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Dez bandas indie americanas dos anos 80

Os nomes fundamentais do indie rock do início dos anos 80, quando o género começou a fervilhar nos EUA

Por José Carlos Fernandes
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Houve quem nunca conseguisse – ou quisesse – ultrapassar o estatuto de “banda de culto”, conhecida apenas de uma pequena hoste de fãs, e houve outros que foram ascendendo no firmamento e passaram a encher estádios. O público “não-especializado” provavelmente não terá ouvido falar de Tuxedomoon ou de Hüsker Dü, mas não há quem não tenha trauteado canções de R.E.M. e Pixies, e Sonic Youth e Yo La Tengo continuaram a fazer excelentes discos muito para lá dos anos 80. Também rvale a pena recordar Wall of Voodoo, Violent Femmes, Throwing Muses e American Music Club.

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Dez bandas indie americanas dos anos 80

Wall of Voodoo

Origem: Los Angeles, Califórnia
Ano: 1977

O que se obtém quando se misturam bandas sonoras para films noirs, punk e sintetizadores New Wave? Wall of Voodoo! Stan Ridgway, o vocalista e teclista, iniciou carreira fundando a Acme Soundtracks, uma empresa vocacionada para a produção de bandas sonoras, cujo escritório, em Hollywood, era fronteiro ao clube punk The Masque, pelo que não é de estranhar que tenha sido a uma banda punk angelina, The Skulls, que foi buscar os seus músicos.

Após um EP homónimo, em 1980, veio o álbum Dark Continent (1981), mas a banda só ganharia atenção com o segundo álbum, Call of the West (1982), muito por “culpa” da canção “Mexican Radio”, que foi o único êxito da banda – chegou ao lugar 58 do top americano. A sonoridade dos Wall of Voodoo era dominada por sintetizadores, caixas de ritmos e percussão electrónica, mas a voz carismática de Ridgway (e a sua harmónica) conferiam-lhe um colorido, rugosidade e dramatismo pouco frequente na anódina synth pop da época. Ridgway saiu da banda em 1983 (para o que seria uma frutífera carreira em nome próprio), mas o guitarrista Marc Moreland e o teclista Chas T. Grey recrutaram novos elementos e prosseguiram sob o nome de Wall of Voodoo, sem gerar nada de relevante.

[“Mexican Radio”, do álbum Call of the West]

Tuxedomoon

Origem: São Francisco, Califórnia
Ano: 1977

Os Tuxedomoon mesclavam, como os Wall of Voodoo, influências de electrónica e punk, mas a sua “receita” incluía também música de câmara e minimalismo e tinha uma natureza lúgubre, ascética e despojada, nos antípodas dos clichés da Califórnia soalheira, florida e psicadélica das Flower Children. Na verdade, os Tuxedomoon eram então a mais “europeia” das bandas americanas e a sua sonoridade tinha mais a ver com Berlim do que com São Francisco.

Após os EPs No Tears (1978) e Scream With a View (1980), veio o álbum Half-Mute (1980), após o qual a banda se mudou para Nova Iorque, cujo público era mais afim da sua “corrente” – porém, foi na Europa que (sem surpresa) os Tuxedomoon encontraram melhor acolhimento, pelo que acabaram por radicar-se em Bruxelas. A banda teve actividade ininterrupta até ao início dos anos 90, lançando mais quatro álbuns bem recebidos pela crítica – Desire (1981), Holy Wars (1985), Ship of Fools (1986) e You (1987) –, mas com escassa visibilidade. Desde então têm tido existência intermitente, com numerosas mudanças de formação, restando Blaine L. Reininger e Steven Brown como únicos membros da formação original.

[“What Use?”, do álbum Half-Mute]
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Hüsker Dü

Origem: Saint Paul, Minnesota
Ano: 1979

Bob Mould (voz e guitarra), Greg Norton (voz e baixo) e Grant Hart (voz e bateria) começaram por estar unidos pelo apreço aos Ramones o que se reflectiu no punk hardcore selvagem e áspero que pode ser ouvido no seu 1.º álbum, registado ao vivo, Land Speed Record (1982).

A fúria foi esbatendo-se e a melodia foi ganhando primazia, o que não significa que a banda estivesse a fazer concessões à indústria musical, pois sempre operou fora das regras. Disso dá testemunho Zen Arcade (1984), um álbum duplo conceptual (algo completamente avesso aos padrões do hardcore) que foi gravado em apenas 45 horas e pelo módico custo de 3.200 dólares. Mas a banda não estava satisfeita com a forma de operar da editora independente SST e após o 4.º álbum de estúdio, Flip Your Wig (1985), que já entra no domínio da power pop, os Hüsker Dü assinaram contrato com a major Warner Bros., para a qual gravaram os álbuns Candy Apple Grey (1986) e Warehouse: Songs and Stories (1987).

A banda dissolveu-se em 1989 e Bob Mould fundou os Sugar, cuja sonoridade pode ser vista como uma continuação e refinamento da power pop da fase final dos Hüsker Dü, e os seus álbuns a solo mais recentes retomam, com felicidade, a exploração deste território.

[“Flip Your Wig”, do álbum homónimo]

R.E.M.

Origem: Athens, Georgia
Ano: 1980

Se as letras das canções dos R.E.M. são, maioritariamente, crípticas, também não se espere encontrar um significado profundo no nome da banda, que resultou de uma escolha ao acaso num dicionário (são as iniciais de “rapid eye movement”, uma das fases do sono).

Michael Stipe, Peter Buck, Mike Mills e Bill Berry estrearam-se com o single “Radio Free Europe”, em 1981, seguido pelo EP Chronic Town (1982) e pelo álbum Murmur (1983). Apesar do apreço dos seus membros pelo punk, a sonoridade da banda remete para a sonoridade rendilhada e cristalina da jangle pop dos anos 60, e em particular para The Byrds – facto a que não é estranha a predilecção de Buck pelas mesmas guitarras Rickenbacker usadas por Roger McGuinn.

A Murmur seguiram-se quatro outras obras-primas – Reckoning (1984), Fables of the Reconstruction (1985), Lifes Rich Pageant (1986) e Document (1987) – e, pela altura do 5.º álbum, a fama dos R.E.M. começou a extravasar o mundo do “college rock” e a banda trocou a editora independente I.R.S. pela major Warner.

A mudança de editora coincidiu com uma aproximação ao mainstream e a uma toada mais descontraída, que lhes granjeou novos públicos. Apesar de o sombrio Automatic for the People (1992) ter mostrado que os R.E.M. ainda eram capazes de discos geniais, a carreira na Warner foi genericamente marcada por um lento declínio – até à dissolução, em 2011.

[“Talk About the Passion”, do álbum Murmur]
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Violent Femmes

Origem: Milwaukee, Wisconsin
Ano: 1980

O punk costuma estar associado a subúrbios lúgubres de cidades industriais decadentes, mas também pode brotar entre galinhas e alfaias agrícolas. Gordon Gano (voz e guitarra), Brian Ritchie (baixo) e Victor Del Lorenzo (bateria) criaram uma original fusão entre a energia adolescente e nervosa do punk e uma sonoridade acústica, crua e terrosa, com raízes na folk e na country.

A sua punk-folk teve a fortuna de encontrar público logo no 1.º álbum, homónimo, de 1983, cujas canções tinham sido escritas por Gano quando ainda andava na escola secundária – estima-se que tenha vendido um total de três milhões de exemplares até à data. Apesar de as canções do 2.º álbum, Hallowed Ground (1984), provirem também da adolescência de Gano, o álbum tem um pendor cristão que a maior parte dos fãs interpretou como sendo irónico, embora Gano estivesse a ser sincero (para algum desconforto dos seus dois parceiros, que eram ateus). O 3.º álbum, The Blind Leading the Naked (1986) foi uma abrupta e não muito feliz mudança de rota: sob a orientação do produtor Jerry Harrison (teclista dos Talking Heads), a banda descartou o registo descarnado e acústico em favor de um som mais convencional e polido. O grupo passou por hiatos, mudanças de formação e processos judiciais (de Ritchie contra Gano) e dissolveu-se em 2009, mas a verdade é que não voltara a fazer nada à altura dos dois primeiros discos. Regressou à actividade em 2013.

[“Country Death Song”, do álbum Hallowed Ground]

Sonic Youth

Origem: Nova Iorque
Ano: 1981

Poucas bandas de renome e com uma carreira longa conseguiram ter um percurso tão imaculado como os Sonic Youth – numa época em que “indie” e “alternativo” são etiquetas promocionais e selos de garantia de “rebeldia” colados em tantos projectos de sabor requentados e propósitos manifestamente comerciais, vale a pena pôr os olhos numa banda que, em 30 anos de carreira nunca fez concessões.

Para este irrepreensível percurso ajudou que formação se tenha mantido basicamente a mesma: Thurston Moore (voz e guitarra), Lee Ranaldo (guitarra) e Kim Gordon (voz e baixo) estiveram juntos praticamente desde o princípio e, após vários bateristas efémeros, Steve Shelley entrou em 1985 como membro definitivo. A sonoridade agreste e caótica dos primeiros álbuns – Confusion Is Sex (1983), Bad Moon Rising (1985) e EVOL (1986) – foi refinando-se, mas sem perder arestas e produziu obras-primas como Sister (1987) e Daydream Nation (1988).

O contrato com a major Geffen, em 1990, aproximou a banda do formato mais tradicional de canção – em Goo (1990) e Dirty (1992) – mas sem prescindir da feroz serralharia de guitarras. Regressaram a uma via mais exploratória e noisy com Experimental Jet Set, Trash and No Star (1994) e despediram-se, ainda em plena forma, com The Eternal (2009).

[“Kool Thing”, do álbum Goo]
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Throwing Muses

Origem: Boston, Massachusetts
Ano: 1983

A bem do rigor, deverá dizer-se que as Throwing Muses nasceram em Newport, Rhode Island, quando Kristin Hersh e a sua meia-irmã Tanya Donelly (vozes e guitarras), então ainda na escola secundária, decidiram formar uma banda. Porém, esta só ganhou solidez quando se lhes juntaram David Narcizo (bateria), em 1983, e Leslie Langston (baixo), em 1984, altura em que a banda se mudou para Boston.

Dois anos depois surgia o 1.º álbum, homónimo, na 4AD, tendo sido uma das primeiras bandas americanas no catálogo da editora, até aí dominantemente britânico. Foi seguido em 1987 por dois EPs, Chains Changed e Fat Skier, e, em 1988, pelo álbum House Tornado, que, embora com bastos motivos de interesse não se mostraram capazes de reproduzir a intensidade e frescura do magistral disco de estreia. Hunkpapa (1989) e The Real Ramona (1991) também não, e a saída de Donelly em 1991, para formar as Belly, roubou a banda de uma voz criativa – a que Hersh não dava espaço para exprimir-se. As Throwing Muses dissolveram-se em 1997 – até porque Hersh passou a ter, desde 1994, uma preenchida carreira a solo – e reagruparam-se em 2003.

[“Call Me”, do álbum Throwing Muses]

American Music Club

Origem: São Francisco, Califórnia
Ano: 1983

Martk Eitzel (n. 1959) fundou a sua primeira banda, The Cowboys, quando tinha 19 anos e vivia no Ohio. A banda seguinte foram The Naked Skinnies, que, como a anterior, perfilhava a estética punk, teve vida curta e deixou como único vestígio um single. Em São Francisco, após a dissolução de The Naked Skinnies, fundou os American Music Club, que se estrearam em disco dois anos depois com The Restless Stranger, que Eitzel viria depois a renegar – o 1.º álbum “oficial” é, pois, Engine (1987). Os American Music Club estão distantes do frenesim punk, cultivando, na maior parte das canções, tempos lentos (o que levou a que por vezes, fossem catalogados no slow core) e uma mundividência introspectiva e melancólica (ou até mesmo trágica).

Os American Music Club passaram por numerosas mudanças de formação, sendo Eitzel o único elemento constante, e dissolveram-se em 1994, com Eitzel a dar início a uma carreira em nome próprio que se mantém até aos nossos dias (e que incluiu uma reactivação dos American Music Club entre 2004 e 2010). Sob um nome ou outro, Eitzel nunca ganhou notoriedade, apesar de ser um dos maiores songwriters do nosso tempo e possuir uma voz portentosa – California (1988), United Kingdom (1989), Everclear (1991) e Mercury (1993) são de audição indispensável.

[“Electric Light”, do álbum Engine]
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Yo La Tengo

Origem: Hoboken, New Jersey
Ano: 1984

Os Yo La Tengo têm em comum com os Sonic Youth a área musical (inicial), a longevidade e a carreira sem passos em falso. Também a formação tem sido consistente: Ira Kaplan (voz, guitarra) e Georgia Hubley (voz, bateria) estão juntos desde 1984 (e são também marido e mulher) e, após três baixistas diferentes, James McNew ocupa o cargo desde 1992, mas a sonoridade do grupo tem registado mais variações que a dos Sonic Youth (que são uma banda instantaneamente reconhecível).

Nos anos 80 os Yo La Tengo publicaram os recomendáveis álbuns Ride the Tiger (1986), New Wave Hot Dogs (1987) e President Yo La Tengo (1989), mas fariam discos ainda mais admiráveis nos anos 90, quando começaram a gravar para a Matador – Painful (1993), Electr-O-Pura (1995), I Can Hear the Heart Beating as One (1997). Continuam activos e em boa forma – menos ruidosos e enérgicos, mais atmosféricos e electrónicos – como atesta o facto de There’s a Riot Going On ter figurado em muitas listas dos melhores discos de 2018.

[“Clunk”, do álbum New Wave Hot Dogs]

Pixies

Origem: Boston, Massachusetts
Ano: 1986

Tal como as Throwing Muses, suas conterrâneas, contemporâneas e colegas de editora (a 4AD), os Pixies tinham dentro de si dois criadores com ideias distintas – Black Francis (Charles Thompson, de seu verdadeiro nome) e Kim Deal – o que gerava tensões difíceis de gerir. Os começos da banda pareciam pouco auspiciosos: o duo Black Francis e Joey Santiago, que eram guitarristas incipientes, colocaram um anúncio em busca de uma baixista (faziam questão de que fosse uma rapariga) e a única a responder foi Kim Deal, que não tinha baixo nem sabia tocá-lo e  que propôs que a baterista fosse a sua irmã Kelley, que veio prestar provas e se sentia ainda menos segura na bateria do que Francis e Santiago nas guitarras.

Todavia, como o que mais conta no pop-rock não é a proficiência técnica, os Pixies, após recrutarem David Lovering para a bateria, lá fizeram o seu caminho e desenvolveram a sua sonoridade, baseada na alternância de uma calma tensa com acessos de fúria insana (Kurt Cobain iria aqui buscar ideias) e em declinações bizarras de surf music. Estrearam-se com o EP Come On Pilgrim (1987), uma reciclagem de uma demo tape, e depois veio o 1.º disco a sério, Surfer Rosa (1988), cujas promessas desabrocharam plenamente em Doolittle (1989). Lançaram ainda Bossanova (1990) e Trompe le Monde (1991), bons discos mas sem a excitação dos anteriores, e dissolveram-se em 1992 – Black Francis seguiu olvidável carreira a solo (agora sob o nome de Frank Black) e Kim Deal fez o mesmo, passando a ter como “veículo” as Breeders, banda fundada em 1989 com outra “oprimida”, Tanya Donelly.

Os Pixies voltaram a juntar-se em 2004, primeiro só para concertos e depois começando a gravar discos – competentes mas longe de serem indispensáveis. Kim Deal deve ter percebido isso e saiu em 2013, para reformular as Breeders.

[“Here Comes Your Man”, do álbum Doolittle]

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