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É para miúdos, não é para meninos: meia dúzia de discos para crianças

A música para crianças pode e deve ser ambiciosa. Escolhemos seis grandes discos portugueses para ouvir em qualquer idade.

Escrito por
João Pedro Oliveira
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O adulto que somos não costuma comunicar muito com a criança que há em nós. Se falassem mais vezes, o mais certo era não haver tanta obra para público infantil feita com linguagem infantilizante. Na música, sobretudo, a condescendência é a nota mais comum, e quando contemplamos o catálogo de música portuguesa para crianças somos confrontados com uma paisagem especialmente deserta. Felizmente, com vários oásis pelo meio. Eis seis grandes discos portugueses, editados entre 1976 e a década passada, que mostram como a música para miúdos não tem de ser para meninos.

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Meia dúzia de discos portugueses para crianças

‘Fungagá da Bicharada’, José Barata Moura (1976)

É o disco infantil com maior longevidade da música portuguesa. Começou por ser um programa de televisão, foi uma revista quinzenal de BD, mais tarde uma peça de teatro, e ao longo de 45 anos teve várias sequelas e versões. Mas falar de Fungagá é falar de José Barata-Moura e do LP de 1976. O filósofo e catedrático é um dos maiores contribuintes para o cancioneiro infantil português, e podíamos dedicar-lhe uma lista inteira, que fosse de “Olha a Bola Manel” a “Joana Come a Papa”. Aqui, cada história da bicharada serve de alegoria para outra coisa. A alegria é contagiosa, a composição inteligente e o humor sempre presente. Tem a marca indelével do seu tempo – é feito em pleno PREC por um cantor de intervenção e militante comunista – mas a grande contaminação ideológica é um sentido transversal de respeito pelo próximo, independentemente da cor do pêlo, do número de patas ou da orientação das penas. Tem edição em CD e está no Spotify.

‘Jardim Jaleco’, Carlos Mendes (1979)

Também mete muita bicharada, também começou como programa de televisão, também foi apresentado por Júlio Isidro. Os textos são de Joaquim Pessoa e as músicas de Carlos Mendes, que se desdobra acrobaticamente nas vozes de todas as personagens, desde o estridente papagaio Popas até ao operático Burro Adalberto, ou simplesmente sendo contador de histórias, como a do Elefante D. Henrique, famoso descobridor que tinha um amigo que era cão e se chamava Diogo. São dez canções que resumem um dia de visita ao Jardim Zoológico, cada uma contando a história de um animal diferente e assumindo trejeitos de um género musical condizente, desde o fado do Jacaré Casca Grossa à música circense do Hipopótamo Aristocrata. Pedro Osório foi o orquestrador. Nunca foi editado em CD, mas está no Spotify.

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‘Sérgio Godinho Canta com os Amigos do Gaspar’, Sérgio Godinho e Jorge Constante Pereira (1988)

Mesmo entre as canções que procuram desafiar os gaiatos com textos um pouco mais que gu-gu-dá-dá e rimas fáceis no infinitivo, há uma tendência geral para infantilizar a forma em sequências predizíveis de acordes, melodias redondinhas e ritmos pré-fabricados. Depois há isto. O que Sérgio Godinho fez a partir da série televisiva Os Amigos do Gaspar é um grande disco, que só por acaso é para miúdos. A música de Jorge Constante Pereira é complexa e desafiante mesmo para gente grande, entra no ouvido à primeira mas é difícil de reproduzir à segunda. E as letras de Godinho, sejam para que público for, oferecem sempre mais do que uma camada de leitura. O disco é todo ele um elogio da amizade, um desafio à descoberta das vizinhanças, um convite a compreender o outro pondo-nos sempre no seu lugar. A “Canção dos Abraços”, por exemplo, podia bem ser um hino para este tempo de pandemia. A música para miúdos não fica muito melhor que isto. Felizmente editado em CD, está também no Spotify.

‘Disco Voador’, Clã (2011)

Não haverá outra banda em Portugal como os Clã, tão à vontade com a sua condição mainstream e, ao mesmo tempo, tão empenhada em não ceder a facilitismos. Disco Voador, o álbum que há uma década lançaram para um público infanto-juvenil, é também exemplo disso. Na altura, eles notavam que depois de clássicos como os atrás expostos, que embalaram o crescimento de uma geração na década de 80, pouco se tinha feito em Portugal de musicalmente interessante para miúdos. Tinham razão. Os textos de Regina Guimarães falam de primeiros amores e amizades de sempre, sonhos de vida e anseios de independência, chocolates e aventuras, sempre sem condescendências. O génio musical de Hélder Gonçalves dá-lhes forma em 14 belíssimas canções com arranjos e uma energia de banda de fazer inveja a qualquer disco pop adulto. A superlativa Manuela Azevedo faz o resto. Em CD e no Spotify.

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‘Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa’, Luísa Sobral (2014)

Luísa Sobral quis criar um disco para ser ouvido em família, para servir de banda sonora de viagens curtas nas manhãs a caminho da escola ou em estiradas a caminho de férias grandes. Qualquer coisa que falasse aos miúdos, mas também aos adultos que eles aturam, que fosse um disco coeso, com história e vida próprias, que não se esgotasse numa playlist de computador. Um disco que não preguiçasse na composição nem abdicasse de alguma ambição lírica, que evitasse repisar os temas dos bichos e outros assuntos pré-escolares estafados, que iluminasse a infância como um tempo de memórias perfeitas, sem idealizar nem esconder as dores de crescimento e os momentos menos radiosos. Com Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa – o seu nome transformado pela língua dos pês – Luísa conseguiu tudo isso, o que não é dizer pouco. E ainda ajudou a acabar com a conversa de “no meu tempo é que se fazia boa música para miúdos”. Em CD e no Spotify.

‘Mão Verde’, Capicua (2016)

Desconfia de quem não gosta de animais/ E se não gosta de plantas desconfia ainda mais/ Desconfia de quem detesta chocolate/ Desconfia de quem não gosta do Chico Buarque. As letras de confio(des)confio, uma das 12 canções de Mão Verde, dizem muito sobre ao que o disco vem. A ecologia é o assunto lato de toda esta obra que é também um livro, as referências não são todas evidentes e há um desafio implícito a abrir portas a outras descobertas (“Ó mãe, quem é Chico Buarque?”). Capicua assina todos os poemas e lengalengas em que se vai falando da importância da vida de insectos numa horta, de pirilampos, bichos de conta e ervas aromáticas. Um manifesto sobre ecologia e natureza, agricultura e sustentabilidade, feito com inteligência e graça e sem cair na tentação panfletária. A música é de Pedro Geraldes, dos Linda Martini, as ilustrações da espanhola Maria Herreros. O livro/CD continua disponível por aí, a música está toda no Spotify.

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