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Dino D'Santiago
Mariana Valle LimaDino D'Santiago no Coliseu de Lisboa

Dino D’Santiago: “Se pensam que já aconteceu alguma coisa, para mim começa agora”

De generosidade e humildade desarmantes, Dino D’Santiago chegou pela primeira vez este ano ao Coliseu de Lisboa em nome próprio. Esta quinta-feira, sobe ao palco do NOS Alive, um sonho de há muito tempo.

Escrito por
Cláudia Lima Carvalho
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Mundu Nôbu, em 2018, foi uma revolução. Dino D’Santiago (re)apresentava-se com uma música que se tornou, em menos de nada, na banda-sonora de uma Lisboa crioula que é mestiça desde sempre, e que só agora parece orgulhar-se disso (também por culpa dele). Mais do que isso, Dino tornou-se ícone de uma geração mais livre e sem preconceitos. Perante a adversidade, não baixa os braços. Nunca baixou. Nem parou. A Mundu Nôbu seguiu-se o EP Sotavento (2019), o disco Kriola (2020) e, por fim, Badiu, que editou no final do ano passado. É o trabalho mais honesto, franco, aberto, é Dino D’Santiago em toda a sua vulnerabilidade, já depois de ter sido pai, balanceado numa busca por um mundo mais equilibrado para o filho. É uma homenagem ao povo Badiu, que durante anos se viu obrigado a esconder no interior da ilha de Santiago, em Cabo Verde, mas é também um testemunho das suas lutas, que acabaram por levá-lo à terapia, e do tempo em que vivemos. Foi assim, despido, mas nem por isso sozinho, que chegou ao Coliseu em Abril, altura em que nos sentámos com o músico na sala ainda vazia. A um dia do concerto no NOS Alive, onde actua no palco Heineken, às 01.15, voltamos à conversa, agora mais rápida. Não é sonho o que está a acontecer porque é fruto de muito trabalho. O festival de Algés foi um objectivo traçado no recomeço de tudo e é ali que Dino D’Santiago promete voltar a renascer. 

Quando foste anunciado para o Alive e quando falas do festival, destacas sempre a importância que tem para ti. Porquê?
Para mim, é a partir do Alive que começa. Como é que eu hei-de explicar isto para não parecer muito estranho… Quando nos sentámos, eu, os meus managers e a agência, a Arruada, a pergunta que o [Pedro] Trigueiro [da Arruada] me fez foi: “Qual é o teu goal?” E eu disse que era o Alive. Isto em 2018. E ele: “Ok, então vamos trabalhar para isso”. Só que, entretanto, as cenas foram acontecendo à velocidade da luz. Os prémios, os vários concertos… E depois entrou a pandemia. Podia ter acontecido mais cedo, mas com a pandemia atrasou. 

Se calhar agora faz mais sentido, não?
Se calhar não, até sinto que nada acontece por acaso. Agora faz muito mais sentido porque 2020 permitiu que eu fizesse mais dois álbuns. E agora vou com mais canções que as pessoas vão querer cantar. Já tenho recebido tantas mensagens de pessoal que diz que vai ao Alive para me ver. Man, com um cartaz gigantesco estão a ir ao Alive para me ver a mim? Há pessoas que foram ao Coliseu e que vão repetir, muitos por saberem também que esse era um dos meus maiores sonhos enquanto músico em Portugal. E vai acontecer num horário fixe. 

És um dos cabeças de cartaz desse palco.
É forte isso. 

Mas porque é que tinhas o Alive como objectivo?
Como eu sempre olhei para o internacional, o Alive tem esse potencial. E todos os artistas que eu admiro já estiveram no Alive, então eu queria fazer parte dessa família. E agora imagina o simbolismo de estar a fazer parte dessa família com os Da Weasel no cartaz também, a banda que eu mais vi tocar ao vivo até hoje. Eu seguia em tour com o Virgul no carro. Na altura, quando saiu o Re-Definições eles fizeram uma tour gigantesca e eu era a companhia do Virgul, estava sempre na primeira fila nos concertos e bebi muito da energia daquela equipa em palco e na estrada. Ali, tu aprendes. Como os Da Weasel faziam não havia ninguém em Portugal a fazer, em termos de produção. Estarmos no mesmo festival... Até já partilhei isso com eles, a vida realmente dá voltas inacreditáveis. 

De que forma é que este concerto vai ser diferente?
Vou adaptar o reportório para o Alive, vou ter uma canção nova, a estrear lá já com vídeo e tudo. E depois, eu sinto que vai ser diferente porque eu tenho a certeza que aquele Dino que ali vai estar é aquele Dino que está a dizer: “Para mim começou agora. Se pensam que já aconteceu alguma coisa, para mim começou agora. Até aqui foi estágio”. 

Depois disso, ninguém te segura.
Ninguém me segura, estou já a avisar.

Em Abril, a conversa foi assim... 

Dino D'Santiago
Mariana Valle Lima

Quão importante é chegar aqui?
É conseguir perceber que todos os sacrifícios valeram a pena. São poucos os que sabem o que aconteceu antes desta chegada. [Estou] desde 2003 nesta caminhada, foram quase 20 anos até pisar o primeiro Coliseu em nome próprio, porque já tinha cá estado, ou como convidado, ou com os Expensive Soul, ou como backing vocal. Agora, é assumir a responsabilidade que o público depositou em mim, porque sem o público não haveria sequer um Coliseu. Sinto que é o momento certo para viver tudo isto, já como pai pela primeira vez. Sinto que o legado que quero deixar, tendo um Coliseu agregado, ganha outra importância. 

Sentes que demorou a chegar este momento?
Hoje parece-me que chegou rápido [risos]. Sabes, quando não pensas... Dino D’Santiago, com este baptismo, surgiu em 2012, mas foi um caminho tão longo até conseguir encontrar o meu eixo, de 2012 até 2018, entre o Eva [o primeiro disco a solo] e o Mundu Nôbu. Parece que é muito tempo, mas não. Foi a minha faculdade até ter, mais do que a coragem, a responsabilidade de assumir uma sala tão importante como o Coliseu. Vês casos a acontecer muito mais rápido – no universo da música pop, então, acontece muito mais facilmente –, mas eu tive tantas lutas… Primeiro, as entidades negavam o meu concerto à volta do país porque cantava em crioulo. Depois, as pessoas começaram a ver os ecos dos concertos, os vídeos e tudo mais, e começaram a acreditar. Há até cidades que já repeti. Outra resistência foram as várias formações que fui tendo até ter agora uma mais tight. Normalmente, quando as pessoas pensam em concertos, é sempre: “ah, tem de ter banda, ocupar o palco”. Para eles, tem que justificar o cachet, mas se assim fosse os DJ’s não tinham o sucesso que têm com milhares de pessoas ali para assistirem ao produto que eles trabalharam em estúdio. São outros tempos. E agora é a minha vez de assumir esta sala como um Caetano [Veloso] já assumiu com o seu violão, a voz e as suas histórias. [Quero] poder fazer o mesmo com a minha música, e o reflexo do meu tempo que é o beat, e daqui a 50 anos o Lucas [o filho] poder dizer que esteve no Coliseu e o pai representou a sua época.

Olhando para o teu percurso, desde 2003, parece que te foste construindo como artista, para nos últimos anos te começares a desconstruir. Badiu já és tu despido. 
É verdade. 

Como é que foi este caminho? Agora, sim, este é o Dino D’Santiago?
A todos os níveis. E foi bom ter feito este processo realmente de construção, de 2003 até 2013. Perceber quem eram os artistas que me inspiravam, e durante algum tempo reproduzi-los, até encontrar ferramentas minhas para me construir até chegar ao Eva, ganhando a propriedade de cantar em crioulo. Nunca comuniquei em crioulo, mas sempre comunicaram comigo em crioulo. Até hoje os meus pais nunca falaram comigo em português, mas eu sempre respondi em português. E isso acontecia na minha música também. Sempre ouvi música de Cabo Verde, mas nunca a reproduzi. 

Isso era consciente?
Era. Ou seja, era consciente a minha não apropriação. 

Não querias, é isso?
Não queria apropriar-me de algo que eu sentia distante. Era algo somente para ouvir, não reproduzir. Mas isso aconteceu de forma natural, não me foi forçado ou imposto pelos meus pais, apesar de haver casas onde realmente os pais proibiam os filhos de falarem crioulo, para se adaptarem. Eu não tive esse processo castrador, mas autocastrei-me. A Mayra [Andrade] foi a pessoa que mais me fez querer cantar em crioulo, quando o ouvi cantado no crioulo badiu, com muita elegância, porque até lá só reconhecia elegância em quem cantava morna e coladeira, que tinham os verdadeiros intérpretes. Como foram géneros muito castrados até muito recentemente em Sotavento [grupo de ilhas de Cabo Verde: Maio, Santiago, Fogo e Brava], não se ouviam as vozes. A não ser que fosses para um Zeca di Nha Reinalda, que já era um intérprete exímio, havia muito poucos intérpretes. É como no hip-hop, toda a gente era mais uma formação de rua e não havia muito o cuidado com a melodia ou a interpretação, e a Mayra veio trazer essa elegância ao crioulo badiu, o crioulo de Sotavento. A Lura também o fez. A partir daí, comecei a beber mais desse universo. E eu: “Uau, então posso cantar em crioulo de Sotavento, faz-me todo o sentido”. Já os interpretava em casa, sentia. E depois o Tcheka, para mim, escalou. OK, isto é o extremo máximo da interpretação livre. Tive boas referências na fase em que quis avançar para o crioulo e isso enriqueceu a minha forma de interpretar, que se juntaram ao hip-hop, que era o universo de onde vinha. Mas sabia que nas mensagens seria mais radical, não iria ser tão leve.

Mas então onde é que se dá o teu renascimento, com Eva ou Mundu Nôbu?
O renascimento de Dino D’Santiago, para mim, foi o Mundu Nôbu. No Eva, tive de fazer o sentido inverso, sair do beat e ir para totalmente acústico. Foi uma mudança muito radical. 

Para ficar mais perto do tradicional?
Muito. Quer no que escrevia, quer no que dizia, quer na forma como cantava e nos instrumentos. Foi um disco que demorou cinco anos a gravar. Fui para o Brasil, para a Jamaica, para Angola, para os EUA e para França, porque eram os sítios de onde tinha muitas referências musicais. No Eva ainda quis meter muita coisa, mas depois fiz esse caminho e percebi: está em Cabo Verde o que eu preciso.

Mas isso foi importante, não?
Muito, mesmo. Foi importante sentir e estar nesses países que me inspiraram musicalmente e perceber que não era por ali. Só que foi um investimento que eu espero nunca mais ter de fazer, em termos monetários, porque depois tive de trabalhar muito mais para conseguir ter posses para fazer o Mundu Nôbu. Mas lá está, é um estágio que não tem preço. 

Até porque acabou por definir o caminho a seguir.
Mesmo. Eu quando cheguei ao Mundu Nôbu já ia com muita certeza do que realmente queria, que o universo electrónico entraria sim, mas nunca para desconstruir o lado tradicional. E as claves, respeitei-as ao máximo. A parte tradicional chegaria, mas não cheia de cavaquinhos, guitarras e percussão, [seria] o mais minimalista possível. As melodias, sim, celestiais e a honrar como se canta a morna, como se canta o batuque e o funaná, acima de tudo, mas já sem o preconceito do “ah, esta geração nova está a estragar a nossa cultura”. Isto estava a acontecer.

Esperavas o sucesso que o Mundu Nôbu teve?
Não desta forma. Quando me apercebi que o meu pai e a minha mãe gostavam muito do Mundu Nôbu, soube que estava mesmo alguma coisa a acontecer, porque era a geração que eu temia. [Eu pensava:] o que é que o Tito vai achar, o que é que o Dani Silva vai achar, o que é que a Celina Pereira vai achar. Eu estava muito reticente. 

E o que é que acharam?
Adoraram. Tanto que até o Jair, que é um dos percussionistas mais antigos de Cabo Verde, disse-me: até que enfim alguém está a trazer-me alguma coisa para eu aprender. Isso deu-me uma força tremenda. Não é que tenhas de esperar essa validação para continuares, tens de fazer o que sentes, mas ajuda muito perceberes que, pelo menos, estás a construir e a trazer valor à Cultura, que não é só um exercício de auto-construção. E senti que mexeu com as novas gerações, mesmo o pessoal do hip-hop teve mais responsabilização em não reproduzir somente os beats americanos e a querer ir às raízes e trabalhar os nossos beats, com as nossas claves e a nossa mensagem. Isso foi muito importante. Enviaram-me mensagens a agradecer por essa coragem. Aperceber-me desta responsabilidade... Aí começa a minha desconstrução, quando senti que precisava de ajuda pelas questões da minha saúde mental, por bloqueios que trazia da minha formação religiosa, onde tudo o que pensasse fora da caixa era considerado pecado. Começo realmente a conhecer-me e sinto que a minha música melhorou drasticamente. 

Censuravas-te?
Bastante.

Em quê?
Na forma como falava sobre o amor, era sempre de uma forma compassiva. Censurava-me no simples acto de sentir raiva, achava que era algo que vinha do demónio. Censurava-me no acto de ser ambicioso porque achava que era algo negativo. Censurava-me no orgulho, de sentir orgulho nas coisas que fazia, então desfazia-me de tudo o que recebia. Nunca soube receber um elogio, sentia-me sempre mal. Tinha que elogiar aquela pessoa logo a seguir, nem que fosse a roupa. É muito injusto teres de pagar tanto [por terapia], o Estado devia arranjar forma de nos ajudar porque dão-nos muitas ferramentas nas escolas, nas creches, na sociedade, e depois vamos ter de pagar muito para desconstruí-las. As ovelhas, apesar de serem todas parecidas, nenhuma delas é igual e nós caminhamos todos como iguais, mas somos igualmente diferentes. Hoje na “Utopia” [canção de Badiu] já temos essa mensagem: não tenhas medo de ser diferente, não há mal nenhum. Por isso é que todos temos uma impressão digital. Kriola bebe um pouco disso e o Badiu já sou eu a escalar, com o nascimento do Lucas. Não permitirei mais arrastar medos meus na criação do meu filho para que não cresça com um fantasma que não é dele. Às vezes, eles ficam com umas sombras tão nossas. Se tiveres medo de cães, nunca vais deixar o teu filho aproximar-se de um cão e o puto vai crescer com um receio que não é dele. Estou muito vigilante com a minha pessoa e muito observador em relação ao meu filho, estou a reaprender a andar enquanto ele aprende a andar.

Dino D'Santiago
Mariana Valle Lima

Percebeste sozinho que precisavas de resolver a tua saúde mental? Ainda é um tabu.
É um tabu gigante. Tinha amigos que já tinham experienciado, mas mesmo eles tinham vergonha de dizer. Como é tabu falar do sexo, é tabu falar da saúde mental. Acho que é ainda pior.

Há vergonha porquê?
É logo assumir que estás maluco. Como é que está tudo a correr tão bem e agora estás a ir ao psicólogo? É precisamente por isso, por estar tudo a correr tão bem e não saberes aceitar o bem que te está a acontecer e não te conseguires sentir pleno e feliz. Alguma coisa tem de estar muito errada. A mãe do Lucas foi a pessoa mais importante nesse sentido, de me dar a coragem de lá ir. O Lucas nasceu e eu fiz o inverso do que dizia: “quando o meu filho nascer vou tirar um tempo para ele, já não vou estar sempre disponível”. Quase tripliquei [o trabalho], foi ridículo. Ela dizia-me que toda a gente me tinha inteiro e eles só me tinham a morrer no sofá, sem energia nenhuma, que não era justo. Foi o tiro [de partida] e agora, quando começas… Uau, já percebo porque é que ninguém quer vir para esta cena porque começas a bater de frente com os teus medos. 

É um mergulho a sério. 
E tens que assumir a responsabilidade desse mergulho. Apeteceu-me desistir logo à segunda sessão. Porque foi mexer em feridas que me eram muito duras e eu não sabia que as tinha. Como as questões de achar que cresci como uma criança muito feliz. Brinquei, tive muitos amigos. Não tínhamos dinheiro, não tínhamos muitas possibilidades, mas quase ninguém tinha ali no bairro, então não havia muitos termos de comparação, a não ser quando íamos para o futebol e eu chegava num Renault 5 e outros chegavam num Mercedes. Então vamos ficar aí, diz-me lá o que é que sentias quando os teus colegas brincavam na rua e tu e os teus irmãos estavam trancados em casa? Ah, mas eu amo os meus pais, eles não podiam fazer melhor. Sim, isso não está em causa, mas o que é que tu sentias? E começas a perceber. Eu sempre construí um mundo interno e sempre saí das zonas de desconforto. Se me trouxesses um assunto – hoje já não –, que me estava a incomodar, tu podias estar aqui uma hora a falar e eu não ia ouvir nada porque regressava a uma memória que me fizesse sentir bem e ficava nesse processo. Sempre fiz isso. 

Era um mecanismo de defesa? 
Era. Os Expensive [Soul] não entendiam como é que, durante seis anos, e eu tive 11 com eles, eu conseguia ir na carrinha para os concertos sempre de fones a ouvir música, a fazer a minha faculdade. Porque na Operação Triunfo tive alguém que me tocou na ferida. Eu sempre fiz música, mas de uma forma muito livre porque queria seguir pintura, e naquele momento quando um jurado disse: “Tens que ir embora porque és muito amador”... Felizmente, tive a Maria João, que disse logo: “És amador porque amas a música”. E eu guardei isso, mas só processei esse lado bom, não processei o menos bom. E nos Expensive a minha obsessão era nunca mais desafinar. Hoje em dia, quando oiço uma desafinação ou quando desafino dói-me a alma. E com a terapia aprendes a amar as tuas limitações e aprendes a perceber que és um ser humano e cada vez que erras é uma oportunidade que estás a ter de te reconstruir. Já não cometo muitas vezes os mesmos erros, podem estar agregados uns aos outros, mas já não piso da mesma forma onde falhei no passado. Só que começas a puxar demais por ti e a ser muito exigente contigo. Então, não falhas aí, mas falhas redondamente noutras coisas que deixaste de dar tanta atenção. É constante, tens de vigiar os teus passos. Tem sido um processo bonito e nunca mais parei a terapia, mas espero que a música não me falhe, ou qualquer outra coisa que eu faça, porque sai muito caro. É necessário, principalmente nós, nas artes, que trabalhamos muito as emoções. Estás tão de frente com as tuas emoções que precisas de ter mesmo uma educação emocional. 

Estás mais vulnerável, é isso?
Estás muito vulnerável e é por isso que muitas vezes as pessoas não percebem... Estás a escrever canções, estás constantemente a bater de frente. Não vais mentir. Por isso é que não decoro muito as canções das outras pessoas, a não ser que me toquem muito. Para mim é mais fácil escrever sobre as minhas emoções e escrever sobre o que vejo, porque sinto-me muito mais honesto quando estou a interpretar. 

Dino D'Santiago
Mariana Valle Lima

Quem te conhece, quem lida contigo, é da tua generosidade que fala habitualmente. Isso não te deixa assoberbado? 
Ai, esquece. 

É que tens dificuldade em dizer que não.
Pronto, está aí. Só para veres, eu sou a única pessoa com quem a minha psicóloga tem de fazer o exercício oposto. Ela diz que o normal é as pessoas pensarem logo em si, protegerem-se logo, meterem-se numa caixa de desconfiança e então ela trabalha a confiança. Comigo ela trabalha a desconfiança. Ela diz que tenho de desconfiar de tudo porque sou aberto e vou logo. “Pergunta sempre uma segunda opinião, não te entregues logo.” Até para ela está a ser um exercício porque está a fechar-me. Ou seja, tens o direito de falar sobre o que quiseres só com quem quiseres, não tens de ser um livro aberto, não tens de ser exposto. E eu sempre fui educado ao contrário. Sê impecável para te expores, sê impecável porque não tens nada a temer, mas, ao mesmo tempo, o mundo não te olha assim. Não estão todas as pessoas com a mesma forma de viver e com o mesmo propósito de fazer tudo certo, mas o que é fazer tudo certo se somos todos diferentes? Depende do teu contexto de vida. Às vezes o teu contexto de vida vai dizer: fecha a porta. E é o mais certo que estás a fazer para com a tua pessoa nesse dia. Há outros que vão dizer que não precisas de porta e o mais certo é sair à rua. Tem sido um desafio gigante.

Descobrindo esse caminho, e ganhando uma nova visibilidade, que aconteceu com o Mundu Nôbu, também se aproximaram pessoas por interesse? Não conseguindo fazer essa distinção, como é que ficas?
Não conseguia fazer essa triagem e senti-me muitas vezes cansado. E eu: mas se não fiz nada porque é que estou tão cansado? Imagina, se estás mal, eu compro a tua dor de tal forma que não durmo fixe, fico a pensar no que posso fazer para conseguir ajudar. E depois comecei a recuar. Sempre fui aquela pessoa que ouviu muito e depois aconselhava com base no que sentia, mas nunca tentei interferir na tua escolha. Eu acho isto, mas tu é que sabes o que é melhor para ti. Ao mesmo tempo, tentava trazer ferramentas para a pessoa. Hoje em dia, já não consigo. Estou aqui para ser o teu ombro amigo, chora, mas não te posso dar mais nada. Com o Mundu Nôbu senti uma responsabilização, as coisas começaram a acontecer comigo. Até lá, era o Dino... OK, precisamos do Dino para meter vozes, precisamos do Dino para isto e eu ia gratuitamente para os estúdios e pumba, toma mais esta, mais esta. Dei tanto do que era o meu valor, como artista, porque sempre tive facilidade em harmonizar, que achava que não devia cobrar por isso. E então toda a gente me chamava. Gravei discos e discos, refrões, coros, mais de 300 participações, e nunca fui remunerado por isso. Mas depois tinha de apresentar o quíntuplo para conseguir alimentar o meu próprio sonho. Com o Mundu Nôbu, os pedidos continuaram a chegar e eu continuava a ajudar e a dar tudo, só que tinha muito mais responsabilidade. Chegava à editora com o meu menir, completamente cansado, e parecia que eles é que estavam errados por terem planos para mim. Eu depositei foi muito fora. Pá, mas demorou. 

É um processo.
E ainda hoje custa-me. Ou seja, tenho de me policiar. Não, não vais fazer. Reduzi bastante, sinto que tenho de equilibrar. OK, já estás pronto, vai. Já sabes que não precisas de ficar nu, tira só o cachecol, estás a ver?

Nessa altura do Mundu Nôbu apareceu a Madonna. Sentes que te deu visibilidade ou ofuscou-te de alguma forma? Porque houve uma altura que se falava muito do Dino como o amigo da Madonna. Isso alguma vez te chateou?
Sinto que fui muito protegido, sabes? Tenho de ser muito franco. A minha editora nunca se quis apropriar disso, a agência nunca quis e o meu management também alienava essa questão. Era tipo, nunca menciones o nome dela porque vai proteger-te. E eu, OK, isto pode ser muito mau para mim. Havia muitos da minha estrutura que diziam: “estás a fazer isso tudo, devias cobrar”. Mas eu não sentia que devia cobrar porque estava a aprender. 

Cobrar o quê?
Eu fiz cento e tal festas, que eu organizava. Ou seja, se tivesses um produtor a organizar tudo e a trazer todos os músicos, trazer tudo… Só que todos os músicos abraçaram, sentiram que também iam aprender muito e foi o que nos aconteceu. O que eu aprendi naquele tempo! Como é que uma pessoa como ela, que eu sentia que não precisava de fazer nada porque tudo lhe caía aos pés, controlava tudo? Numa simples vinda ao Coliseu para tocar durante o Inverno – e sentes o frio que está – mandou meter ares condicionados na sala toda, em todos os pisos, e foi até ao último andar ver se toda a gente da comitiva estava a ser bem tratada. Eles eram mais de cem e ela sabia o nome de todos. Ou seja, eu fiz um outro trabalho, deixei-me observá-la. Ir para Londres gravar com ela no estúdio e eu adormecer e ela estar de pé. Eram cinco da manhã quando saíamos do estúdio, a lutar com os engenheiros, picuinhas. Eu nunca fui assim. E eu a ver aquilo tudo... Porque eu não a sentia como intérprete, sempre fui amante dos intérpretes, mas perceber o que está por detrás daquele ser e perceber que realmente a voz não é tudo e o que importa é o que tu fazes com a tua voz. Perceber que ela consegue ser disruptiva. E a honestidade de ter prometido e ter levado as batukadeiras, os músicos portugueses. Não tentou chegar aos Estados Unidos e dizer: eu aprendi isto tudo, filmei isto tudo, agora vamos replicar. Ela pegou no que aprendeu em Portugal, percebeu logo a importância de trazer os vários portugais que aqui existem e teve o cuidado de ir estudar a história. Eu vejo que os nossos artistas não fazem esse exercício. E o que é certo é que rendeu-lhe milhões, sim senhora, mas soube fazer bem. Foi uma aprendizagem. 

A verdade é que tu eras falado como o amigo da Madonna, mas tu é que acabaste a influenciá-la. 
E ela sempre foi honesta nisso. Vai ao Jimmy Fallon e diz. Em Inglaterra, disse em todas as entrevistas, e não tinha necessidade de fazer isso. Celebrou os 60 anos da Vogue em Itália e Portugal e disse: quero que a banda sonora seja do Dino D’Santiago, e quero que seja ele comigo. Ou seja, ela foi sempre honesta. Sabemos perfeitamente que não tinha que o fazer. OK, dou-te um crédito, ou dou-te dinheiro, e segues a tua vida. Não. Foi precisamente o oposto. Fui a primeira pessoa que ouviu o disco, ainda nem a team dela tinha ouvido. Então percebes, como artista, por mais que a vida te sorria muito, vais ter sempre de ser generoso e tens de perceber que vais sempre aprender com alguém alguma coisa. E é por isso que estou sempre atento às novas gerações, porque tenho muito mais a aprender com eles do que a tentar bater na geração mais velha e mostrar-lhes certo caminho. 

Falas sempre muito das tuas referências, mas falando das novas gerações, também já te estás a tornar uma referência. Sentes isso?
É bué bonito. Eu rio, só. Olho para dentro e penso: olha as voltas que a vida dá. De facto, seres honesto com a tua arte pode trazer benefícios que só verás a longo prazo. Às vezes podes partir para outro plano da vida e de lá, desse sítio que eu acredito que existe, é que vais conseguir perceber o tamanho da tua obra. E eu tenho a sorte de viver numa altura em que as pessoas têm menos vergonha de se manifestar. Sou parado por famílias que dizem que não tenho noção do que simbolizei no confinamento. Como é que é possível? As minhas músicas estão a fazer com as pessoas o que o Bob Marley fazia comigo, é lindo. Esses são os verdadeiros prémios, e já tenho recebido muitos troféus desses. As pessoas manifestam-se e isso responsabiliza-me, no sentido de continuar só a ser eu, a fazer o que sinto, sem medo de dizer quando errei. Traz coisas maravilhosas, mas também traz muito entulho. Por exemplo, houve muita responsabilização pelas questões das causas sociais que defendia, mas eu não sou um activista de formação, nem vivo para isso. O meu activismo acontece nas minhas canções. Então, antes de me perguntarem, vão escutar nas canções e nas reflexões, e depois sim, podem me fazer uma pergunta. Há coisas que até chegam a ser ofensivas. Mas acreditas mesmo que há racismo? Ou, acreditas mesmo que o mundo está assim? E tu pensas: vê-se mesmo que essa pessoa não faz o exercício de ver onde está. O teu vizinho quem é? Não sabes sequer. O mesmo com as questões sociais da pobreza, que é extrema em Portugal e nós não temos noção. Tudo isto está a acontecer à nossa volta e continuamos à procura das notícias que estão a acontecer na Ucrânia e na Rússia sem olhar para o que está a acontecer aqui. Sim, temos de ter muita empatia com o que está a acontecer, mas temos que perceber que tudo é provocado por nós. Se é provocado por nós, há uma responsabilidade nossa de ir lá atrás e perceber a história. A história vai tendo várias faces e continuamos a comprar aquilo que está formatado para vermos. Sei lá, eu questiono muito. 

Mas isso é o Badiu.
Tens toda a razão. 

Olhar para trás...
Olhar para trás para construir um futuro melhor e não para ficar preso. E é aí que eu fico triste muitas vezes com o activismo radical. 

Porque afasta?
Afasta, não te apercebes que o objectivo é juntarmo-nos pela luta e não construirmos o nosso castelo e cercarmo-nos porque nós somos nós e os outros são os outros. Não, somos todos nós e somos todos outros. A minha busca é sempre pelos aliados. Felizmente, uma vez, ouvi uma frase da Grada Kilomba que nunca mais me saiu: deixei de investir o meu tempo naqueles que não querem ver e invisto o meu tempo naqueles que querem ver. Aí, mudas a tua óptica e percebes que afinal há muito mais gente do mesmo lado da moeda. Isso tirou-me um peso. Agora, quando me julgam por isto ou por uma opinião minha, é só a minha opinião, não é a verdade absoluta, nem é uma máxima de vida. 

Dizes que não és activista de formação, mas tornaste-te uma voz bastante assertiva a defender as causas em que acreditas. Isso aconteceu com este renascimento?
Foi com o renascimento da minha pessoa. Eu deixei de ser um eco de tudo o que me ensinaram. 

Percebeste que tinhas uma voz?
E isso aconteceu-me quando comecei a cantar em crioulo. Estás a ver, ainda bem que falaste sobre isso. Eu percebi que tinha uma voz quando comecei a cantar em crioulo e percebi que não precisava de encontrar um range vocal que fosse mais semelhante ao Bob Marley, ou como o D’Angelo, ou como o Marvin Gaye, ou como a Lauryn Hill. Percebi que com o crioulo criei a minha própria forma de falar. Pumba, nunca mais tive dificuldades em nada. Quer a interpretar, quer a fazer o que quer que fosse. 

Ganhaste segurança?
Uma segurança gigante. E nesse processo caí na armadilha: “afinal tens voz, o que é que fazes com ela quando não estás a cantar?” Então foi [preciso] encontrar o equilíbrio e a coerência entre o que digo [nas canções] e o que falo. O auto-conhecimento ajudou. Deu-me a ferramenta para sentir que não estou a reproduzir algo que alguém me disse e encontrar uma mensagem que vai ficar se eu partir para o outro lado da vida, vai ser a minha eternização. 

Mas isso é uma maior responsabilidade, não?
Só que sentes que é menor quando percebes que é a tua voz. É só uma responsabilidade para ti. 

Estás descansado, é isso?
Ya, eu estou em paz por isso. É a minha responsabilidade. Agora, quem vai ouvir tem a responsabilidade de fazer o seu processo e perceber se essa mensagem faz sentido ou não. Tira-me um peso de cima que é gigantesco. Só tenho de dizer o que acredito e sinto. O outro tem de sentir se essa mensagem deve ser recebida com um receptor positivo ou menos positivo.

Pela tua dificuldade em dizer que não, sentes que foste chamado muitas vezes a falar de temas que tu, se calhar, não sentias que fosses a pessoa certa para isso?
Sim. Por isso é que é bom ires aprendendo no caminho. O que é que eu fiz? Comecei a pesquisar cada vez mais quem eram as pessoas certas para falar sobre aquele assunto – e há muitas. Já nem esperava passar a mensagem à minha editora, direccionava logo. Olha, para falar sobre este assunto é melhor esta pessoa. E são pessoas que precisam de ter voz. Na música: Dino, precisamos de ti para fazer voz. Não, manos, vocês têm pessoas que fazem muito melhor do que eu, só não lhes deram uma oportunidade. Comecei a direccionar. Quando eram coisas em que eu achava que a minha voz poderia fazer a diferença, avisava a minha editora. Se me diziam que era melhor não fazer por este motivo, aceitava. Ou então, se sentisse que tinha mesmo de fazer, batia o pé. Porque há coisas que vais ter que assumir, mesmo que dê para o torto. Foste avisado, disseram-te que não ia correr bem, mas tu acreditaste: vai e vive a tua experiência. Se correu mal, tiras uma lição. Mas tem de ser tua. Às vezes, até um conselho que te dão pode ser muito positivo no todo, mas se calhar não é o que precisas naquele momento, se calhar precisas de te descobrir.

Tens que arriscar. 
E cair e raspar com os joelhos. Ah, bati com os joelhos, mas vi que afinal consegui dar mais passos. No fundo, estás a desenvolver outro skill

Dino D'Santiago
Mariana Valle Lima

Mas sentes que foste chamado para preencher quotas?
Isso foi o que mais aconteceu. Vou ser honesto, porque acho que é na honestidade que as coisas funcionam melhor. Houve cenas que foram maravilhosas. A nível financeiro, durante a pandemia, fui dos artistas que mais concertos teve. Porquê? Porque todas as câmaras começaram a voltar-se, mesmo a parte cultural, para a questão social. Depois começas a fazer o rastreio e não havia quase nenhum artista [negro]. Fui fazer esse processo e vi que realmente nós como artistas não nos estávamos a responsabilizar pelo tempo em que vivíamos. Claramente no hip-hop havia mais essa sensibilização, mas depois os públicos não estão preparados para ouvir só rimas e bater de frente. Então, eu agregava o bom dos dois mundos, conseguia fazê-los dançar a ouvirem uma mensagem interventiva. Vi que esse eco passou e houve mais artistas que começaram a fazê-lo, mas caiu nessa cena injusta de tudo o que fosse questões sobre racismo, pobreza, ou sobre os bairros, o Dino era fixe porque é amigável e não fere nenhum dos dois mundos. Foi aí que comecei a fazer o trabalho de casa. Existe esta pessoa, existe esta. E as pessoas começaram a pedir menos, mas o que a minha editora recebeu de pedidos para ou ir falar a faculdades ou ir tocar a causas sociais! Era para todos os lados. Conseguimos dizer que não, mas tive a ajuda da minha equipa para dizer que não. O meu verbo era ir, sempre. Ah, mas precisam. Não és o único, há mais vozes. Vamos dividir o mal pelas aldeias. 

E no meio disso, tornaste-te uma das 100 personalidades afrodescentes mais influentes do mundo. 
Isso foi uma cena. Eu não chorei, quase que chorei. Tenho uma dificuldade, mas agora já estou a libertar-me. 

Tiveste um momento em que duvidaste?
Tive, até enviei um email a perguntar: têm a certeza? Quem vos fez chegar até mim? E eles disseram que tinham várias pessoas espalhadas pelo mundo que depois lhes faziam chegar os nomes que estão a representar mais as causas, as comunidades, e eu tinha sido um dos mais mencionados. E eu não acreditando naquela voz inglesa. Só para veres como não fui bom para mim, pensei: espera aí, quem da língua portuguesa está agregado ao painel de júri? E vi que era uma rapariga no Brasil, vi o contacto e liguei. Recebi esta informação, mas como tenho dificuldade em acreditar e é um statement muito grande, preciso que me digas. E ela: olá, Dino, fui eu que enviei. E eu: como é que chegaste à minha música? E aí ela começou a explicar-me tudo. Primeiro, faz um simples exercício, vê quantas pessoas no Brasil te seguem, quantas pessoas em Cabo Verde te seguem. E eu comecei a fazer uma coisa que nunca fiz porque não pesquisava por mim. Pesquisava por artistas que me inspiram e não por mim. E foi forte isso. 

Então consegues perceber a escolha?
Agora já consigo. Ainda recentemente a minha editora recebeu um convite que ainda não posso partilhar, para ser anfitrião, para mostrar a cultura em Lisboa, e eu mais uma vez naquela de como é que isto chegou a mim, liguei a perguntar. E a pessoa: olha não foi muito difícil, procurei música contemporânea e Portugal, e o teu nome era o que mais aparecia. Uau.

Curioso que isso aconteceu também quando o Badiu foi escolhido como disco do ano aqui na Time Out. Também precisaste confirmar. 
Já não ia falar sobre isso porque estás em casa e podias não poder falar sobre isso [risos], mas foi igual, fiquei mesmo à toa outra vez. 

Mas não te achas merecedor? Não fazes uma reflexão sobre o teu percurso?
É porque eu estou tão focado no percurso que não penso na repercussão do percurso. Eu já estou a pensar noutro disco.

Até porque já conquistaste os prémios Play…
Então, os últimos que vim receber já me chegavam com delay. Com o Mundu Nôbu igual, já estava a preparar o Sotavento, que não sabia se era um EP ou um disco. Depois, quando recebi os prémios pelo Krioula, eu já tinha feito o Badiu. Imagina estar ali a receber aquilo e só pensava: fogo, este é o melhor disco e eles ainda nem ouviram [o Badiu], esse é que é o meu melhor disco, o que está a vir. Porque eu sentia que o Badiu era a minha melhor obra, mais honesta. Quando uns dos produtores me ligou a dar os parabéns disse-me: eh pá, agora se calhar é melhor descansares um bocadinho porque senão vai parecer que os prémios são os prémios Dino D’Santiago. Mano, como é que eu vou descansar se eu já tenho mais um disco? Eu não faço um disco para os prémios Play, eu faço porque sinto que tenho de dizer algo e tenho que fazer. 

E tu, no fundo, nunca paraste?
Nunca, e foi a minha maior aprendizagem. Foi realmente nunca esperar pela inspiração, mas sim criar condições para a receber com todas as ferramentas. Os meus músicos não acreditavam. Mas vamos uma semana, um mês, para gravar um disco, mano? Achas que vão sair músicas todos os dias. Nem que saia uma letra. Saíram 37 canções [para o Badiu]. 

E rodeaste-te sempre de amigos, de músicos. Mas não é de agora, sempre fizeste isso. Eu e os Meus [o disco de estreia, ainda como Dino & The Soulmotion] era isso. Quão importante é isso para ti?
O facto de estares rodeado de pessoas que vibram da mesma energia, da música, da criação, letristas, pensadores… Eu levei o Vhils [à casa onde Badiu foi gravado], porque é um gajo que trabalha a imagem, sempre gostei da cena da imagem, sempre gostei de pintar. Gosto de me rodear de todas as pessoas que vivem no mesmo ecossistema que eu. Muitas vezes não nos juntamos, está cada um a construir o seu edifício, e não percebemos que tem de haver um único edifício para as artes. Rodeia-te dessa tua tribo e constrói as tuas obras. Vão ficar muito melhores porque assim já não é só a tua opinião, é a opinião de quem também faz isso todos os dias. Mesmo que depois fiques com a tua opinião, pelo menos já ouviste outras. Isso eu fui fazendo ao longo da vida, sempre gostei. E agora, com o Badiu, cheguei ao expoente máximo de realmente criar o nosso templo e levá-los a todos para o nosso templo. 

Mas agora estás sozinho em palco.
Sozinho, só que não me senti sozinho. Essa é a grande diferença. Isso é uma grande terapia, porque nós temos medo de estar sozinhos, enquanto seres, porque nos sentimos solitários e é precisamente o inverso. Estares sozinho é estares contigo próprio, é o único momento em que tu estás com a tua essência. 

É por isso que tens essa linguagem nos vídeos de “Esquinas” e “Voei de Mim”?
Fizeste o trabalho de casa [risos]. É fixe quando não tens de explicar muito, é isso. O único espelho que tenho, para me relembrar que o que importa sou eu, é o chão onde a minha imagem está reflectida.

A tua visão parece ser completa, não se fica apenas pela música. Quando é que a moda também entrou nisso?
É completa, a simples prepotência de achar que eu visto o que quiser… Não, há pessoas que trabalham a arte de te vestir, como tu dedicas o teu tempo a escrever uma canção. Hoje estou aqui a honrar. Há quem escreva o que tu vais vestir e a Alexandra [Moura] hoje em dia escreve-me. Ela cria peças de propósito para que eu possa dar ainda mais dignidade e integridade à minha mensagem. 

E o que se segue depois?
É um novo Dino. Eu estou à espera de [saber] quem é o gajo, que sou eu, que vem a seguir. Até estou com essa curiosidade. Por exemplo, já estou no meu processo criativo. E não estou sozinho. Tenho uma equipa. E a única forma de honrar o trabalho de todos é estar 100% comigo mesmo, treinar, continuar as minhas meditações, as minhas reflexões. Quero estar aqui sentado a ver o próximo Dino, porque sinto que ele vai ser ainda mais fixe. 

Sem pressão de um novo disco?
Sem pressão. Todos os dias são uma canção nova, então tudo é um novo disco na vida.

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