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Ornatos Violeta
Fotografia: Adriana Oliveira

Ornatos Violeta: “O nosso combustível sempre foi a amizade”

A banda portuense celebra os 20 anos do clássico “O Monstro Precisa de Amigos” com um concerto no Campo Pequeno na sexta-feira. Em entrevista, revelam que têm uma canção nova.

Por Luís Filipe Rodrigues
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Bastaram discos (Cão! em 1997 e O Monstro Precisa de Amigos em 1999) para garantir aos Ornatos Violeta um lugar na história do rock nacional. E a separação precoce, em 2002, quando trabalhavam no terceiro, assegurou que o seu legado se mantinha incólume. Antes do derradeiro concerto da segunda reunião da banda, esta sexta-feira no Campo Pequeno, falámos ao telefone e descobrimos que talvez este concerto não seja tão derradeiro quanto se supunha. Talvez até já exista uma canção nova. Sublinhe-se: talvez. Depois de meia hora de conversa, a entrevista terminou com um pedido de desculpas: “Se eu me enganar no nome de quem disse esta ou aquela frase, não se chateiem.” Do outro lado, os Ornatos riram-se. “Não faz mal”, lá disse o baixista Nuno Prata – ou seria o baterista Kinörm?

Como é que esta reunião está a ser diferente da primeira, em 2012?
Elísio Donas: A primeira foi um reencontro. Tínhamos saudades e foi uma surpresa perceber que éramos os mesmos, só que adultos. Neste caso foi diferente. Sabíamos que tínhamos prazer em estar juntos. Por isso, esta reunião foi muito mais natural. Queríamos estar juntos a fazer música e a rirmo-nos das parvoíces uns dos outros.

Ainda se lembravam das músicas? De como se tocavam?
Peixe: Agora ou em 2012?

Agora e em 2012.
Manel Cruz: Tive de voltar a ouvir tudo e de lembrar-me do que fazia com as mãos. Foi assim da primeira vez e desta também. Aquilo que muda mais, e que é determinante, é a maneira como nós nos apropriamos da matéria hoje. Há coisas que até resolvemos de maneiras mais simples.
Nuno Prata: No meu caso, tanto em 2012 como agora, começo por um processo racional, a tentar decifrar aquilo que fiz, e parece que não percebo bem o que está ali. De repente o cérebro liga qualquer coisa e as mãos começam a mexer-se quase por magia. Sem ter de pensar.
MC: De que signo é que és?
NP: O quê?

De que signo é que és?
NP: Touro.
MC: Eu vi logo. Essa cena da magia...
Kinörm: No meu caso a memória é muito física. É evidente que há detalhes que às vezes escapam, mas começando a tocar uma música facilmente a memória vem ao de cima.
P: Comigo é exactamente o mesmo. Tu vais aos poucos puxando por aquela gavetinha da memória que está lá guardada e começa a vir tudo.
MC: O computador começa a trabalhar.
K: Acho que também tem a ver com uma certa insistência. Eu e o Nuno começámos a ensaiar muito cedo, para aí em Fevereiro.
MC: Isto é uma boca, não sei se estás a perceber.
P: Eles têm de trabalhar mais porque são um bocado mais limitados.
K: Também é verdade [risos].
MC: Não são limitados, têm o tempo deles.
K: Trabalhamos mais, é verdade.
ED: Isto depois por palavras escritas vai ser bonito [risos].

Pois vai. Vocês separam-se, em 2002, porque as relações entre vocês não estavam boas, começavam a dar-se mal. Quando é que percebem que tinham mesmo que se separar?
MC: Não há um momento concreto, e por isso é que as coisas não são facilmente reconhecíveis, prolongam-se. As coisas não estavam a funcionar bem do ponto de vista pessoal, e quando é assim depois não é muito fácil que funcionem bem no trabalho. Porque, embora o trabalho não dependa só disso, depende muito. 

Sendo que pessoas que se davam muito mal já fizeram grandes discos. Muitos, até.
MC: Sim. Mas os Ornatos surgiram como um grupo de amigos e o nosso combustível sempre foi essa amizade. Veio tudo da nossa certa cumplicidade. Quando havia alguém que não estava bem, a banda toda ressentia-se. E a dada altura tivemos de decidir qual era o preço que estávamos dispostos a pagar. Porque tens de pagar sempre um preço.

Claro.
MC: Se continuássemos, as coisas ao nível musical e pessoal não iam estar fixes, portanto o pagamento ia ser só o dinheiro. A outra opção era abdicar do dinheiro e ficar com a amizade, com a música intacta e com o futuro para a frente limpinho.
K: Foram-se os anéis, ficaram os dedos.

Seria exagerado dizer que acabaram com a banda para salvar a amizade?
MC: Acabou por ser isso. Eu vejo assim as coisas.
K: Sim.
P: Visto de uma forma romântica é isso. E eu acho que é verdade. Visto de uma maneira mais prática, acho que deixámos de ter prazer em ir para o ensaio. Uma coisa que durante anos e anos era a coisa mais fixe que tínhamos, começou a não ser nada fixe. E isso antes era impensável. Era uma excitação saber que íamos ensaiar.
NP: Parecia a véspera do Natal.

Agora que se reuniram, os ensaios voltaram a ser como a tal a véspera de Natal?
P: Quais ensaios [risos]?
K: Os meus com o Nuno têm sido impecáveis.
NP: Desde Janeiro [risos].
P: Acho que os concertos têm corrido muito bem, e não teriam corrido assim se os ensaios não tivessem corrido tão bem.

E digam-me lá: nesses ensaios e nesses concertos todos ainda não fizeram nenhuma música nova?
P: Fizemos uma.

Fizeram uma?
ED: Eish... A gente não podia dizer.
K: Isso é segredo.
MC: Não, a gente tem curtido. Temos brincado com coisas. Mas nada com que nos possamos comprometer.
P: Esse assunto é confidencial. A gente pode dizer-te, mas depois tem que te matar.

Eh pá, então não me digam mais nada que eu não quero morrer tão perto do Natal.
P: É justo.

Não vamos falar de música nova, mas podem pelo menos dizer-me quais são os planos para depois do concerto do Campo Pequeno?
P: Ora bem, o plano para depois do concerto do Campo Pequeno é permanecermos com a sala [de ensaios] alugada até dia 30 de Dezembro, que é o final do mês que temos pago. E pronto.
MC: Ficamos com um sítio para beber umas cervejas e brincar um bocadinho.
P: E depois, sem compromisso, se as coisas se alinharem, alinham-se. Se não se alinharem, não se alinham.

Box “O Monstro Precisa de Amigos”
Box “O Monstro Precisa de Amigos”

Três vezes monstro

O seminal O Monstro Precisa de Amigos fez 20 anos a 22 de Novembro e a Universal lançou um caixa especial com o disco em três formatos: CD, duplo vinil e, pela primeira vez, cassete. O design é novo e inclui um desdobrável com as letras e fotografias da banda. Custa 60€. O disco foi também reeditado em duplo vinil, tal como Cão! (1997), ambos com o grafismo original e a 30€ cada. HT

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