendem e que não estão abertas ao diálogo. O problema é que toda a gente quer ter razão, ninguém quer estar errado. Encaramos o discurso nesses termos, e não o devíamos fazer. Devíamos aceitar os pontos de vistas dos outros, em vez de tentarmos provar que temos razão. Mas estamos muito longe disso.

Não achas que estás a ser muito idealista?
Talvez.

Há ideias e posições que estão erradas, que são nocivas. Se simplesmente aceitarmos o fascismo isso só lhe vai dar mais força. Vai continuar a crescer.
Mas não é isso que eu estou a dizer. E se queres mesmo saber a minha opinião, acho que deves esmurrar um nazi sempre que puderes. Eu nem sequer falo com um nazi.

Era aí que queria chegar. Há pessoas...
Com quem não dá para dialogar. Não vale a pena.

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