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Dez grandes discos com 30 anos: 1990

Foi um ano dominado pelo shoegaze e pelo som de Madchester, na véspera de uma banda de Seattle mudar o rumo da música

Escrito por
José Carlos Fernandes
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No final dos anos 80, o grunge já mexia (o álbum de estreia dos Soundgarden tinha surgido em 1988, os de Nirvana e Mudhoney em 1989) mas estava circunscrito à região de Seattle. Por enquanto, era a Grã-Bretanha que continuava a liderar os desenvolvimentos na música indie: as bandas cimeiras do pós-punk iam perdendo inspiração ou notoriedade ou dissolvendo-se, mas estavam em ascensão o som Madchester, com Happy Mondays e The Stone Roses, e o shoegaze, com o sinal de partida a ser dado pelos The Jesus and Mary Chain e os My Bloody Valentine, logo seguidos por Lush, Slowdive e Ride.

Recomendado: Dez grandes discos com 40 anos: 1980

Dez grandes discos com 30 anos: 1990

1. 'The House of Love', de The House of Love

Fundados em Londres em 1986 por Guy Chadwick (voz, guitarra) e Terry Bickers (guitarra), The House of Love ganharam alguma notoriedade em 1987 com o single “Shine On”. Insolitamente, o álbum de estreia, homónimo, lançado em 1988 pela Creation, não incluía “Shine On”, mas, com a ajuda do single “Christine”, que chegou ao primeiro lugar do top indie, foi um razoável sucesso de vendas e foi ainda mais bem recebido pela crítica.

“Shine On” acabaria por ser regravada e inserida no segundo álbum da banda, também intitulado The House of Love, surgido em 1990 na editora Fontana, e que, para ser distinguido do seu antecessor, por vezes é designado como “The Butterfly Album”, numa alusão à borboleta na capa. Na sua primeira encarnação, “Shine On” não entrara no top 40, mas a segunda versão chegou ao 20.º lugar do top de singles e o álbum subiu até ao oitavo lugar.

Porém, nos bastidores, nem tudo corria bem: os choques entre egos, favorecidos pelo consumo liberal de drogas e álcool, levaram à saída de Bickers logo no início da tournée do segundo álbum – e a verdade é que The House of Love não mais voltaram ao nível dos dois primeiros discos. A sua sonoridade, que adicionava condimentos psicadélicos ao pós-rock britânico, influenciou algumas bandas que viriam a ser figuras cimeiras do nascente movimento shoegaze, como os Slowdive e os Ride.

[“Shine On”]

2. 'Nowhere', dos Ride

Os Ride, de Oxford, tinham melodias orelhudas de molde beatlesco, repartidas entre os dois guitarristas/vocalistas, Andy Bell e Mark Gardener; uma impressionante muralha de distorção, saturada de influências psicadélicas; e um baterista particularmente criativo e hiperactivo (Laurence Colbert). Foi Jim Reid, de The Jesus and Mary Chain, banda pioneira do shoegaze, quem fez chegar uma demo dos Ride a Alan McGee, que os contratou para a sua editora, Creation, que viria a desempenhar papel central no fenómeno shoegaze.

Após terem lançado três EPs em 1989 – Ride, Play e Fall – os Ride estrearam-se na longa duração com Nowhere, que, apesar da juventude dos músicos (Bell tinha 20 anos, Gardener 21) e de ter sido gravado ao vivo em estúdio, é o seu disco mais inspirado.

A criatividade duraria o suficiente para criar Going Blank Again (1992), mas depois declinou, na proporção inversa da acrimónia entre Bell e Gardener, levando à dissolução da banda em 1996. Voltaram a juntar-se em 2017.

[“Seagull”]

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3. 'Some Friendly', de The Charlatans

The Charlatans nasceram nas West Midlands em 1988, por iniciativa do baixista Martin Blunt e contavam na formação inicial com Rob Collins (teclados), Jon Day (guitarra) e Jon Brookes (bateria). O primeiro vocalista, Baz Ketley, mal aqueceu o lugar e deu lugar a Tim Burgess e a estreia da banda, em Fevereiro de 1990, com o single “Indian Rope”, editado pela própria banda, alcançou o 89.º lugar no top britânico e valeu um contrato com a Situation Two, uma subsidiária da Beggars Banquet. Não foi uma aposta no escuro, já que o som do grupo, com ritmo enérgico e assente no órgão Hammond de Collins , tinha afinidades com a sonoridade Madchester, representada por bandas como The Stone Roses, Happy Mondays e Inspiral Carpets, cuja popularidade estava então em ascensão. Mesmo assim, foi uma surpresa que os singles “The Only One I Know” e “Then”, saídos em Maio e Setembro, respectivamente, subissem até aos lugares 9 e 12 do top, respectivamente, e que o álbum Some Friendly chegasse ao topo da tabela de vendas.

A banda tem-se mantido no activo até ao presente, sobrevivendo à morte de Collins num acidente de viação em 1996 e ao declínio do fenómeno Madchester.

[“Then”]

4. 'Song', dos It’s Immaterial

Os It’s Immaterial – John Campbell e Jarvis Whitehead – nunca tiveram grande visibilidade – o ponto alto da sua carreira, em termos comerciais, foi o single “Driving Away from Home”, que chegou a n.º 18 no top britânico – e deixaram apenas dois álbuns, Life’s Hard and Then You Die (1986) e Song. House for Sale, um álbum gravado em 1992, ficou por editar e nem uma campanha de crowdfunding lançada em 2017 foi capaz de o trazer à luz do dia, o que atesta o (injustíssimo) olvido em que o grupo caiu.

Song perfila-se na continuidade do álbum de estreia, com canções sobre as vidas soturnas e de horizontes limitados das pessoas comuns dos subúrbios britânicos, com letras que conseguem um equilíbrio justo entre melancolia e ironia e uma sonoridade que articula com sageza programações e instrumentos acústicos. Tal como acontecia no opus 1, Song não tem um único momento fraco.

[“Heaven Knows”]

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5. 'Ritual de lo Habitual', dos Jane's Addiction

No final dos anos 90, a banda mais proeminente da música alternativa norte-americana eram os Jane’s Addiction, nascidos em 1985, em Los Angeles, do encontro de Perry Farrell (voz) e Eric Avery (baixo). O primeiro buscava um baixista para a sua banda, os Psi Com, mas estes acabaram por desintegrar-se antes de Avery se lhes juntar e Avery e Farrell lançaram um novo projecto musical, para o qual recrutaram Stephen Perkins (bateria) e Dave Navarro (guitarra) – nasciam os Jane’s Addiction.

A banda rapidamente ganhou fama pelos seus concertos de alta voltagem e foi com um live, Triple XXX, que se estreou em disco em 1988. As gravações de Nothing’s Shocking (1989), o primeiro álbum de estúdio, para a Warner (o primeiro fora auto-editado), foram atribuladas e quase levaram à dissolução da banda, já que Farrell entendia que tinha direito a 62.5% dos royalties, cabendo a cada um dos outros membros apenas 12.5% – Farrell conseguiu fazer valer a sua posição, mas o ambiente na banda nunca mais seria o mesmo.

Ritual de lo Habitual, considerado a obra-prima dos Jane's Addiction, surgiu no ano seguinte e vendeu meio milhão de exemplares. A longa tournée de 13 meses para promover o álbum exacerbou as tensões dentro da banda, para as quais contribui também o liberal consumo de drogas por Farrell e Navarro e os atritos incluíram cenas de pancadaria em palco entre Farrell e Navarro. Não constituiu surpresa que, no final de 1991, a banda tenha anunciado o seu fim. Este não foi definitivo: voltaram à actividade, com outros baixistas no lugar de Avery, em 1997, 2001 e 2008 e estão ainda no activo, embora tenham deixado de ser a sensação que eram na viragem dos anos 80/90.

[“Been Caught Stealing”]

6. 'Goo', dos Sonic Youth

Em 1990 os Sonic Youth já tinham lançado cinco álbuns, favoravelmente recebidos pela crítica, mas eram ainda uma banda de culto. Goo, o seu sexto álbum, foi o primeiro para uma editora de grande dimensão, a Geffen Records, depois de terem concluído que a sua anterior editora, a Enigma, pouco empenho revelava na promoção dos seus discos, e alargou consideravelmente o seu círculo de fãs, tendo sido o primeiro da banda a entrar no top 100 (lugar 96). Foi também a primeira vez que os Sonic Youth tiveram à sua disposição um estúdio de bom nível e sem limitações de tempo, o que reflectiu num som mais refinado – ainda que sem prescindir da adstringência e experimentalismo que sempre marcou a banda.

[“Dirty Boots”]

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7. 'Frigid Stars', dos Codeine

O grunge – agressivo, turbulento, sujo e cheio de arestas – ao monopolizar a atenção do meio musical a partir de Nevermind, dos Nirvana (1991), ofuscou outra tendência surgida nos EUA na mesma altura e marcada pela introversão, lentidão e melancolia: o slowcore. Entre os pais fundadores deste género estão os Codeine – Stephen Immerwahr (voz, baixo), Chris Brokaw (bateria) e John Engle (guitarra) –, nascidos em Nova Iorque em 1989. A banda estreou-se em disco em 1990 com Frigid Stars e só lançou mais um álbum e um EP – todos pautados por um som austero e descarnado, que não exclui, por vezes, um dramatismo intenso.

[“D”]

8. 'She Hangs Brightly', dos Mazzy Star

1990 foi o ano do álbum de estreia de outra banda central do slowcore, os Mazzy Star, de pendor mais folk e psicadélico. O guitarrista Dave Roback, um ex-Rain Parade, associara-se a Kendra Smith (voz, baixo) nos Clay Allison, depois rebaptizados como Opal, e, quando Smith deixou a banda, Roback assumiu a sua liderança e recrutou Hope Sandoval para o posto de vocalista. Após algum tempo sob o nome Opal, a banda acabou por reinventar-se como Mazzy Star, condimentando o registo folk psicadélico com pitadas de The Velvet Underground e The Doors. She Hangs Brightly passou relativamente despercebido e só ganharia visibilidade após o êxito de “Fade Into You”, do segundo álbum, So Tonight That I Might See (1993).

[“Halah”]

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9. 'Flood', dos They Might Be Giants

Flood foi o terceiro álbum dos They Might Be Giants – John Flansburg e John Linnell – e o primeiro que gravaram para uma major, o que lhes proporcionou mais visibilidade que os anteriores They Might Be Giants (1986) e Lincoln (1988). A pop azougada, surreal, falsamente ingénua e com um gosto irresistível pelo absurdo de Flansburg/Linnell não sofreu alterações de monta em Flood, mas  o álbum chegou a disco de platina, puxado pelos singles “Birdhouse in Your Soul” e “Istanbul (Not Constantinople)”, uma cover de uma canção de 1953 cujo non-sense se diria feito por medida para os They Might Be Giants.

A banda permanece no activo e lançou um total de 22 álbuns, mas nenhum superou o sucesso de Flood.

[“Birdhouse in Your Soul”]

10. 'People’s Instinctive Travels and the Paths of Rhythm', de A Tribe Called Quest

Na viragem das décadas de 1980/90 vivia-se, nos EUA, a idade de ouro do hip-hop, centrada em Nova Iorque, exibindo uma forte componente de intervenção política e uma perspectiva afrocêntrica. 1990 assistiu ao lançamento de dois álbuns cruciais no género, Fear of a Black Planet, o terceiro dos Public Enemy, e People’s Instinctive Travels and the Paths of Rhythm, a estreia de A Tribe Called Quest. Enquanto os Public Enemy apostavam em letras contundentes e confrontacionais e em sonoridades tensas e descarnadas, A Tribe Called Quest cultivava uma postura mais descontraída e uma sonoridade mais sofisticada e eclética, irrigada por jazz, soul e funk e, por vezes, com contributos de natureza desconcertantemente variada. É o caso do terceiro single do álbum “Can I Kick It?”, que inclui samples de “Walk on the Wild Side”, o clássico de 1972 de Lou Reed, “What a Waste”, uma canção de 1978 por Ian Dury & the Blockheads, “Spinning Wheel”, de Drives, o álbum de 1970, do organista de jazz Dr. Lonnie Smith (com um groove hip-hop avant la lettre) e, pasme-se, com “Montecchios e Capuletos”, o I andamento da Suíte n.º 2 extraída do bailado Romeu e Julieta (1935), de Sergei Prokofiev.

[“Can I Kick It?”]

Posto de escuta

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