Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Oito obras-primas da música de câmara de Schubert
Franz Schubert (1825)
©Wilhelm August Rieder Franz Schubert por Wilhelm August Rieder

Oito obras-primas da música de câmara de Schubert

Em dois dias consecutivos no Thalia acolhe quatro obras-primas da música de câmara de Schubert. Acrescentámos outras quatro de igual valor

Por José Carlos Fernandes
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Em vida, Franz Schubert não desfrutou do reconhecimento que mereceria e muitas obras suas que hoje são aclamadas como geniais não tiveram estreia nos teatros de ópera ou nas salas de concertos, tendo apenas sido ouvidas por ocasião de encontros informais que tinham lugar na casa dos amigos mais abastados do compositor e que tinham por intérpretes e assistência as pessoas do seu círculo íntimo. A 5 e 6 de Abril, poderão ouvir-se no Teatro Thalia quatro obras-primas da música de câmara de  Schubert. Somamos-lhes outras quatro de igual valor.

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Oito obras-primas da música de câmara de Schubert

Quinteto com piano D.667 A Truta

Ano de composição: 1819

Quem diria que esta peça sublime foi concebida para a recriação de um grupo de músicos amadores em férias? Franz Schubert (1797-1828) tinha 22 anos e estava de férias com uns amigos quando lhe foi encomendado este quinteto, cuja invulgar distribuição nas cordas (violino + viola + violoncelo + contrabaixo, em vez do usual 2 violinos + viola + violoncelo) se explica por serem esses os instrumentistas disponíveis, uma vez que se tinham juntado para tocar um quinteto de Johann Nepomuk Hummel que tinha esses requisitos em termos de instrumentos. A presença do contrabaixo libertava o violoncelo para um papel mais proeminente, o que agradou certamente a Sylvester Paumgartner, o violoncelista amador que encomendou a obra.

O quinteto ficou conhecido como A Truta (Die Forelle) por o seu IV andamento ser uma série de variações sobre a melodia do Lieder homónimo (o D.550, composto em 1817).

A obra terá, eventualmente, sido executada em privado, em 1819, por Paumgartner e os seus amigos, e só foi publicada dois anos após a morte de Schubert.

[III andamento (Scherzo: Presto), por Anne-Sofie Mutter (violino), Hwayoon Lee (viola), Maximilian Hornung (violoncelo), Roman Patkoló (contrabaixo) e Daniil Trifonov (piano), ao vivo na Festspielhaus Baden-Baden]

Octeto D.803

Ano de composição: 1824

Em 1824 o conde Ferdinand Troyer, que era intendente do arquiduque Rodolfo, o principal patrono de Beethoven (e era também um excelente clarinetista) encomendou a Schubert uma peça similar ao Septeto op.20 de Beethoven e o compositor respondeu com o monumental Octeto D.803, destinado a clarinete, fagote, trompa, dois violinos, viola, violoncelo e contrabaixo (ou seja, mais um violino que o Septeto op.20). A estreia desta obra de grande envergadura – a sua execução toma mais de uma hora – teve lugar no palácio do arquiduque Rudolfo e contou com vários dos músicos que tinham estreado o Septeto de Beethoven, 24 anos antes.

[IV andamento (Tema & Variações: Andante), pelo Scharoun Ensemble Berlin (Tudor Records)]
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Quarteto de cordas n.º 13 D.804 Rosamunde

Ano de composição: 1824

Na mesma cidade – Viena – e quase ao mesmo tempo que Beethoven lavrava o seu testamento musical nos quatro últimos quartetos, também Schubert, consciente de que lhe restava pouco tempo de vida, escrevia as suas derradeiras obras, entre as quais estão os quartetos n.º 13, 14 e 15. Os n.º 13 e 14 surgiram em 1824, ano em que Schubert diminui apreciavelmente o débito de Lieder e se concentrou na produção de música de câmara.

O título Rosamunde associado ao Quarteto n.º 13 resulta de o seu II andamento recorrer a uma melodia proveniente da música de cena que Schubert compusera para a peça Rosamunde, Princesa de Chipre, de Helmina von Chézy, estreada em Viena no ano anterior.

[I andamento (Allegro ma non troppo). pelo Takács Quartet (Decca)]

Quarteto de cordas n.º 14 D.810 A Morte e a Donzela

Ano de composição: 1824

O Quarteto n.º 14 é conhecido como A Morte e a Donzela (Der Tod und das Mädchen), por o seu II andamento recorrer à melodia da canção homónima composta em 1817. A obra foi executada apenas duas vezes em audições privadas em 1826 e só seria publicada em 1832 – quatro anos após a morte de Schubert.

[II andamento (Andante con moto), pelo Takács Quartet, registado na Hopetoun House, Escócia, 1998]
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Sonata D.821 Arpeggione

Ano de composição: 1824

Esta sonata muito raramente é tocada pelos instrumentos para a qual foi concebida – arpeggione e piano – sendo o arpeggione substituído por um violoncelo. Na verdade, o arpeggione – uma instrumento combinando características de guitarra (na afinação e por possuir trastos) e violoncelo (na dimensão e por ser tocado com arco) – não granjeou muitos entusiastas e teve vida efémera. Fora inventado em 1823 pelos luthiers vienenses Johann Georg Stauffer e Peter Teufelsdorfer, teve como único praticante de renome Vincenz Schuster (um amigo de Schubert) e a única obra a ele destinada que se conhece é a Sonata D.821, que, provavelmente, terá sido encomendada por Schuster.

O arpeggione desapareceu rapidamente de circulação, mas a partir da década de 1970, alguns (poucos) violoncelistas fizeram questão de gravar a obra na instrumentação original.

[I andamento (Allegro moderato), por António Meneses (violoncelo) e Maria João Pires (piano), ao vivo no Wigmore Hall, em 2012; incluído no álbum The Wigmore Recital (Deutsche Grammophon)]

Trio com piano n.º 1 D.898

Ano de composição: 1827

Apesar de o trio para violino, violoncelo e piano ser um formato corrente no período clássico – Haydn compusera 45 e Beethoven nove –, Schubert só deu atenção ao formato no final da vida, mas os dois únicos que compôs são obras-primas. A obra foi estreada numa sessão privada, a 28 de Janeiro de 1828, pelo violinista Ignaz Schuppanzigh, o violoncelista Josef Linke e o pianista Carl Maria Bocklet (um amigo do compositor). No final, Bocklet abraçou o compositor, cumulando-o de elogios e lamentando que os vienenses não fizessem ideia do tesouro que Schubert representava. E, com efeito, a obra não chegou a ter execução pública durante a vida de Schubert, como aconteceu com muitas obra suas.

[I andamento (Allegro moderato), pelo Beaux Arts Trio, com Isidore Cohen (violino), Bernard Greenhouse (violoncelo) e Menahem Pressler (piano) (Philips)]
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Trio com piano n.º 2 D.929

Ano de composição: 1827

O Trio com piano n.º 2 foi composto em simultâneo com o n.º 1, partilha com ele a extensão vasta (cerca de 45-50 minutos) e foi estreado pela mesma equipa – Schuppanzigh, Linke e Bocklet – a 26 de Dezembro de 1827, num concerto público. Não só foi das poucas peças de música de câmara de Schubert a ser ouvida fora do seu círculo de amigos como o editor Heinrcih Albert Probst, de Leipzig, se propôs imprimir a partitura, que foi lançada poucos dias após o falecimento do compositor.

[II andamento (Andante con moto), pelo Trio Wanderer, em 2007]

Quinteto de cordas D.956

Ano de composição: 1828

Schubert completou o seu único quinteto de cordas no início do Outono de 1828, pela mesma altura em que trabalhava nas não menos magistrais sonatas para piano D.958, D.959 e D.960. Mas enquanto as sonatas são dominadas por uma atmosfera de serenidade e apaziguamento, que contrasta com a angústia e turbação de Winterreise, do ano anterior, e pela busca de limpidez e singeleza, o quinteto é uma meditação sombria e densa, já que Schubert tira partido da junção de um 2.º violoncelo à formação usual do quarteto de cordas para criar momentos de elaboração quase sinfónica. Schubert estava consciente do avizinhar do negrume: a sua saúde dera sinais de declínio ao longo da década de 1820 e uma consulta médica no Verão de 1828 confirmara-lhe que lhe restava pouco tempo de vida. No Outono de 1828 os problemas de saúde que o afligiam (que sugerem envenenamento por mercúrio, então usado como medicamento contra a sífilis) agravaram-se e o compositor faleceu a 19 de Novembro de 1828.

Schubert propusera a publicação do D.956 ao editor Heinrich Albert Probst (que se comprometera a publicar o Trio D.929) mas este rejeitou-o – o compositor granjeara alguma popularidade nos seus últimos anos, mas apenas no domínio do Lied e do piano. A obra só estreou em 1850, sendo publicada três anos depois.

[III andamento (Presto), pelo ensemble L’Archibudelli, em instrumentos de época (Sony Vivarte)]

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