Entrevista a Sérgio Godinho: "Ninguém é valente a vida inteira"

Sérgio Godinho fala do país, falando de todos nós, para falar de si próprio. Ou talvez seja o contrário. Entrevista a propósito de ‘Nação Valente’, um disco fulgurante em que a sua escrita se apodera da música dos outros e nos interroga a todos.
Sérgio Godinho
Fotografia: Manuel Manso
Por João Pedro Oliveira |
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Passaram seis anos e ele nem deu por isso. O último disco de estúdio, Mútuo Consentimento, é de 2011, mas até chegar a este Nação Valente, Sérgio Godinho não parou de criar. É que se acaso pára, confessa, crescem-lhe borbulhas. Aos 72 anos, cresce o desassossego da escrita – lá para Setembro há novo romance – mas não se imagina sem criar música e sem lhe dar palco. O irmão do meio é cada vez o irmão mais velho, mas continua a semear parcerias e a colher o melhor de outras gerações. É um optimista bem sucedido que acredita no que faz, no país em que vive e no mundo à sua volta. 

Esta é a sua segunda conversa longa do dia?

Vai ser longa? (sorriso) É. Eu faço as conversas todas de manhã um pouco sob protesto. Normalmente não estou com os rolamentos todos a funcionar. Depende dos dias…

É mais de noite?

Não, não! Depois de almoço também, dá-me o sono, com um copo de vinho e tal...

Pergunto se o Sérgio é uma pessoa mais da noite...

Ah! Ok, não percebi.

Já não é...

Porquê “já não”?! Alguma vez fui?

... enfim, o que queria perguntar era “ou já não é...?” Bom, do início: é uma pessoa que funciona melhor de noite?

Ah! Andamos aqui perdidos a lutar com as palavras...

Não me atreveria a uma luta de palavras consigo.

(Abre mais o sorriso). Não, nunca fui um grande noctívago. Mas para escrever, quando estou na ficção narrativa, nos contos como no romance, prefiro a noite.

Precisa do sossego?

É quando tudo pára. E eu tenho alguma dificuldade em arrancar, tenho as antenas sempre ligadas a várias coisas. Mas não sou de ir pela noite fora e de me deitar às quinhentas. Houve uma altura, quando tinha mais peças de teatro, ou em Paris no musical, era normal uma vida mais pela noite. Mas isso foi há muitos anos, percebes? Hoje tenho até outro lado: se acordar ao meio-dia sinto que já perdi o dia. Eu reservo a manhã para hábitos, para coisas como ir ao ginásio.

No Ginásio Clube.

Sim. Como sabes?

Também moro ali.

Somos vizinhos, então!

Sim, gosto aliás de fazer publicidade disso, de dizer que sou vizinho do Sérgio Godinho.

A tua cara não me é estranha, de facto...

(pausa para conversa entre vizinhos)

Voltando à escrita: em dez canções os textos são praticamente todos seus, mas há apenas duas em que assina a composição...

Sim. Há o caso da Márcia, em que nem a letra nem a música é minha, é uma versão.

Porquê a excepção?

Eu gosto muito da Márcia, acho que ela escreve com uma grande maturidade. É muito surpreendente, ela é muito inspirada.

A escrita tornou-se mais urgente que a composição?

A composição é um trabalho que pode ter certos impasses. A determinada altura começamos a repetir fórmulas – é natural que tenhamos as nossas próprias formas de compor. Até porque eu sou um compositor autodidacta, fui aprendendo com a prática...

Sentiu que se estava a repetir?

Não... não sei, não foi assim pensado. Gosto desta coisa da partilha criativa, de pegar nas composições dos outros. Já as letras...

Não abdica facilmente.

Das letras abdico dificilmente. É uma matéria que eu gosto muito de trabalhar: a prosódia, a métrica, a rima, o poder de síntese a que uma canção obriga. Por outro lado, gosto de ser estimulado por outras linguagens musicais e fazê-las minhas. Pegar na música de outro e, com a letra que fiz e cantando-a, torná-la minha. Neste disco senti várias vezes isso: “esta música já é minha”. Há um certo canibalismo.

Portanto encomendou músicas e fê-las reféns dos seus textos.

(Riso) Foi mais ou menos isso.

Mas continua a parecer o contrário, que a escrita nasce primeiro e traz música implícita.

Já várias pessoas se surpreenderam com isso. Componho primeiro e o texto é que tem de se grafar àquela frase musical, adquirir musicalidade própria. Lá está, a prosódia. Fazer parecer que aquele é um objecto único e indivisível, juntar dois objectos que depois apenas vivem de maneira plena quando conjugados: esse é o labor de uma canção. Neste disco foi assim. Excepto no “Noite e Dia”, um texto que eu tinha e o Filipe Raposo musicou, que conta a história daquele homem que já não sabe se é dia, se é noite, porque tem dois trabalhos...

“Confundo o viver dentro e o estar por fora”

Uma frase fulcral nessa tensão, sim. É um homem que pergunta “onde irei buscar força de vida?”. E acaba a dizer “e à lareira olhar o fogo em brasa”, que é uma espécie de desejo de normalidade a que toda a gente devia ter direito. O excesso tem de ser procurado, não pode ser imposto. E ali há um excesso violentamente imposto. O outro caso é o “Grão da Mesma Mó”, uma canção de pensamentos existenciais, que me diz a mim e aos outros “eh pá faz qualquer coisa da tua vida”.

“Vê lá o que fazes, há tanto a fazer, fazes que fazes ou pões sementes a crescer?”

Exacto. Já decoraste isso tudo?

Ainda não, mas tirei notas. Depois diz: “E faças o que faças/ Por vales e cumes/ Encontras-te a sós, só/ Grão a grão acompanhado”. No fim a solidão é inevitável?

Acho que tens de perceber que em certa medida estás só. Mesmo tendo feito muito com muita gente, há uma solidão aqui que não se vai. Esses momentos de solidão têm de ser vividos. Nem sempre são é bem vividos. Podes te sentir só e muito bem acompanhado por ti próprio. Como podes estar no meio de muita gente e ainda assim sentir o peso dessa solidão. Essa canção também fala disso.

O que é que ainda o motiva a escrever? É mais a experiência autobiográfica ou a vontade de intervir sobre o que está à volta?

A primeira coisa que me move é a vontade e o gozo de criar. Criar qualquer coisa, seja canções, que são o meu veículo principal, sejam estas outras coisas que senti necessidade de fazer. É esse prazer, esse impulso. Se não o pratico durante muito tempo crescem-me borbulhas. Nas canções há também o lado performativo. Uma canção para mim só vive plenamente quando é cantada num palco, perante um público que reage de determinada maneira.

É um texto que se reescreve a cada vez que se lê.

É. As artes performativas têm isso. Uma peça de teatro tem isso. O sentido do burlesco. Quando começa um concerto sabes que entraste numa viagem que tem de ser conduzida até ao fim. Não há nada a fazer. Tens de estar com as tuas emoções, com as tuas energias, ao mesmo tempo concentradas e soltas.

Prefere o palco ao estúdio?

O estúdio é trabalho de exaustão, de detalhe, trabalha-se por fatias. Dá um gozo específico, mas temos de soltar um pouco a rédea do cavalo senão aquela obsessão pelo pormenor suga-nos. No palco é ao contrário. Temos de ter a rédea um bocado curta, senão estamos demasiado soltos. Isto pode significar esquecer uma letra, desafinar, pode significar muitas coisas. Mas também não se pode estar demasiado à retranca, senão a coisa não é genuína e não flui. Gosto disso. Enquanto puder não deixarei de o fazer. A gente vai continuar, como diz o Jorge Palma. O Palma, aliás, que foi outra aventura muito importante nestes tempos.

Por “estes tempos” refere-se ao tempo que passou desde o seu último disco.

Sim. Eu descobri quase com surpresa o hiato de quase seis anos que tinha havido entre o Mútuo Consentimento e este Nação Valente

Foi tempo preenchido.

Sim houve as Caríssimas Canções [um livro de crónicas que se transformou num espectáculo e num disco ao vivo], o Liberdade [série de espectáculos ao vivo no São Luiz que resultou em disco também], houve o projecto com o Jorge Palma [Juntos, digressão que resultou num disco], houve o Vida Dupla [livro de contos), o Coração Mais que Perfeito [primeiro romance], e fiz canções para outros, para os Praga, para a Cristina Branco, que vai ter um disco novo agora com uma canção minha. Estive sempre preenchido.

Esta gente que anda a canibalizar é de uma geração bem mais nova. Ainda é o Irmão do Meio ou já é o irmão mais velho?

(Riso) Tenho tendência para isso. A maior parte dos músicos com que me cruzei e com que toco são mais velhos que eu... Embora aqui tenha também uma canção com o Zé Mário, o meu parceiro mais antigo.

É inevitável, à medida que se fica mais velho há cada vez mais gente mais nova...

(Riso) É a selecção do tempo.

Mas procura isso conscientemente?

Trazem linguagens que eu não domino. Por exemplo, nunca gostei de fazer arranjos, porque gosto dessas sabedorias que chegam com os outros e que iluminam as minhas canções, lhes apontam caminhos. Mas sim, acabam por ser sempre músicos mais novos. Tenho a mesma banda desde o princípio deste século...

Os Assessores.

É uma equipa que já tem um grande entendimento. Eu sei coisas que eles não sabem, eles sabem coisas que eu não sei. E há essa troca natural de experiências. Às vezes até de músicas que eu não conheço. Hoje em dia vejo nomes no cartaz de um festival e às vezes não conheço nada. Pergunto e acabo por ir à descoberta. Eu gosto das pessoas que sinto que são genuínas e não são meras extensões de outra coisa, sabes? E com eles vou descobrindo pessoas. Há essa troca e temos um humor comum. 

É importante o humor?

O humor sempre foi uma respiração para mim. Tanto o meu pai como a minha mãe tinham um humor muito aguçado. Muito desmistificador. Era uma casa com muito humor...  (pausa, sorriso) E muita música também... cantavam muito em conjunto. E era uma casa de livros. E tinham grupos de amigos com quem criavam coisas, faziam músicas, jogos, pelo gozo de fazer... Quando penso em alguém da idade deles e percebo que em certa medida ainda estão vivos, isso é muito estimulante, sabes? Tive um background muito rico nesse aspecto. Cultura e humor.

Estamos com falta disso, cultura e humor?

Precisamos sempre de mais cultura e humor.

E esta Nação Valente?

Essa é uma canção muito positiva. Eu acredito que podemos ser uma Nação Valente, mesmo que nem sempre tenhamos sido. Ninguém é valente a vida inteira. O que faço é convocar o hino de forma positiva. Não é de um mau nacionalismo. 

“Há de haver outra perspectiva/ Para usarmos a alegria em vida”....

“Há-de haver outra solução/ Para esta tão valente nação/ Há que ir em frente/ Nação valente”.

É também uma tomada de posição política, essa de defender que há alternativa ao discurso do “não há alternativa”.

É uma canção pós-troika. Fala do país que não se quer ver dependente, “a mão estendida por esmola”. Mas também diz “esquece e lembra o que ontem houve”. Nós tendemos a esquecer depressa demais quando as coisas melhoram um pouco. Isto também vale para nós próprios, não é só para o país. Falo no refrão daquilo que é Portugal e sobre o que quero que Portugal seja, que é “Fronteiras antigas/ Fronteiras abertas/ Quero um país de ideias libertas”. Valores bem determinados, mas sem nos fecharmos sobre nós mesmos. Temos de estar abertos aos outros e à vida, mas não confundir valores e deixá-los ir pelo cano abaixo.

Fala do país como quem fala de si, mas também podia estar a falar da Europa, por exemplo...

Eu sou um europeísta convicto. Com todos os defeitos, eu quero a Europa.

Teve uma experiência de vida muito rica Europa afora.

Sim. No Canadá primeiro, depois na Europa. Precisei urgentemente de ir ver o mundo, quando tinha 20 anos. É curioso que a música que fiz com o Zé Mário fala disso. “Mariana Pais, onde vais com essa sede de ter mundo?” E ela diz que não tem de ser sempre profunda. “Vou ao fundo e esgravato só”. Ela também tem de ter a idade que tem, de viver com a sua idade.  Também é preciso saber estar com leveza no mundo. 

O mundo hoje leva-se demasiado a sério?

O mundo do Trump leva-se a sério.

Como é que esse mundo do Trump o influencia?

Influencia, mas não quero que condicione. Não quero estar sempre a reagir. Não sou muito imediatista nisso. Em 1983 estava no Brasil a fazer o Coincidências e fui preso pela ditadura militar – foi a segunda vez. E não quis reformular tudo o que estava a fazer para falar do que me estava a acontecer. Pelo contrário, quis reservar a minha autonomia, fazer o que me apetecia fazer. Muitas vezes é só mais tarde que a gente vai falar no que está a acontecer agora. Apesar deste período negro da troika, senti que devíamos continuar a fazer o nosso trabalho. Porque se só falamos disso estamos a empobrecer-nos, a deixar-nos apoderar, percebes? Com o Trump é o mesmo. Evidentemente tenho de falar das coisas más que existem. Há canções minhas que estão muito actuais. O “Dancemos no Mundo”, que eu dedico aos migrantes. É o desejo das pessoas poderem estar juntas apesar das fronteiras clássicas, ideológicas, religiosas, políticas...

Voltamos às fronteiras abertas.

Sim, é o meu maior desejo talvez, um mundo de fronteiras abertas. Aliás, há uma frase na tal canção, “Mariana Pais, 21 anos de Idade”, que vai nesse sentido. Aquilo é uma conversa entre a rapariga e um homem mais velho. Ele diz “vive onde houver gente e faz da gente porta aberta.” São desejos utópicos, mas temos de os perseguir.

Está para sair um segundo romance.

Vai sair em Setembro. Tive de o abandonar enquanto andei de volta do disco. Até foi bom. Uma das personagens precisa de ser revista – já está a ser.  As personagens vão se aprofundando, perguntando por que é que foram por ali, perguntando-me a mim. É um cliché total, mas é verdade, isto de as personagens ganharem vida própria. Há aqui um trabalho de continuidade que eu desconhecia. Estar ano e meio de volta do mesmo trabalho criativo, sempre com vontade de ir acrescentando alguma coisa, foi uma boa revelação.

Voltou a ser mais de noite, portanto.

(Riso) Sim. Até porque de dia ando ocupado com estas coisas de dar entrevistas. E de ir ao ginásio.

Crítica ao disco Nação Valente

A comparação com Coincidências não é acaso. Sérgio Godinho foi ao Brasil, era 1983, e voltou com um dos mais notáveis discos de parcerias da história da música portuguesa e um dos mais celebrados encontros entre músicos dos dois países. Usou composições de outros (Ivan Lins, Milton Nascimento, João Bosco e Noveli) e musicou um texto de Chico Buarque (“Um Tempo que Passou”, encontro solar entre os dois maiores acrobatas de canções em português). Agora, 25 anos depois, faz um exercício semelhante. Entrega a composição quase por completo (só duas músicas são suas), cria um monumento de encontros, canibaliza o melhor dos outros, impõe-se genialmente pela escrita e estende a ponte para outro território, que é uma outra geração: David Fonseca, Márcia, Hélder Gonçalves (Clã), Pedro da Silva Martins (Deolinda), Filipe Raposo e Nuno Rafael – que assina a direcção musical e, sendo o mais velho desta galeria, tinha 12 anos quando saiu Coincidências. Soma-se José Mário Branco, outra jovem alma irrequieta, que é o seu parceiro mais antigo. Nação Valente é Godinho a tirar o pulso a este país enquanto se ausculta a si mesmo. Um disco fulgurante, para ler e reler.

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