Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Miguel Angelo: “Não me arrependo de nada”

Miguel Angelo: “Não me arrependo de nada”

“NOVA (pop)” é o novo disco a solo do antigo vocalista dos Delfins, escrito com uma nova geração de músicos portugueses. Falámos com o cantor.

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Miguel Angelo
Inês Félix Miguel Angelo

Miguel Angelo foi um dos artistas mais mediáticos do Portugal dos anos 90. Não só pela popularidade dos discos gravados com a Resistência e os Delfins, como pelos trabalhos que desenvolveu paralelamente na televisão – foi jurado de concursos de talentos e apresentou o Cantigas da Rua, por exemplo –, no teatro, no cinema – fez dobragens de filmes como Pocahontas, Hércules ou Toy Story, no qual dá voz ao xerife Woody – ou na imprensa. 

Hoje, está mais recatado, mas nem por isso menos ocupado. Está a celebrar os 35 anos de carreira e vai lançar, nesta sexta-feira, o mini-disco NOVA (pop), gravado e produzido em parceria com outros músicos: D’ALVA, Chinaskee, Filipe Sambado e Surma (e Primeira Dama, que também deu uma mãozinha numa canção). Segunda-feira, vai estar com todos (menos Primeira Dama) no Casino Lisboa a cantar os novos temas e os velhos êxitos. Num destes dias, sentámo-nos numa esplanada sobre o novo disco e tudo o que está para trás. Mas não havia um lugar ao sol.

Colaboraste com um leque de músicos mais novos, de outra geração, no NOVA (pop). Como é que eles aparecem na tua órbita?
Foi tudo muito natural. Os D’ALVA estavam na mesma agência que eu e já andavam há dois anos a chatear-me para fazermos qualquer coisa juntos. Depois o Filipe Sambado chegou aqui através do Miguel Gomes aka Chinaskee, que foi meu aluno na ETIC, onde coordeno o curso de Produção e Criação Musical, e desde então que me desafiava para fazer qualquer coisa. Já a Surma conheci numa festa de prémios da SPA e gostei muito dela. Mais tarde convidei-a para trabalhar comigo. 

E como é que foi o vosso processo de trabalho?
Eu tinha umas demos em casa, não muito desenvolvidas. E depois dei os temas a estes grupos – Filipe e Miguel, Alex [D’Alva Teixeira] e Ben [Monteiro, dos D’ALVA] e Surma – e disse para fazerem o que quisessem com eles. Foram produtores artísticos, tocaram todos os instrumentos, cantaram. Eu só canto. A única coisa que mantive como marca de autor foram as letras. As canções inicialmente eram minhas, mas depois eles transformaram bastante algumas delas.

Quando lhes envias essas canções, para eles começarem a trabalhar, já estavas a pensar neste EP que agora temos em mãos?
Estava a pensar neste EP. Na verdade, nem sei se isto é um EP, se é um mini-álbum. Porque, originalmente, estava a fazer um disco que seria o Terceiro, uma coisa mais conceptual ligada à literatura e a personagens de romances.

Presumo que a "Aquista" tenha sido feita para esse tal disco.
Sim. Mas ia fazer uma coisa mais conceptual, mesmo em termos fotográficos e tudo. Só que quando recebi estes convites – e sobretudo o do Chinaskee, que despertou um bocadinho a coisa – comecei a pensar que seria mais interessante, por altura dos meus 35 anos de carreira, colaborar com artistas novos e de quem gosto na música portuguesa. E se calhar este formato de disco mais pequeno com seis ou sete temas, hoje, é o ideal. 

Também acho.
Assim posso dedicar-me o dobro a cada uma das canções, e tratar todas como singles. Com todo o carinho e amor, como se diz. É um formato que me permite fazer coisas novas e ir apresentando ao vivo, para não estar sempre só a tocar um setlist de golden oldies.

No texto de apresentação do disco dizes que a geração destes músicos é a primeira que te aborda de uma forma “honesta e despretensiosa". O que queres dizer com isto?
Durante algum tempo senti que as novas gerações não queriam ter nada a ver com Delfins. Era quase tóxico. E agora encontro pessoal completamente noutra, sem querer saber disso. E por outro lado também a fazerem música de que gosto muito, a terem uma estética de que gosto muito e que se calhar, na geração anterior, dos anos 2000, não via em ninguém. Claro, apareceu o Samuel Úria aqui há uns tempos, ainda com as Velhas Glórias, a tocar no Lótus, o bar dos Delfins em Cascais, na primeira parte de Os Pontos Negros em início de carreira, e achei aquilo muito interessante. Achei todo o movimento da FlorCaveira muito interessante, mas não era para mim. Até por razões que ultrapassam a própria música, e têm mais a ver com religião e etc. 

Sendo que eu me lembro de te encontrar nos concertos da FlorCaveira.
Gostava muito. Mas como espectador, como fã. Nunca como elemento activo. Se houvesse agora uma banda onde pudesse estar seria com o Sambado, ou com a Surma, ou com o Chinaskee, ou com os D'ALVA. Seriam bandas nas quais me integraria completamente.

Curiosamente, os D'ALVA eram da FlorCaveira.
Sim, o Alexandre.

O Alex começou lá e o Ben chegou a tocar em bandas do Tiago [Guillul].
Mas têm uma estética mais pop. E a realidade é que, tirando a Surma, eu não fui procurar ninguém. Foram as pessoas que vieram ter comigo. Achei que era humilde, da parte deles, irem buscar um gajo muito mais velho – que ainda por cima tinha esse peso todo de uma carreira, e dos Delfins e tal – e sem preocupações levarem-me para as caves deles, e deixarem-me fazer lá música como se fosse um deles. E depois chegar lá o Manel Lourenço [Primeira Dama] e fazer uma cena. Isso é que me entusiasmou. São a primeira geração com que me sinto confortável a beber uma cerveja, a conversar, a ir aos espectáculos e a cantar com eles no palco.

Gostava de explorar a toxicidade dos Delfins de que falavas há pouco. Lembro-me de que, nos anos 2000, quando surgem os primeiros blogues e aparece o Levanta-te e Ri, vocês se tornaram uma punchline. Como é que explicas isso?
Às vezes basta começar um e aquilo pega. Eu posso ter na minha cabeça três explicações para isso. A primeira tem a ver com o grande sucesso e grande exposição que os Delfins tiveram, mas acho que por si só isso não seria o suficiente.

Até porque outras bandas tiveram o mesmo sucesso.
É isso. Só que depois, em 2000, os Delfins começaram um bocadinho a subverter a sua carreira, de grupo pop mainstream de êxitos, fizeram um disco chamado Se7e, fizeram coisas muito diferentes, mais experimentais, e afastaram-se um bocadinho do limelight. Acho que isso deu-nos alguma fragilidade perante os media e a crítica musical. Já não vendíamos tantos discos e por isso já podíamos ser enquadrados de outra maneira. Isso abriu um bocadinho o terreno para depois vir a malta da stand-up comedy e pegar nos Delfins. E depois há outra coisa, e isto é uma visão muito pessoal, mas sinto que os músicos estão muito mais limitados do que quaisquer outros artistas. Posso ver um tipo a fazer Macbeth no Teatro Nacional D. Maria II e depois a apresentar um concurso e isso não afecta a credibilidade dele. Mas quando vêem um gajo no palco, com letras contra o serviço militar obrigatório, e depois passados uns anos está na TV a apresentar um concurso, as pessoas acham que ele perde toda a credibilidade. 

E imagino que isso seja ainda pior num país pequeno, como Portugal. Onde estás mais exposto.
Pois. Repara que os Delfins tiveram um êxito tão grande, tão grande, que eu próprio entrava num sítio qualquer e estava a tocar a "Sou Como um Rio" e já não podia com aquilo. Ainda assim, não me arrependo de nada do que fiz.

Mas hoje estás muito mais recatado, não apareces tanto. Porquê?
É a idade. E é ter menos tempo para fazer coisas.

Não foi uma reacção a isto tudo de que estávamos agora a falar?
Acho que a reacção foi logo na carreira dos Delfins. Quando nós parámos dois anos e em 2000 fizemos aquele disco, o Se7e. Depois começámos a fazer um som muito diferente, no Babilónia e nos discos seguintes. Tudo isso foi uma reacção, e no fundo acabou por fazer com que o grupo tivesse uma carreira mais interessante, mas que vendesse menos. E aí foi uma decisão de todos. Nem foi uma coisa muito pensada. A exposição era tão grande que nós próprios estávamos um bocadinho fartos de nós.

Esta conversa da percepção pública é interessante. Porque lembro-me de ver-te em concertos mais alternativos, nos anos 2000. E de comentar que, apesar de cantares com os Delfins, até tinhas bom gosto e ouvias coisas que não tinham nada a ver com o que fazias.
Mas o princípio dessa conversa toca exactamente na mouche daquilo que estamos a falar. “Ele tem bom gosto, mas Delfins?” E eu faço uma pergunta: mas que Delfins? Os Delfins dos primeiros dois anos, ou os Delfins do rock sinfónico, ou os Delfins super-pop do Saber Amar e da música brasileira.

Claro.
Os Delfins foram vários Delfins.

Os Delfins começaram na Fundação Atlântica.
Claro.

Foram ao festival da canção e ficaram em último.
Pois. Portanto, pergunto sempre: que Delfins? Porque nós podíamos ter feito oito grupos diferentes durante os 25 anos. Os Delfins foram muitas coisas. Percebo que haja um grupo muito grande fanático do Ser Maior, que depois não goste do Saber Amar. Ou que não goste do Se7e. Ou que depois só goste do Delfins homónimo. Ou que goste de A Solidão do Sonhador [e Outros Voos do Grande Urso Branco]. Percebo isso. Não percebo é que digam que “ele tem bom gosto, está sempre em concertos porreiros, e depois é dos Delfins”. É estranho. Isso aconteceu pela primeira online, num fórum que foi muito famoso.

O FórumSons. Eu andava lá, tu assinavas como Tobias.
Exactamente. Às tantas, tive que arranjar um alias, apenas para poder conversar com as pessoas, e poder dizer que este disco é fixe e tal. Porque se fosse o Miguel Angelo se calhar ninguém falava comigo [risos]. Ficava sozinho no recreio, percebes? Inventei aquela personagem para poder estar entre jornalistas e amantes de música, num meio que era muito interessante, e podermos falar sobre música. Às vezes com alguma acutilância, a brincar mais ou menos. Mas para poder estar ali no meio deles. Porque se entrasse como Miguel Angelo expulsavam-me logo, não é? Uma vez convidaram-me para escrever num site que era A Puta da Subjectividade. Lembras-te disso?

Claro. Era o site do Pedro Gomes e do André Santos, que esteve muitos anos na Time Out.
Pronto. E eles queriam convidar a Tobias para escrever lá. Mas como a Tobias não revelava a identidade não podia escrever para lá. Teria sido muito engraçado dizer "está bem, eu sou o Miguel Angelo, para quando querem o artigo?". Teria sido engraçado ver a reacção deles. Havia jornalistas, teus colegas, gente da Blitz e tal, que quando souberam que eu era a Tobias não acreditaram. Diziam "não é possível".

Eu sei, eu sei.
Isso é que a mim me deu muito gozo. Mas não fiz isso para me dar gozo. Fiz isso para poder conversar sobre música.

É engraçado falares de A Puta da Sujectividade, porque acho que o Pedro Gomes chegou a ensaiar com a banda de noise-rock dele, os CAVEIRA, no Lótus. Na altura eram ele, o Quim Albergaria e a Rita Vozone.
Sim. Eles ensaiavam lá porque a Vozone foi produtora executiva de um disco [de tributo aos Delfins] chamado Delfins' not Dead, que foi gravado no Lótus.

Foi até editado pela Lotus ReKords.
Sim, com aquelas bandas do hardcore, na altura em que havia milhares de bandas de hardcore. Foi a única vez que senti que houve assim uma aproximação aos Delfins. Porque, além desse disco, acho que não há muito mais versões da música dos Delfins.

O que levou os Delfins a abrirem o Lótus Bar?
Começámos a tocar em bares como aquele. Não em concreto naquele, que se chamou Yellow Submarine, mas noutro que era o Penny Lane. Bares de fanáticos dos Beatles no Largo das Grutas, em Cascais. E sempre gostámos muito de tocar em clubes. Na altura aquilo estava a trespassar e o Fernando [Cunha] disse "eh pá, se calhar temos aqui uma oportunidade... Um dos nossos sonhos era ter um clube de música ao vivo". E era.

Fecharam aquilo porquê?
Era um sítio com um som bom, uma capacidade óptima de 200 pessoas para fazer concertos. Só que o problema é que era em Cascais. Se aquilo fosse em Lisboa provavelmente continuaria aberto e seria um bom negócio, como o Musicbox. Mas ali não dava. A dada altura já estávamos a fazer concertos dos Delfins para pagar o Lótus [risos]. Achámos melhor fechar a torneira. Mas não me arrependo, porque nos primeiros três anos houve concertos incríveis e também conheci muitos músicos lá.

Ao longo da tua vida já fizeste muita coisa. Foste músico, fizeste dobragens, trabalhaste na televisão, tiveste um bar, um estúdio.
Agora estou na ETIC.

És professor. Até chegaste a ser arquitecto.
Fui arquitecto na Câmara de Cascais entre 90 e 91.

Exactamente. Já com os Delfins a tocarem.
Sim. Tirei o curso e depois fui para lá trabalhar como arquitecto. Mas tudo o que fiz, à excepção da música, foi por convite. Para a televisão fui convidado, para as dobragens da Disney fui convidado. E se calhar, nos anos 90, aceitei coisas demais. Mas como eram coisas giras... Uma vez até me convidaram para escrever n'O Crime. Lembras-te desse semanário?

Perfeitamente.
E escrevi um artigo, o meu primeiro para o jornal, contra a pena de morte. N'O Crime.

E publicaram?
Claro que publicaram. Ainda fiz seis ou sete artigos. Achava tão weird que aceitei o desafio.

Nunca pensaste no mal que isso podia fazer à tua imagem pública?
Eh pá... Entre os leitores de O Crime havia pessoal que gostava de ouvir a minha música, que gostava de Delfins. E era um bocadinho esse o princípio. Sei que o meio é a mensagem, mas sempre lutei contra isso. A minha luta contra o McLuhan tem sido com muitas derrotas, mas essa é a minha guerra. Porque é que não hei-de ser levado a sério só porque apresentei um programa de gajos a subir ao palco e a cantar? Ainda por cima era música, não era de culinária. Sim, porque o Cantigas da Rua era um programa de cantigas, não era de cozinha. E já recusei coisas desse tipo, obviamente.

De cozinha?
Sim. Ainda agora recusei ir a um programa desses da manhã. Pediram-me para ir cozinhar, mas não sei cozinhar.

Faz sentido. Por falar em Delfins, vocês tocaram em Cascais este ano, nas Festas do Mar. Foi uma data única, ou pode ter sido o princípio de algo?
Não. Aquele concerto foi único, foi com uma Orquestra Sinfónica [risos].

Está bem. Mas vai haver mais concertos dos Delfins?
Nunca fechei a porta a fazer uma espécie de festa à volta das canções dos Delfins. Mas nunca irei fazer canções novas com os Delfins.

Nunca digas nunca.
Nunco digo nunca, mas não vejo isso a acontecer. Já vejo mais a acontecer uma reunião do grupo para celebrar as canções dos Delfins, para tocar aquelas canções que estão fechadas e foram editadas e tiveram aquele êxito. E percebi naquele concerto, em que se bateu o recorde das Festas do Mar, que há muita gente a querer ouvir. Estiveram lá mais de 40 mil pessoas. Mas agora o que me interessa é que estas músicas do NOVA (pop) sejam a minha carreira e vou levá-las em digressão por alguns teatros e auditórios do país.

Como é que vão ser esses concertos em auditórios de que falas?
O primeiro, no Casino Lisboa, vai ser com todos os convidados do disco. Claro que é difícil replicar isso, portanto o que vou fazer – e já tenho algumas datas aí marcadas – é ter pelo sempre menos um deles. Nalguns casos até fazem eles a primeira parte, e depois cantam comigo as duas músicas e mais uma ou outra. Mas vou tentar sempre ter comigo ou o Filipe, ou o Filipe e o Chinaskee, ou a Surma, ou os D'ALVA.

Se quisesses até conseguias quase fazer um festival com eles todos.
[Risos.] E este é só o volume um.

Há planos para um volume dois?
Poderá haver. 

Isso quer dizer que já tens alguma coisa pensada.
Se calhar.

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