Entrevista a Diogo Infante: “Não quero fazer teatro para salas vazias”

Diogo Infante diz que é essencial achar um mainstream de qualidade – o que não significa “fazer comédias de escorregar na banana”. Falámos com o novo director artístico do Trindade sobre a sua missão e o estado do teatro lisboeta.

Fotografia: Manuel Manso

Vamos sair daqui a acreditar no destino. Diogo Infante estreou-se como encenador na casa onde é, desde Dezembro, o novo director artístico, após a saída de Inês de Medeiros para as lides políticas. O Teatro da Trindade regressou à produção própria em 2017, ano em que também celebrou os seus 150 anos. É um voltar à vida que, com Diogo Infante, vai ser de insistência nos clássicos de proximidade com o público – que quer grande e fiel. Aos 50 anos, o artista continua a todo o gás.   

Em 1992, estreou-se como encenador aqui no Trindade, com OAmante, de Harold Pinter. Bom filho a casa torna ou isto é uma mera coincidência?

Não acredito em coincidências. Acho que há uma espécie de destino curioso e não pude deixar de pensar logo nisso quando a oportunidade surgiu. Na altura estava a fazer o Rei Lear no Teatro Experimental de Cascais (TEC) e à tarde fazia O Amante aqui e ia a correr para o TEC para fazer o espectáculo da noite. Tinha outra idade, mas sobretudo tinha muita vontade de deixar uma marca. E a procura desse espaço passava exactamente pela necessidade de me afirmar. E o Trindade, nomeadamente a Sala Estúdio, era um espaço para jovens como eu. Está carregado deste simbolismo, mas só me acrescenta responsabilidade.

O convite surgiu logo após as eleições autárquicas?

Sim, quando se desenhou um cenário em que a Inês [de Medeiros] teria que sair colocou-se logo a questão da sucessão e a própria Inês ficou preocupada, queria garantir que viria alguém com o perfil que ela achava adequado. Disse-lhe que sim, que estava disponível e ela deve ter proposto o meu nome ao ministro da Cultura e ao Presidente do Inatel.

O convite vem em bom tempo?

Sim. Já tinha mostrado vontade de voltar a estas lides, ou seja, depois das experiências do Maria Matos e do Nacional, que foram ambas intensas, ainda que distintas, e que me deram enorme prazer e um sentimento de orgulho, apesar das circunstâncias em que acabei por terminar as minhas funções, nomeadamente no Nacional, em conflito aberto...

Não se arrepende.

Não me arrependo de nada. Fiz o que entendi que tinha de fazer na altura porque acreditava demasiadamente numa missão e recusava-me a fazer concessões; como não sentia, e continuo a não sentir, que o que me move é o tacho ou o lugar. O que me move é o desafio, a possibilidade de fazer algo que seja verdadeiramente consequente, pensando nos artistas e também no público. E sim, surge em boa hora. É claro que tenho outros compromissos, mas achei que seria possível conciliar, até porque não é inédito um director artístico não ter a disponibilidade total, até porque o facto de sermos artistas traz uma outra dimensão, que acho saudável, de não estarmos sempre sentados atrás de uma secretária, de não sermos funcionários públicos.

Nenhuma dessas duas experiências acabou, como disse, muito bem. Encara este cargo como forma de suprimir esses finais ou admite que aqui possa acontecer o mesmo?

Eventualmente. Neste tipo de situações nunca se sai propriamente a bem, ou é de livre vontadeou existe um conflito explícito.

Ainda que no caso do Nacional tenha sido mais bicudo.

Foi sobretudo mais mediático. Por um lado pela dimensão da própria estrutura, por outro porque tomei uma posição forte, sabia que estava a correr um risco, mas acreditava demasiadamente no projecto e incomodou-me a leviandade com que aqueles cortes foram feitos. O facto de ter saído em conflito aberto, não me diminui.

Nem lhe traz mais pressão agora?

De todo. Defendi uma posição e fica claro para toda a gente o que se passou e como é que eu ajo. Vou defender este projecto no Trindade com unhas e dentes, até à última, e sairei, em conflito aberto se necessário for. Acredito numa visão, discutível, subjectiva, mas é a minha, enquanto aqui estiver irei defendê-la.

Vivemos outros tempos.

Sim, claro, e é preciso reconhecer que este convite é um sinal de reconhecimento do Inatel, é uma compreensão da história do teatro que tem, com tradição. E que quer mais, ambiciona dar uma maior visibilidade, uma maior intervenção do Trindade na produção teatral em Portugal.

Quando falamos de política cultural, estamos melhor do que estávamos quando o Diogo sai do Nacional?

Não sei o que é estar melhor. Estamos melhor no sentido em que há mais dinheiro e há mais capacidade de produção, mas estamos a viver tempos difíceis. Ainda agora, as candidaturas para os concursos quadrienais da DGArtes foram verdadeiras teses de mestrado.

Não é a primeira pessoa que fala disso, parece existir um exagero no detalhe.

Eu não concorri, mas sei e há algo de estranho aqui. Ao complicar de tal maneira...a minha posição é que os concursos devem ser transparentes e devem obedecer a critérios claros, isso não está em questão. O que acho é que estão a criar mecanismos de tal forma complexos…

Que precipitam a desistência?

Claro ou passa-se a ter muitos argumentos na mão para dizer: este projecto não cumpre, não chega. E às tantas é absurdo que as pessoas não possam considerar o retorno da bilheteira no seu orçamento, que os valores de co-produção possam não ser considerados, enfim, há muitos trâmites que são pouco claros e que me parece que vêm dificultar a actividade de uma área já de si pouco reconhecida e pouco apoiada. Nós continuamos a viver um bocado à margem. Nós artistas, classe teatral em geral.

Portanto não estamos melhor.

Estamos melhor do ponto de vista criativo, há mais criadores, há gente nova fantástica. Do ponto de vista humano estamos assegurados por muitos e bons anos, do ponto de vista das condições...não tenho tanta certeza. Ao mesmo tempo é curioso pensar que as maiores estruturas de produção actualmente, sobretudo no concelho de Lisboa, estão a produzir teatro quase exclusivamente contemporâneo, dito alternativo. De alguma maneira passámos do 8 para o 80.

Como assim?

Repara: é essencial termos um teatro de vanguarda, não digo o contrário. Mas depois o que acontece é que são espectáculos de uma semana. Em Lisboa não estamos a criar públicos, estamos a criar uma ilusão de sucesso. E isso incomoda-me. Há qualquer coisa aqui que é um bocado perversa. Quando a Cornucópia fecha, quando os teatros nacionais já não fazem os grandes textos com grandes elencos, que é fundamental ver...a ideia de serviço público é servir o público e não apenas servir os artistas, essa dinâmica tem que servir ambas as partes.

É isso que quer fazer no Trindade.

Pela parte que me diz respeito, quer como intérprete, quer como encenador, quer como programador, nunca me imiscui da responsabilidade de chegar até ao público, não quero fazer teatro para salas vazias, mas isso não significa que tenha de fazer comédias de escorregar na banana, acho que é preciso encontrar um mainstream de qualidade, para que os espectáculos mais contemporâneos possam beneficiar de um público mais educado, de um público com uma visão artística. É isso ou trabalhar para 5, 10 mil mentes iluminadas e não estamos a crescer. O que estou a dizer vem ao encontro da Câmara Municipal de Lisboa vir, finalmente, dizer que o Teatro Maria Matos tinha um projecto desadequado à sala.

E o Diogo concorda.

Claro que concordo. Toda a gente sabe disso, nunca foi dito porque existe o politicamente correcto. Atenção, isto não quer dizer que o projecto fosse mau, pelo contrário, o projecto do Mark Deputter era de extrema qualidade, mas era obviamente desadequado para a sala.

Muitas vezes vazia.

Muitas mesmo, só o artifício de introduzir uma bancada no palco já era sinónimo que algo não estava bem. Portanto esta ideia de transitar um projecto com esse tipo de perfil para o Teatro do Bairro Alto parece-me mais adequada.

E não estamos a caminhar para o fim do papel do programador, com esta atribuição de certos estilos para certas salas?

A liberdade de um programador tem que ser balizada por objectivos. Por missões e estratégias. Todos nós temos uma liberdade condicionada, mesmo os artistas. Não me choca nada que possam existir teatros com determinado tipo de perfil. A gente passa a saber com o que conta. Acho óptimo que possa existir um teatro vocacionado para o teatro infanto-juvenil, as pessoas habituam-se a ir lá, o trabalho da Susana [Menezes, programadora infanto-juvenil do Maria Matos] é fantástico, trabalhei com ela e merece um espaço, seja o do Teatro Luís de Camões ou outro. Isso não significa que não possa ter aqui um espectáculo infantil. A especialização não me choca nada, é uma coisa que existe em todo o lado do mundo evoluído e civilizado. A liberdade total ninguém a tem, nem o Presidente da República. A não ser que um programador tenha o seu espaço e pague do seu bolso, aí faz o que quiser.

Mais especificamente em relação ao Maria Matos, que já foi a sua casa, como vê a opção de abrir concurso para produção de espectáculos rentáveis e para o grande público?

Não gostava muito de tecer comentários sobre os meus colegas, acho um bocado indelicado da minha parte. Cada um deve fazer aquilo que acredita na sua casa. Mas, não me parece mal que a Câmara, que detém o espaço, passados estes anos, tenha o direito de alterar o modelo, não é a primeira vez que o faz. Com certeza vão colocar parâmetros, criar um júri capacitado para avaliar os projectos...a Câmara não se pode demitir da relação que tem com o espaço. Acho tudo perfeitamente legítimo.

Centremo-nos mais no Trindade. Em Junho/Julho vão ter um espectáculo em co-produção com o Festival de Almada e com o Teatro Meridional, sobre Carmen Dolores. Isto já é o dedo do Diogo na programação?

Sim.

Então até quando é que ainda temos a programação da Inês de Medeiros?

Bom, até Julho temos uma programação de transição, com projectos dos dois. A partir de Setembro a programação será já centrada numa nova lógica.

E até lá?

Esta semana temos já duas estreias. A primeira chama-se 150 Milhões de Escravos, uma co-produção do Teatro da Trindade com o Teatro da Terra e encenação da Maria João Luís, programado pela Inês. Fala sobre a exploração de trabalho infantil e com o qual estamos muito entusiasmados. Depois vamos estrear um espectáculo para a infância, dos zero aos três, chamado Conversas de Corpo, criado por Clara Bevilaqua e Guilherme Calegari, é uma experiência sensorial para pais e filhos.

Há mais planos para os próximos meses?

Para a semana começo o primeiro espectáculo que vou assinar aqui. Quero personalizar este projecto mais do que alguma vez fiz. Anteriormente tive sempre algum pudor em envolver-me demasiado.

Porquê?

Porque tinha um sentido de responsabilidade de gerir dinheiros públicos, de estar a ocupar um espaço que não é só para mim, é para uma classe. Aqui vou alterar um bocado isto. Por um lado é uma maneira de poupar dinheiro – estando eu já com um salário quaisquer retribuições que possa receber como criativo ou intérprete serão sempre menores, receberei sempre metade do que seria normal. Mas também porque quero deixar uma marca e isso passa por me projectar artisticamente. Não significa que vou encenar tudo, já lancei muitos reptos.

Pode nomear alguns?

Preferia não antecipar essa questão. Como dizia, para a semana começam os ensaios da minha primeira encenação aqui no Trindade. Falo de O Deus da Carnificina, da Yasmina Reza, que estava programado para o Trindade antes de ser director e que achei que nao devia deixar de fazer.

Que será para estrear quando?

A 1 de Março. O projecto, à semelhança do Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, vai ao encontro do tipo de textos em que acredito, incontornáveis, mas com o potencial de chegar ao grande público e, portanto, representam um bocado o paradigma do tipo de espectáculos que gostava de fazer aqui.

Pode desvendar o elenco?

Sim, sou eu, Rita Salema, Patrícia Tavares e o Jorge Mourato, somos os dois casais. É uma co-produção entre o Teatro da Trindade e a Plano6 e este é o modelo que irei tentar replicar ao máximo porque como não tenho capacidade financeira de fazer produções próprias com bastante ambição. Preciso sempre de ter parceiros. O modelo do projecto passa necessariamente por uma lógica de temporada.

Com uma carreira longa.

Sim, longa entendam-se oito, dez semanas. E com vocação de digressão, gostava que os espectáculos pudessem subsistir para além do espaço e do tempo. Há dois ou três anos que tenho andando em digressão constante, fomos a muitos teatros, há salas fantásticas por este país fora e que precisam de programação, precisam de peças e textos capazes de seduzir o grande público.

Como o Carmen – As vozes dentro de mim.

Sim, é um espectáculo em parceria com o Festival de Almada e com o Teatro Meridional, numa homenagem à Carmen Dolores, que é sempre de homenagear. Ela lançou há pouco tempo a sua último biografia e lá tive essa ideia.

Sentiu que fazia falta.

E pedi-lhe autorização para fazer uma dramaturgia a partir do livro. Ela ficou entre o entusiasmo e o medo, mas acabou até por colaborar no texto e foi ela que escolheu a actriz, ela pensou um bocado e disse-me: “A Natália”. E a Natália disse-me que pela Carmen não conseguia dizer que não.

Falamos de um monólogo.

É um monólogo, mas muito dinâmico, que vive suportado no texto que a Carmen escreveu. O Miguel Seabra vai colaborar no desenho de luz, a Marta Carreiras vai fazer o espaço cénico, o Rui Rebelo vai fazer o espaço sonoro. Portanto, estou aqui a tentar criar estas sinergias por companhias por quem tenho muito respeito. Estou muito entusiasmado, ainda que o orçamento seja o mais pequeno que já tive.

Podemos saber o valor?

Ronda os 300 mil euros e estou a lançar reptos a empresas que se queiram associar à marca Trindade, numa perspectiva de apoio directo, de mecenato. Já temos algumas empresas interessadas, portanto estou optimista quanto à possibilidade de criar aqui condições para ter uma programação continuada, de qualidade, de referência. E é evidente que preciso da classe, nunca consegui fazer isto sozinho, preciso dos bons actores, dos bons encenadores.

E sendo o Diogo um artista dos grandes textos, é sobretudo isso que podemos esperar?

Sem dúvida. É uma paixão que tenho, e é nisso que vou apostar numa primeira fase. Sinto que nunca é demais voltar aos grandes textos, há sempre uma geração que não os viu, precisamos deles. Tenho muitas ideias e também vontade de criar uma dinâmica na Sala Estúdio.

Será uma sala para uma programação mais experimental?

Sim, a própria natureza da sala, pela sua dimensão e proximidade, permite outro tipo de abordagens. Há aqui um espaço de abertura para um teatro mais contemporâneo, para experimentações, novos textos. É muita coisa que estou a tentar arquitectar num mês e pouco que estou em funções. Vamos progressivamente mudar algumas nuances que acho que podem fazer a diferença.

Admite a possibilidade de, daqui a algum tempo, programar um espectáculo de dança, por exemplo?

Sim. Embora numa primeira fase precise de me definir. Mas nunca excluo a possibilidade. Continuaremos a fazer concertos nos intervalos da chuva, vai haver coabitação com outros espectáculos. Quando estivermos em cena com O Deus da Carnificina, vamos ter O Principezinho, de Saint-Exupéry, encenado pelo Pedro Penim, em formato musical. O que sinto é que a melhor maneira de optimizar os recursos, a espinha dorsal, vai ser o teatro. É ele que me permite esticar os recursos, fidelizar público. O que não significa que não possa ter outra tipo de espectáculos, o Paulo Ribeiro já pediu para falar comigo...outras pessoas. Agora, um espectáculo de dança não me aguenta nem seis nem oito semanas, preciso de ter cuidado onde invisto. Uma das imagens que quero que fique clara é que o Teatro da Trindade já não é um espaço de acolhimento, ou só de acolhimento.

Mas isso mudou em 2017, com produção própria programada pela Inês de Medeiros.

Exactamente, com a Inês e com os 150 anos da casa houve uma bolsa que permitiu um investimento, mas gostava que isto continuasse e se afirmasse ainda mais, com uma lógica mais sólida. Com mais identidade.

Dizia que vai participar n’O Deus da Carnificina. Ou seja, a sua vontade de ser actor mantém-se ainda que esteja a programar ou a encenar.

Obviamente que sim. Sou sempre actor. Sou um actor-programador, um actor-director artístico. Não me consigo demitir daquilo que sou na minha essência. A minha ambição como actor são textos mais densos, que me desafiem, mas também adoro fazer comédias.

Imagino que tenha contratos na televisão. Como é que está essa situação?

O meu contrato com a TVI vai até Setembro. Ainda estou a gravar. A fase mais difícil da conciliação dos projectos está a ser esta, é o momento em que estou mais a precisar de convocar energias e pessoas para elaborar esta fórmula. Depois de estar definido é um barco que vai em velocidade de cruzeiro.

Portanto admite a possibilidade de continuar a fazer televisão.

Admito.

Até porque gosta.

Gosto, claro, e dá-me esta presença assídua junto do grande público e dá-me um conforto financeiro que me permite estar aqui. Vou tentar ter o melhor de dois mundos. É evidente que estou ciente das minhas responsabilidades, que me sai do pelo, mas acho que a tenho feito com alguma sensibilidade e até agora ninguém se queixou. Tenho 50 anos, estou feliz com este momento, para ajudar à missa vou realizar a minha primeira curta-metragem, e quero realizar uma longa que também já escrevi. Acho que é possível fazer todos os projectos.

É quase um mikado.

É, mas sempre fui assim, enquanto tiver forças e capacidades, estou bem assim.

 

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