Ralphie Choo
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Ralphie Choo: “Sentimos uma necessidade de estímulos constantes”

É um dos artistas do momento em Espanha. Falámos antes do concerto de sexta-feira, no Jameson Urban Routes, onde apresenta o álbum ‘Supernova’, editado em Setembro.

Luís Filipe Rodrigues
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Quatro anos depois da última edição, o Jameson Urban Routes está de volta. Entre quinta-feira e sábado, vão passar pelo Musicbox artistas como o cantor Eddie Chacon, a carioca Ana Frango Elétrico ou o produtor croata Only Fire, no primeiro dia; o rapper londrino Lord Apex e o DJ português Pedro da Linha, na sexta-feira; ou a banda pós-punk portuense Conferência Inferno, os espanhóis Dame Area e o venezuelano DJ Babatr, no sábado, entre muitos outros. O destaque desta edição, no entanto, é a estreia em Portugal de Ralphie Choo, um dos fenómenos do momento em Espanha, que editou recentemente SUPERNOVA, um álbum enformado pela internet e pela geração que ela formatou, inquieta, desatenta, constantemente à procura de novos estímulos. Para ouvir na sexta-feira.

O teu nome artístico é inspirado no Ralph Wiggum, dos Simpsons. Ele não é um miúdo popular, de todo – é alvo de bullying, é um coitado. O que te atrai nele?
Por ser um bocado a definição de pureza, age inconscientemente e sem querer fazer mal a ninguém. Ele não sabe de nada nem finge saber, limita-se a viver com o que tem e é feliz. Não pretende resolver grandes enigmas ou fazer perguntas para as quais não há resposta. Só quer encontrar o amor...

Por acaso, o teu apelido artístico, Choo, também vem dele, de um episódio da quarta temporada em que ele se declara à Lisa Simpson. É consensual que esses foram os melhores anos da série. Continuas a vê-la, ou gostas só dos episódios antigos?
Parei de ver há muito tempo. A única coisa que resta é a lembrança de vê-los com a minha avó, quando voltava da escola, e de alguma alusão a um episódio – imagino que um dos bons – ou de uma conversa em particular. [Os Simpsons] marcaram uma geração.

O caso dos Simpsons parece-me paradigmático. Frequentemente, quando um projecto se arrasta por muito tempo, começa a perder relevância. Por exemplo, imaginas-te a fazer música daqui a 30 anos, quando já fores velho?
A premissa é não parar de brincar. Muitas vezes falamos em envelhecer porque ficamos parados e confortáveis no nosso lugar, assumimos um papel e aceitamos uma rotina. Não te posso dizer o que acontecerá no futuro, mas tento frequentemente lembrar-me disto.

A primeira música do álbum, “Juan Salvador Gaviota”, partilha o título com um livro de Richard Bach [Fernão Capelo Gaivota, em português]. Centra-se numa gaivota diferente das restantes; é uma história de autodescoberta e ruptura com as normas. Revês-te nela?
Não tanto com a gaivota, mas com a história. Tal como algumas pessoas se orientam pela Bíblia e olham para Jesus à procura de respostas, eu olho para o livro. O que não deixa de ser curioso, tendo em conta que, entre outras coisas, o livro também versa sobre como até as correntes [de pensamento] que tentam fugir à religião acabam por se tornar uma religião.

Abrir o disco com essa canção foi uma declaração de intenções?
Foi sobretudo uma opção estilística. Queria fazer uma ouverture, uma introdução, que remetesse para a música mais clássica, orquestral e assim.

Costumas dizer que Yung Lean é uma grande referência para ti. Mas, por acaso, até vejo muitos pontos comuns entre a tua música e a que os amigos dele, no colectivo Drain Gang, fazem. Revês-te mais no Yung Lean do que no Bladee, por exemplo?
As semelhanças não são tanto musicais, mas estéticas. Adoro o universo criativo de Yung Lean, a imagem, os videoclipes, as suas estórias e histórias. Gosto muito da maneira como ele vê o mundo e como o reflecte no seu imaginário – no merchandising, nas fotos que mete nas redes sociais, em tudo. Mas, musicalmente, encontro mais pontos de contacto com um dos projectos paralelos dele, Jonatan Leandoer96.

Sinto a influência do Drain Gang em muitos artistas do teu colectivo, Russia IDK. Foram influenciados por eles?
Obviamente. Crescemos a ouvir a "Ginseng Strip 2002" e todos eles são uma referência partilhada por todos nós. De certa forma, sonhávamos fazer algo parecido com a [editora deles, a] YEAR0001.

E os outros artistas de Russia IDK, influenciaram-te?
Bastante. Sinto que não seria nada se não tivesse absorvido o conhecimento que eles me transmitiram. Agradeço que me tenham ensinado a olhar as coisas à lupa, as pequenas mudanças e os enquadramentos imperceptíveis.

Isso nota-se no teu álbum. Não só as músicas são muito diferentes, como na mesma música acontecem coisas muito diferentes. Às vezes parece que nos três minutos de uma faixa ouvimos três canções. 
Queria evitar as estruturas convencionais, imbuir a música de uma narrativa quase cinematográfica, em que muitos personagens vão entrando e saindo de cena, e juntar tudo com muito cuidado. Suponho que também seja uma questão geracional. Sentimos uma necessidade de estímulos constantes.

Pois. Sinto muito a influência da internet nas tuas canções. A forma displicente e imediata como saltamos de tiktok para tiktok, ou de story para story – no Instagram. Há uma certa esquizofrenia na maneira como consumimos esses conteúdos, e sinto o mesmo na tua música.
Completamente [risos]. O algoritmo mostra-nos conteúdo que parece aleatório, mas que na realidade é informado pelos nossos gostos e interesses, adaptado de acordo com o seu gosto. Há algo de belo em tudo isso – histórias, composições, pura poesia e infinitos formatos. Sinto que isso está muito próximo do processo de produção musical a que estou habituado. Samples, reciclagem, recontextualização de símbolos, etc. É um bocado como tirar de um baú roupa de diversas épocas e fazer pequenas alterações para lhe dar uma segunda oportunidade.

No teu disco oiço ecos de flamenco, dembow, r&b, hyperpop. Como foi a tua educação musical, e em que fase da tua vida tomaste contacto com estes géneros?
Quando era mais novo ouvia muito o Paco de Lucía e repertório clássico e do período romântico. A minha mãe gostava muito desse tipo de música. E depois o meu pai mostrava-me coisas mais apunkalhadas e vanguardistas, também Jamiroquai, Kid Creole ou Prince. Durante muito tempo só ouvia música destas alturas, mas quando entrei na universidade comecei a ouvir música mais activamente. E foi muito importante estar rodeado de boas influências nos últimos anos.

Muitos artistas, como a Rosalía e o C. Tangana, aí em Espanha, mas também em Portugal, têm passado os últimos anos a misturar a pop e as electrónicas globais com as músicas tradicionais. Tu fazes o mesmo, mas de uma maneira muito singular, mais esquizofrénica. O que achas que leva tantos miúdos das nossas gerações a fazer música em que o passado, o presente e o futuro se cruzam?
Para progredirmos [enquanto sociedade], temos de entender o passado, contemplar o presente e imaginar o futuro. E acho que é por querermos que a música evolua que tanta gente está a olhar para baixo e para cima, em todas as direcções, em busca de inputs que ajudem a criar algo novo.

Costumas ter um sorriso meio diabólico nas fotografias promocionais. E até na capa do disco. Porquê?
Lembra-me o Aphex Twin. Normalmente, o primeiro contacto com o sorriso é amável e reconfortante, mas quando o sorriso continua a alargar-se, sentimo-nos incomodados, o efeito é o contrário. Gosto de brincar com a dualidade. E gosto da própria estética.

Continuamos em discurso directo

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