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Chopin
Chopin tocando piano no salão do Príncipe Radziwills, por Hendrik Siemiradzki, 1887

Dez obras para piano de Chopin que precisa de ouvir

O pianista Lucas Debargue apresenta na Gulbenkian um programa centrado em Chopin, compositor cujo génio se exprimiu sobretudo através do piano – eis dez exemplos

Por José Carlos Fernandes
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Embora, em tempos, uma ilustre figura pública portuguesa, na altura ocupando o cargo de secretário de Estado da Cultura, tenha elogiado os “concertos para violino de Chopin”, a verdade é que o compositor franco-polaco se consagrou quase exclusivamente ao piano solo – e mesmo quando compôs dois concertos para piano, esmerou-se na parte solista e alinhavou displicentemente as partes orquestrais.

Fryderyk Chopin (1810-1849) era filho de mãe polaca e do tutor francês da família nobre polaca Skarbek, em Zelazowa Wola, perto de Varsóvia. Cedo revelou os seus dotes como pianista e compositor, mas a Revolta de Novembro de 1830, dos polacos contra os ocupantes russos, gerou uma turbulência que o forçou a exilar-se no país do seu pai – mais precisamente em Paris, onde cedo trocou a vida itinerante de concertista pela mais tranquilo mister de professor de piano das meninas da alta sociedade francesa. Teve um caso amoroso com a escritora George Sand e morreu, com apenas 39 anos, em Paris.

Chopin por Lucas Debargue

Fundação Gulbenkian, terça-feira 23 de Abril, 20.00, 14.07-28.14€.

Dez obras para piano de Chopin que precisa de ouvir

Estudo op.10 n.º 1

Ano de composição: 1830-31

Chopin publicou duas colecções de 12 Estudos, a op.10 (em 1833) e a op.25 (em 1837), e ainda deixou inéditos três Estudos isolados. Apesar de, na sua acepção mais estrita, um “Estudo” ser uma peça destinada a desenvolver uma técnica particular, os Estudos de Chopin transcendem largamente esse âmbito “biomecânico” e são peças plenas de poesia e sofisticação. O Estudo que abre a colecção op.10 destina-se a alongar os dedos da mão direita, mas é também estimulante para os neurónios de quem o ouve.

[Por Valentina Lisitsa]

Scherzo n.º 1 op.20

Ano de composição: 1832
Dedicatário: Thomas Albrecht, um dos amigos mais chegados do compositor

Chopin compôs quatro Scherzos, de carácter arrebatado e fantasioso e de extensão bem maior do que era usual na época. O n.º 1 traz a indicação “Presto con fuoco” e é uma obra tumultuosa e angustiada.

[Por Yundi Li]
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Balada n.º 1 op.23

Ano de composição: 1835-36
Dedicatário: Barão de Stockhausen, embaixador de Hannover em Paris

A balada ganhou, no repertório para piano do período Romântico, um vínculo às narrativas heróicas medievais, por vezes com uma aura fantástica. Nas três primeiras das quatro baladas de Chopin, Schumann pretendeu ver a inspiração de Adam Mickiewicz, poeta que ocupa na Polónia uma posição similar à de Camões em Portugal. De acordo com Schumann, a Balada n.º 1 estaria associada ao poema narrativo Konrad Wallenrod (1828), cuja acção se desenrola no tempo das lutas entre os cavaleiros teutónicos e os povos pagãos que habitavam o que é hoje a Polónia e os países bálticos e que serviu de inspiração ao levantamento polaco de 1830. Não existe porém qualquer prova deste vínculo entre as baladas de Chopin e Mickiewicz..

[Por Krystian Zimerman]

Mazurka op.33 n.º 4

Ano de composição: 1837-38
Dedicatária: Condessa Rosa Mostowska

O exílio em Paris não fez Chopin renegar ou esquecer o país natal: acompanhou com angústia a repressão das aspirações independentistas polacas e quando, em 1849, sentiu que os seus últimos dias se aproximavam, deu instruções à sua irmã Ludwika para que o seu coração fosse levado de volta para a Polónia, tendo sido sepultado na Igreja da Santa Cruz, em Varsóvia. O vínculo à Polónia está também evidente nas muitas peças de inspiração polaca – 15 Polonaises e 60 Mazurkas – que compôs. A “mazurka” é uma dança tradicional polaca, de ritmo ternário, a que Chopin conferiu diversidade rítmica, grandiosidade e nobreza.

[Por Vladimir Horowitz, ao vivo em Viena, 1987]
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Prelúdio op.28 n.º 15

Ano de composição: 1835-39

Tal como os Prelúdios & Fugas de O Cravo Bem Temperado, de Bach, que lhe serviram de inspiração, a colecção de 24 Prelúdios op.25 que Chopin publicou em 1839 também explora sistematicamente os 24 tons maiores e menores.

O Prelúdio n.º 15 (em ré bemol maior e com a indicação “Sostenuto”) é um dos mais famosos e é por vezes designado como “gota de chuva”, por possuir um trecho em que as notas repetidas e monótonas evocam, nalguns espíritos, o ruído da chuva contra uma vidraça – mais concretamente as vidraças da casa de Valdemosa, na ilha de Maiorca, onde Chopin e George Sand viveram durante o chuvoso inverno de 1838-39 – Chopin escolhera fazer uma temporada nas Ilhas Baleares esperando encontrar no tempo seco e soalheiro um alívio para os seus problemas de saúde... Embora Chopin tenha trabalhado nos Prelúdios durante a temporada em Maiorca, desconhece-se se o Prelúdio n.º 15 terá resultado dessa aziaga experiência com o clima mediterrânico.

[Por Maria João Pires]

Nocturno op.48 n.º 1

Ano de composição: 1841
Dedicatária: Laure Duperré, filha do almirante Victor-Guy Duperré e uma das alunas favoritas de Chopin

Chopin não inventou o formato “Nocturno” – a primazia coube ao irlandês John Field – mas foi ele que lhe deu renome e o refinou. Compôs uma vintena, abrangendo toda a sua (breve) carreira, dos op.9, de 1830-31, aos op.62, de 1846. A (aparente) simplicidade inicial do op.48 n.º 1 oculta uma peça de dramatismo intenso.

[Por Valentina Lisitsa]
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Polonaise op.53

Ano de composição: 1842
Dedicatário: banqueiro Auguste Léo

A Polonaise já era conhecida desde o período barroco, mas o facto de a opinião pública europeia ter ficado sensibilizada para a questão polaca com o Levantamento de 1830 e as extraordinárias Polonaises de Chopin contribuiram decisivamente para a popularização do formato.

A Polonaise op.53 é também conhecida como “Polonaise heróica”, devido ao seu carácter arrebatado.

[Por Evegeny Kissin]

Sonata n.º 3 op.58

Ano de composição: 1844
Dedicatária: Condessa Émilie de Perthuis

Numa produção para piano assente em peças breves, as três sonatas fazem figura de excepção. A n.º 1, composta aos 18 anos, é menos conhecida, mas as outras duas são obras-primas que figuram no repertório de boa parte dos grandes pianistas. A n.º 3 é, como a n.º 2, uma obra de grande elaboração e dificuldade técnica, mas, enquanto a anterior é lúgubre, a n.º 3 é afirmativa e luminosa. Foi composta pouco antes da ruptura com George Sand e do agravamento do estado de saúde do compositor.

[II andamento (Scherzo), por Rafal Blechacz]
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Barcarola op.60

Ano de composição: 1846
Dedicatária: Baronesa de Stockhausen, esposa do embaixador de Hannover em Paris

A “barcarola”, que era, na origem, uma canção dos gondoleiros venezianos, foi apropriada pelos compositores clássicos, que fizeram dela uma peça de ritmo embalador e atmosfera onírica. No final da vida, Chopin compôs uma peça a que deu o título de Barcarolle e que é uma das suas obras para piano solo mais extensas (nove- dez minutos) e tecnicamente desafiadoras.

[Por Daniil Trifonov, ao vivo no 16.º Concurso Internacional Fryderyk Chopin, de Varsóvia, em 2010. O pianista, então com 19 anos, obteve o 3.º prémio]

Valsa op.64 n.º 2

Ano de composição: 1847
Dedicatária: Madame Nathaniel de Rothschild

Enquanto as valsas da família Strauss se destinavam a ser dançadas, as 19 valsas compostas por Chopin (apenas oito das quais foram publicadas durante a sua vida) são obras que, embora retendo o ritmo da valsa, não se destinam a pares rodopiantes e são bem mais subtis e requintadas.

A op.64 n.º 2, que é uma das valsas mais conhecidas de Chopin, é uma das peças que integra o bailado Les Sylphides (1909), uma “colagem” de peças de Chopin orquestrada por Aleksandr Glazunov.

[Por Vladimir Ashkenazy]

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